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      A Cidade Fantasma Soviética na República Tcheca

      April 24, 2013

      Por Clare Speak

      Fotos por Léo Malek

      Ainda existe um pedaço do império soviético no meio da República Tcheca, mas ele está abandonado, decadente e quase completamente esquecido.

      As bases militares da URSS podem não ser conhecidas pelas suas relações com a comunidade local, mas será realmente possível que duas cidades, uma na República Tcheca e outra na Rússia, puderam existir a apenas 1,6 quilômetro de distância por duas décadas sem que seus residentes sequer soubessem da existência da outra? Se você tiver bastante arame farpado e Kalashnikovs, parece que sim.

      Depois de ocupar o que era a Tchecoslováquia em 1968, o exército soviético escolheu um campo aéreo a 45 quilômetros de Praga como base para seu Grupo Central das Forças Armadas. O campo já havia sido usado antes pelos militares austro-húngaros e depois pela Luftwaffe, mas quando os soviéticos se mudaram para cá, vieram para ficar.

      Eles construíram uma cidade inteira próxima do campo aéreo e a chamaram de Boží Dar, que significa “presente de Deus”, e depois ergueram uma cerca para separá-la do resto do mundo. Ah, o humor soviético! Ou talvez eles achassem mesmo que o lugar era legal. Tinha uma piscina, um cinema e não era Nizhny Novgorod.

      Descendo a estrada (sempre vigiada) estava a cidade tcheca indefinida de Milovice, com seus 8 mil e poucos habitantes. Nenhum deles sabia sobre as centenas de famílias que viviam sob vigilância pesada e apertadas em blocos de prédios de concreto, mais acima na estrada.

      Boží Dar existia em completo isolamento. Essa cidade fechada num estado fechado era tão inacessível quanto possível, e é bem provável que a maioria dos residentes nunca tenha saído da cidade. Só oficiais de alta patente tinham esse tipo de liberdade. As operações na base eram mantidas em sigilo máximo, e era tamanha a paranoia soviética, que eles até fecharam a estação de tratamento de esgoto de Milovice em certo momento, temendo que os resíduos adicionais entregassem o tamanho real da população de Boží Dar.

      Havia tanto mistério sobre o que entrava na base como sobre o que saía dela, então a maioria dos suprimentos provavelmente chegava da Rússia por ar ou ferrovia. Parece que a base era parcialmente autossuficiente, com sua própria usina termoelétrica a carvão, reservatório subterrâneo e áreas agrícolas.

      Muitos dos moradores com quem conversamos acham que todo aquele arame farpado e as patrulhas armadas tinham menos a ver com impedir os residentes soviéticos de ficar com inveja da vida comunista padrão tcheca e mais com impedir os tchecos de descobrir um possível arsenal de ogivas nucleares mantidas em Boží Dar.

      Muita gente acredita que o exército soviético guardava pelo menos algumas armas nucleares na Tchecoslováquia, muito provavelmente na base do Grupo Central das Forças Armadas, mas ninguém nunca conseguiu provar nada. A embaixada russa em Praga ainda se recusa a confirmar ou negar qualquer coisa, apesar do ex-comandante do Grupo Central das Forças Armadas, o General Vorobyov, ter sido bem sincero sobre isso numa entrevista para a Rádio Praga em 2008. Pelo telefone, direto de Moscou, ele disse: “Tínhamos sim armas nucleares nas brigadas de foguetes como parte do Grupo Central das Forças Armadas Soviéticas que eu comandava”.

      Quaisquer bombas atômicas foram transportadas de volta para a Rússia logo depois de 1989, quando o Exército Soviético começou a fazer as malas depois da Revolução de Veludo. Na pressa, soldados despejaram tanques inteiros de óleo diesel e queimaram a munição sobressalente ali mesmo.

      Depois que o último MiG-29 decolou de volta para a Rússia em 1991, a base militar foi deixada aberta e sem vigilância, rapidamente sendo pilhada de qualquer coisa de remoto valor. Os ladrões levaram tudo: fios de cobre, maçanetas de porta e até as cadeiras de plástico do cinema, arrancando pisos e derrubando muros no processo.

      Em 1992, a Rússia generosamente cedeu para o governo tcheco esses prédios já em ruínas e as terras poluídas e crivadas de explosivos, afirmando que o valor da propriedade cobria os custos de limpeza. Parece que os tchecos não tiveram muita alternativa além de aceitar.

      Apesar de ser propriedade do Estado, ninguém nunca se preocupou em cercar ou guardar o lugar, então fomos até lá para dar uma olhada.

      Como era fevereiro na República Tcheca, estava nevando. Muito. Primeiro achamos alguns hangares.

      Não sobrou muita coisa lá dentro.

