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      As Terríveis Fotos de Pessoas Mortas de Fernando Brito

      October 22, 2012

      O fotógrafo mexicano Fernando Brito, da cidade de Culiacán, no estado de Sinaloa, cruza com muitos mortos trabalhando como editor de fotos do jornal local El Debate. Nos últimos dois anos, ele ganhou vários prêmios com sua série Tus Pasos Se Perdieron con el Paisaje, que apresenta fotos de cadáveres.

      Hoje em dia, o que não falta são imagens apavorantes vindas do México graças às batalhas brutais e constantes entre os cartéis e o governo. Mas o trabalho de Brito se destaca porque ele parece tratar o cadáver como parte da paisagem. Há uma tranquilidade em suas imagens que suaviza o horror inerente da visão da morte. Embora se incline mais à arte fotográfica do que ao fotojornalismo, Brito diz que seu objetivo é chamar atenção para os crimes que ele vê regularmente, crimes que ele sente que o mundo precisa conhecer. Inspirados por seu trabalho macabro, batemos um rápido papo com ele.

      VICE: Como você começou a fazer trabalhos artísticos, apesar de trabalhar pro El Debate?
      Fernando Brito: Me deixava triste ver essas pessoas mortas e esquecidas todo dia. Elas passavam de humanos de verdade a estatísticas e notícia velha da noite pro dia. Ao mesmo tempo, ver o trabalho que era impresso nos jornais me fez perceber que nenhum desses fotógrafos tinha experiência e nenhuma das fotos tinha valor. Percebi que fotografias nos jornais não resistiam ao teste do tempo. Pra isso acontecer, a foto precisa ser inscrita numa competição e chamar alguma atenção. Mas meu interesse realmente nunca foi ganhar um prêmio e sim mostrar o que estava acontecendo. Me concentrei em colocar minhas fotos em galerias, recontextualizando-as como arte, pra ver o que acontecia depois disso.

      As fotos que você faz pro jornal se sobrepõem às que você coloca nas galerias?
      Primeiramente trabalhei na série sozinho, nunca mostrei a ninguém. Aquelas fotos nunca foram publicadas no jornal. Eu pensava no trabalho que fazia pro jornal como algo que eles fossem imprimir e tirava as fotos pra série separadamente.

      O que seus colegas de trabalho pensavam sobre isso? Eles achavam estranho ou curioso?
      Eles nunca acharam nada porque nunca mostrei a ninguém. A verdade é que só mostrei as fotos pras pessoas muitos anos depois de fazê-las.

      Como você consegue tirar essas fotos sem que ninguém esteja por perto?
      Nunca fiquei sozinho com um cadáver. Nunca fui o primeiro na cena de um crime. Sempre chamamos certas pessoas, como a polícia e o serviço funerário. E geralmente há outros repórteres de outros jornais. Confiamos uns nos outros pra nunca ficarmos sozinhos. Quando faço minha turnê ao redor do corpo, fazendo as fotos que preciso para o jornal, me posiciono aonde posso conseguir a foto que quero e espero todo mundo sair do quadro. Às vezes tiro várias fotos, às vezes só uma. 

      Quando esse trabalho estará concluído?
      Vou continuar indefinidamente. Toda vez que vou a campo e vejo a oportunidade de fazer uma foto pra série, eu aproveito. Recusei algumas propostas de transformar as fotos num livro. Um livro de pessoas mortas realmente não me atrai.

      Por que você acha que sua série chama tanta atenção?
      É simples: toda vez que alguém vê uma foto, mais pessoas ficam sabendo o que está acontecendo no México e ficam mais inclinadas a questionar essa situação e, possivelmente, a tomar decisões pra acabar com isso. Também foi por isso que o Pedro Pardo ganhou um prêmio do World Press Photo Contest, porque ele mostra exatamente o que está acontecendo.

      Que outras histórias você gostaria de documentar?
      Muitas histórias me interessam, mas não posso abandonar meu protesto por esses crimes. Ainda há muitas partes da história a serem contadas. Vivemos num país muito corrupto com quase nenhuma transparência governamental. As razões são óbvias. Ninguém pode garantir honestidade.

      Qual é o seu próximo passo na carreira?
      Provavelmente continuar como editor de fotos do El Debate, mas tenho alguns projetos em vista. Estou investigando as pessoas despejadas em Sinaloa. Muita gente está sendo afetada por isso e acho que essa história precisa ser esclarecida. Quanto mais pessoas no mundo falarem sobre o que está acontecendo, melhor. Espero não ser o único. 

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      Tópicos: Fernando Brito, México, fotografia, Entrevista, Culiacán, Tus Pasos Se Perdieron con el Paisaje, Morte, cartel, governo mexicano

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