Missão AXE


Manual de diplomacia intergaláctica

Por Álvaro Silveira



Uma coisa é certa. Existe vida inteligente no espaço sideral — mesmo. E tu que estás aí no espaço a laurear a pevide precisas de ter consciência desse facto. É que estás aí mesmo a jeito, pairando na órbita terrestre como um inocentezinho. És como aqueles seguranças incógnitos, dos filmes de acção, que são obliterados sem dó nem piedade por um ninja de aluguer — com aquele fiozinho de pesca por trás, estás a visualizar a coisa? Horrível, não é?

Portanto, estarás preparado para um encontro imediato? Claro que não. Nem com os teus amigos te entendes, quanto mais com um xenomorfo vil e repugnante. Sim, este manual é para ti, astronauta valente, mas desinformado. O futuro da raça Humana depende das tuas capacidades enquanto cicerone.

Antes de tudo, lembra-te do Cesar Millan e o seu programa “Dog Whisperer" (o que passa na Sic Mulher, não me lembro a que dia.) O truque é manter a calma e a assertividade. Passar energias positivas. Respirar fundo. Soltar a tensão. Claro que os visitantes intergalácticos podem ser uns tipos impecáveis como o E.T — e acabar tudo num grande convívio de boas-vindas com direito a bicos de pato e sumos gaseificados de laranja/maracujá —, mas o mais provável é quererem limpar-nos o sebo para nos usarem como matéria-prima para camisolas de Inverno. Não estou a ser pessimista, estou apenas a usar o bom senso.

Vamos, então, criar alguns cenários hipotéticos com diversas tipologias alienígenas e a respectiva abordagem diplomática.

CASO 1: OS DEVORADORES DE MUNDOS
Estás todo relaxado da vida a lavar loiça (lava-se a loiça no espaço?), quando, subitamente, reparas que o planeta está cercado por milhares de naves colossais com um design, digamos, pouco user friendly. Não te armes em herói, esses gajos não vieram em excursão a Fátima. Já limparam uma mão cheia de civilizações nas últimas semanas. É a cena deles. Não questiones, não filosofes. O universo tem destas coisas. Tenta juntar-te a eles, passar informações, ser útil. Claro que passarás a ser um traidor, mas não haverá ninguém na Terra para te julgar.

CASO 2: A NAVE BRINCALHONA
Estás tu todo entretido a apertar parafusos num módulo qualquer, quando, pelo canto do olho, reparas que uma nave fofinha te observa. Fazes um gesto amigável, ela reage com uma piruetazinha infantil. Fazes outro gesto mais brincalhão, ela responde com um joguinho de luzes. Que momento poético, a nave parece um cachorrinho patusco com vontade de brincar. Um momento Spielberg de uma beleza extraordinária. Cuidado! Um passo em falso, um gesto mal medido, um espirro exagerado e este “cachorrinho” poderá revelar-se uma desagradável surpresa nuclear.

CASO 3: A ESFERA MISTERIOSA
Limpa o vidro do teu capacete, estás a imaginar coisas.

CASO 4: A BACTÉRIA
Sentes-te indisposto? Os teus olhos jorram líquido preto? Sentes as veias a pulsar? Sentes que o teu corpo começa a fazer coisas que tu não queres? Estás a ficar azul? Parabéns! És o paciente zero de uma bactéria letal. Não há diplomacia possível. É uma praga intergaláctica, e tu tiveste o azar de estar no sítio errado à hora errada. Tem a decência de te projectar para o espaço em cuecas e torna-te num mártir.

CASO 5: A PRESENÇA
Sentes uma presença maléfica no habitáculo já há alguns dias? Será um ataque de ansiedade? Será uma forma de vida misteriosa? Só há uma forma de o saber: morreres. Ataques de ansiedade não matam.

E, para terminar, deixo aqui um convite à reflexão sob a forma desta pretensiosa citação.

"But who shall dwell in these worlds if they be inhabited?
Are we or they Lords of the World?
And how are all things made for man?"

The Anatomy of Melancholy, Kepler

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