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      Visitar exposições de arte nos sonhos de um gajo

      July 19, 2013

      O Torbjørn Rødland é um gajo estranho. Mas digo isto na melhor acepção possível da palavra. É que a sua estranheza reflecte-se em fotografias brilhantes e subversivas que mexem com a nossa percepção da cultura visual. O que, à primeira vista, parecem imagens bonitas (até banais), que se encontram todos os dias, revelam-se, afinal, como grotescas e particulares. Este elemento de surpresa é o que nós, realmente, gostamos. Vanilla Partner, o seu fantástico novo livro, acabou de ser editado e nós decidimos falar com ele sobre a sua genialidade.

      VICE: Enquanto passeava pelas páginas do livro, não conseguia deixar de pensar: “Onde é que ele inventa estas ideias?” Afinal de contas, qual é o teu processo habitual de criação?
      Torbjørn Rødland: Bem, algumas fotografias são versões de imagens de sonhos, mas são criadas pelo meu subconsciente. Às vezes, visito as exposições de outros artistas, enquanto estou a dormir. E, se se tratar de um bom trabalho fotográfico, acordo bem-humorado e pergunto ao meu lado consciente: “Será que alguém já fez isto? Se não, vou fazê-lo!” Mas isto é pouco típico. Acho que consigo ter ideias e receber ordens do meu cérebro sonhador sem ter, mesmo, de dormir ou de mandar substâncias psicotrópicas. Normalmente, vejo potencial num objecto barato, num jpeg de um blogue ucraniano, ou cenas do género. Depois de ter o objecto ou o jpeg a “viver” na minha mente durante um bocado, tento perceber o seu potencial. Na fotografia que acabo por produzir, o conflito ou a qualidade que inicialmente captaram a minha atenção são acentuados ou transformados em algo mais assertivo. Improviso sempre quando inicio o processo de fotografar, mas o clique inicial é importante para ajudar a manter o resultado interessante.

      O que realmente adoro é a maneira como agarras no espectáculo visual — estilo o “espectáculo” do Guy Debord — e como o subvertes. Pensas em antecipação nestes momentos de caos, ou costumas descobri-los enquanto espectador, quando estás a criar?
      Gravito à volta dos visuais que necessitam do meu toque para terem sentido e, sim, quero que o livro seja surpreendente. Uma dimensão, apenas, é pouco inspiradora. A altura em que uma ideia forte bastava para uma série de fotografias ter sucesso acabou. Sumariando, acredito que os espectadores estão a ficar cada vez mais sofisticados. A fotografia já não é uma nova forma artística.



      Pareces estar interessado em ideias de dinâmicas poderosas, estilo pessoal preso, ou feito refém. Qual destes conceitos tentas explorar mais?
      Há padrões que emergem quando recolho o que fiz. O livro está organizado de acordo com esses padrões. Tenho dificuldades em fazer uma fotografia com duas pessoas em harmonia. Por isso, permito, ou até incentivo, uma menor qualidade ou um potencial conflito. Isso confere vida e movimento a uma imagem parada. O que salta à vista é, talvez, uma metáfora visual para aquilo que a fotografia faz. Numa linguagem popular: a fotografia captura.

      Ah, faz sentido. Também consigo encontrar algumas referências políticas e históricas no livro. Como é que isto se encaixa no livro, a teu ver?
      Alarga a temática. Quero que a ideia do parceiro dominante acompanhe a relação entre a imagem e a realidade. O nosso interesse e habilidade de ter os pés na realidade é limitado. A realidade é a parceira da baunilha. Isto é acentuado com as eleições norte-americanas de 2004. Produzi imagens estáticas das coisas favoritas do George W. Bush e, em Vanilla Partner, há um fascínio pelo mito Reagan. A Anne Frank também lá está. Por causa do Kitty, o seu diário, a Anne é uma figura central na mitologia do mau e do sacrifício.

      Este é o teu quinto livro. Parabéns! Que tipo de evolução artística é que achas que tiveste, desde o teu primeiro livro?
      Obrigado. Hum, ainda não sei. Tudo parece circular. Por exemplo, neste livro, a falta de paisagens não significa que não tenha feito nenhuma. Simplesmente, elas não se inseriam neste livro. Talvez os variados corpos em Vanilla Partner indicam que necessito de estimular-me mais.

      O que se segue para ti?
      Neste momento, estou a fazer várias exposições, aqui no terraço do Laurel Canyon. Também ando a escolher e a imprimir trabalhos para uma exposição numa galeria, na Dinamarca, onde a maioria das peças sobre o Reagan estará incluída.

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      Temas: Torbjørn Rødland, Vanilla Partner, fotografia, Christian Storm, livros, sonhos, Guy Debord, George W. Bush, Anne Frank, Ronald Reagan, Vice

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