Obrigámos os Sabre a falar connosco

Por Paulo Cecílio


A única foto que existe dos Sabre. No mundo.

Podia começar este artigo com uma daquelas expressões muito utilizadas pela malta que escreve sobre música, algo do estilo: “Os Sabre nasceram das cinzas dos Osso.” Isso, ou uma merda assim do género, mas estaria a mentir: nem os Osso são uma fénix, nem os Sabre nasceram per se, estavam apenas adormecidos no imaginário rave do Bruno e do Carlos, dois tipos que, este ano, se decidiram finalmente a deixar de lado as guitarras (mais ou menos) e a pegar em sintetizadores (que saudades, James Murphy) para fazer algumas das melhores malhas de electrónica que ouvirão neste quase findo ano de 2012.

Por enquanto existem apenas alguns temas soltos no Soundcloud e uma mão cheia de live acts que têm colocado bastante gente excitada — nos dois sentidos — com o que o duo de Leiria/Lisboa tem feito, mas, como saberão daqui a quatro respostas, em breve poderemos ouvir a música dos Sabre como deve ser ouvida, num maravilhoso objecto físico que perdurará para a eternidade (ou perdido, após a sua utilização enquanto pé de mesa, que é algo que não convém fazer com um iPod). Eis a entrevista: os trocadilhos com samurais ou tigres deixo para vocês. Até porque não me ocorre nenhum engraçado.

VICE: Que género de drogas andaram vocês a tomar nos últimos seis anos que vos levaram a passar de algo tão fodido do cérebro quanto os Osso para uma coisa tão gingável como Sabre?
Bruno Silva: Nunca as vimos como duas coisas indissociáveis, nem tivemos quaisquer pretensões kvlt de seguir apenas uma via de fodidez. Podíamos estar a fazer alto estrilho no palco e depois ir para o carro ouvir a Missy ou a Amerie com o mesmo fervor. Paralelamente, sempre houve uma grande ligação à música de dança. Principalmente da parte do Carlos, que desde bem cedo começou a fazer as suas mixes caseiras e cujo passado está firmemente enraízado nas compilações da Alcântara Mar, e cenas assim. A verdade é que, por diversos motivos, chegámos a um ponto em que deixámos de estar tão activos enquanto Osso e decidimos aproveitar essa relativa estagnação para pôr em prática ideias que já há muito palpitavam nas nossas cabeças.

Em que rave perdida no pinhal de Leiria delinearam pela primeira vez o projecto Sabre? Há quanto tempo tinham em mente fazer malhas deste género?
Nunca tivemos conhecimento de qualquer rave perdida pelo pinhal de Leiria, mas a existirem seriam de trance — logo, para esquecer. Quanto muito, o facto de passarmos por ele a caminho de alguma das discotecas de praia da zona poderia carregar algum peso nostálgico por essas noites adolescentes bem parvas em que no meio de um set bem azeiteiro — em conformidade, portanto — lá se soltavam duas ou três malhas com interesse. A ideia já tem alguns anos, mas inicialmente passava mais por funcionarmos enquanto uma production team. No entanto, na dificuldade de encontrar vozes para tal (ou por não conhecermos gente para isso) fez com que aproveitássemos o tal “hiato” para começar a delinear as coisas de um modo mais auto-suficiente, sem grandes concepções prévias.

No vosso Soundcloud têm géneros diferentes para cada tema, i.e., chamam stalker house à “Nightdrive To Bolland”, deep techno à “Post-Les”, e por aí fora. Qual é a vossa necessidade de dificultar a vida aos hipsters obsessivos-compulsivos que não descansam enquanto não taggarem correctamente a música que guardam na HDD?
Os hipsters estão mal habituados. De qualquer das formas, essas tags valem o que valem — i.e., nada — e poderíamos muito bem chamar tudo de kraut.