      Tivemos que andar outro quilômetro e meio para chegar até a cidade. A neve estava com alguns centímetros de profundidade, então não tínhamos a menor ideia de onde estávamos pisando. Quando chegamos perto dos prédios, descobrimos vários buracos grandes no chão cobertos de neve e lixo, e quase caímos neles.

      Os buracos provavelmente foram feitos quando o Ministério do Meio Ambiente retirou toda a munição que havia sido enterrada ali. A maior parte foi desenterrada e eliminada no começo dos anos 1990, mas minas e granadas ainda pipocam por aqui ocasionalmente. Em janeiro deste ano, uma pessoa que passeava com seu cachorro na área topou com projéteis de artilharia e três minas terrestres.

      Esses barracões velhos parecem um ótimo lugar para encher a cara ao lado de uma fogueira e depois rabiscar seus pensamentos febris nas paredes, o que parece que alguém já fez.

      Alguns trechos de um poema tradicional tcheco tinham sido pintados na parede. De acordo com os moradores locais, o poema diz alguma coisa sobre homens que parecem sapos e “pessoas coelho” sendo esmagadas por nuvens de metal. Depois disso, as coisas só foram ficando cada vez mais estranhas.

      Não temos ideia do que acontecia nesse prédio velho e triste, mas agora ele é um tipo de espaço das artes para invasores. Esse mural alegre foi feito com jornais tchecos amassados dos anos 1990.

      Aqui está o velho cinema, onde os residentes devem ter assistido Moscou não Acredita em Lágrimas e outras pérolas do cinema aprovadas pelo partido. Todas as cadeiras foram arrancadas. Achamos a sala de projeção no fundo, mas estava vazia e foi invadida por árvores.

      O spa não estava em bom estado, mas pelo menos não estava nevando lá dentro.

      Ouvimos falar que a piscina era perto do spa, mas o prédio onde ela ficava desmoronou. Pelo menos conseguimos entrar no que os tchecos chamariam de “centro de bem-estar”. Achamos essa jacuzzi e um espaço escuro próximo cheio de papel alumínio rasgado que devia ter sido a sauna.

      Voltamos alguns dias depois, quando a nevasca passou. Dava para ver aonde estávamos indo dessa vez e achamos coisas como essa moldura de janela que estava jogada ali há tanto tempo, que uma árvore cresceu no meio dela.

      Também achamos o velho centro cultural, que tinha sido pintado recentemente para parecer uma boate chamada Rock Club Black Hole, que aparece na série de TV tcheca Emergency. Uma estação de TV do país também veio filmar em Boží Dar e Milovice para um programa chamado Go Home, Ivan.

      Próximo dali ficava essa escola bizarra. Parece que nomes eram muito individualistas para os soviéticos, então as crianças eram simplesmente numeradas. Todos os móveis tinham sido levados ou destruídos.

      Ela estava quase desmoronando.

      No andar de cima achamos um corredor que levava até esse espaço, que devia ser o ginásio da escola.

      Nada para ver aqui.

      Esse prédio devia ser algo importante, mas não sobrou nada dentro. As únicas coisas interessantes, como o mapa das bases aéreas soviéticas acima, foi destruído há muito tempo.

      Contamos cerca de 500 apartamentos em dez blocos, compactados juntos apesar de toda a área aberta ao redor. Eles provavelmente esperam por reforma ou demolição, mas parece que não há pressa.

      Alguém fez uma tentativa meia-boca de impedir a entrada nos prédios derrubando algumas árvores e deixando elas ali.

      Mesmo sem móveis de verdade, as salas pareciam pequenas e claustrofóbicas.

      Vimos jornais velhos russos por toda parte: debaixo do papel de parede, usados como material isolante, ou simplesmente jogados no chão.

      O resto estava praticamente nessas mesmas condições.

      Ou nessas.

      Será que algum ex-morador de Boží Dar ficou na República Tcheca? Pouco provável. Os moradores nos disseram que os únicos soviéticos que ficaram em Milovice foram os soldados enterrados no cemitério da cidade.

      Essa base aérea e uma similar a uns 50 quilômetros daqui em Ralsko eram as maiores e mais importantes bases do exército soviético no país. Sabe-se também que existiam várias bases menores na República Tcheca, e ainda mais em outros estados do antigo bloco do leste, construídas em preparação para uma guerra que nunca veio.

      O que vai acontecer com Boží Dar? Poucas pessoas fora de Milovice sabem sobre ela e menos gente ainda conhece sua história. O velho campo aéreo continua a atrair entusiastas de aeronaves leves, mas será que a cidade em si logo será esquecida completamente? Os supostos planos de renovação estão parados há mais de 20 anos, não sobrou nada para se roubar e a natureza vai lentamente reclamando os prédios. Parece que esse lugar triste e misterioso logo será deixado para apodrecer em paz.

       

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      Tópicos: República Tcheca, República Soviética, lugares abandonados, cidade-fantasma, Rússia

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