Para já ainda só lançaram temas soltos, disponibilizados nesta mesma página. Têm existido conversas para edições físicas por parte de alguma editora? A ideia é editar em vinil por causa dos graves, ou em cassete via revivalismos?
Têm havido algumas conversas e na calha estão já dois lançamentos a acontecer algures em 2013. Em vinil, para misturar com astúcia e coração. Temos todo o maior respeito pelas cassetes, ainda assim.



No que toca à composição, os Sabre ainda estão numa fase de experimentar com synths e afins ou já existe um plano muito bem traçado daquilo que entendem que deve ser a vossa música?
O plano nunca poderá estar muito bem traçado, porque grande parte do interesse está nessa mesma experimentação e num certo descontrolo benigno que conduza as canções por caminhos menos previsíveis. Também porque não sabemos funcionar de outro modo.

Os vossos live acts têm tido o sucesso desejado, ou seja, já tiveram a oportunidade de ficar todos cegos no WC de algum clube nocturno rodeados de miúdas de dezanove anos?
Os nossos live acts têm tido o sucesso desejado, até porque, por agora, as expectativas passam por algo tão simples como servir de banda sonora para as ancas e isso tem vindo a acontecer. Se alguém começar a chorar enquanto dança, isso seria maravilhoso. Agora se falas em favores sexuais, isso é para malta como os Manowar.

Onde estavam vocês em '92, e porque é que o drum & bass não salvou a vida de ninguém?
Em '92 devia estar a curtir de Dire Straits e o Carlos a apanhar com os discos de Genesis e Yes do pai, assim de soslaio. O drum & bass nunca salvou a vida de ninguém, porque depois de uma fase incrível ainda conotado com o jungle ('92 até '96, para aí) entrou num cul-de-sac criativo que descambou em algo completamente bovino. Culpe-se o Wormholes, talvez.

Considerando que as fotos que partilham no Facebook são reminiscentes de uns perdidos anos 80 e similares às modas hipnagógicas dos últimos anos, podemos caracterizar os Sabre como retromaníacos?
As imagens são mais ou menos aleatórias e até estão mais ligadas ao início dos anos 90 — UK rave, anyone? —, a paraísos estivais imaginários ou alguns conceitos cosmológicos vagos. A música de dança é terreno privilegiado para potenciar uma certa nostalgia em tempo real — o modo como o techno projectava um futuro que nunca aconteceu, a demanda da balearic beat pelo endless summer, etc. —, mas não existe da nossa parte nenhuma tentativa de resgatar algum elo perdido no passado e fazer disso bandeira de modo consciente e/ou oportunista. Grande parte dessa malta vive de rehashismos demasiado referenciais; nós olhamos para o passado como um legado sem grande peso nas nossas decisões, apenas com a reverência que merece.

Que balanço fazem da música electrónica made in Portugal? Que coisas recentes feitas por cá vos têm tirado do sério?
No que diz respeito a cenas mais ou menos dançáveis, parece estar de boa saúde. Os Photonz têm vindo a lançar discos cada vez mais ambiciosos e alienados de todas maneiras certas, além da restante crew da One Eyed Jacks. A música nascida nos bairros periféricos de Lisboa no seio das comunidades africanas — com destaque para a Quinta do Mocho — e que tem feito avançar o kuduro, o funaná ou a tarraxinha com toda a sinceridade e nervo que estas coisas pedem. Destaque para o trabalho da Príncipe nesse campo, ao documentar aqui e agora aquilo que tem sido uma das movimentações mais frescas e vitais que já vimos nesta cidade. Aguardamos também com expectativa alguma coisa nova de Niagara.

Visto que estamos em 2012, ainda faz sentido consultar/escutar o catálogo completo da Trax?
Suponho que num catálogo tão extenso, exista para lá alguma coisa sem interesse, mas sim, faz todo o sentido. Existem por ali demasiadas pérolas, para descobrir sem qualquer interesse antropológico. Seja em 2012 ou em 2032.

Já fizeram remixes/reworks de Talking Heads e Nightcrawlers. Para quando uma dos Memória de Peixe?
À partida, teremos apenas interesse em remisturar música da qual gostamos. Daqui podes tirar as tuas conclusões.

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