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      Entrevistas com os Guarani-Kaiowá

      February 21, 2013

      Por Daniel Mello

      Nesta semana, índios da aldeia Guarani-Kaiowá Tey´ikue ocuparam parte da área de uma das fazendas vizinhas à terra indígena, em Caarapó (MS). A ação é um protesto pela morte do adolescente Denilson Barbosa, encontrado com um tiro na cabeça no último domingo. A comunidade acredita que o jovem foi executado por jagunços da fazenda, que já era reivindicada como território indígena.

      A ocupação de parte das áreas que eles reivindicam como territórios tradicionais é a principal estratégia de luta dos índios guarani-kaiowá para a demarcação de suas terras. As comunidades buscam, desse modo, escapar da situação de penúria em que vivem desde que foram expulsas das matas em que habitavam em todo o Mato Grosso do Sul. Territórios que foram desmatados para dar espaço para plantações de soja e cana-de-açúcar que se perdem no horizonte.

      A partir dessas ações de ocupação, que os indígenas chamam de retomada, os kaiowá entram em conflito com os fazendeiros que têm hoje a posse dessas terras. Uma briga desigual em que os proprietários enriquecidos pelo agronegócio atacam tanto pelas vias legais, quanto pela força, contratando jagunços e pistoleiros.

      Na Justiça, muitas vezes conseguem liminares de reintegração de posse, despejando os índios, incluindo mulheres e crianças, para acampamentos improvisados na beira de estradas. As comunidades que estão nessa situação passam a viver quase exclusivamente das cestas básicas doadas pelo governo e ficam expostas aos rigores do clima.

      Foi uma mensagem mal interpretada de uma das comunidades sob risco de despejo que, em outubro de 2012, trouxe repercussão nacional à questão dos guarani-kaiowá. Uma nova expulsão seria uma “morte coletiva”, nas palavras daqueles índios, o que foi entendido erroneamente como suicídio coletivo, motivando manifestações em várias cidades e muitos simpatizantes trocando o sobrenome por guarani-kaiowá no Facebook.

      Aqueles que conseguem permanecer nas áreas ocupadas, vivem na eterna expectativa de um dia perder a batalha judicial e, de uma hora para outra, perderem casas e hortas. Costumam ainda ser ameaçados pelos pistoleiros das fazendas. As lideranças mais atuantes se tornam alvos preferenciais dos assassinatos e desaparecimentos.

      Há ainda os que vivem nas aldeias demarcadas pelo governo à época da expulsão dos índios de suas terras, um movimento incentivado pelo governo. Com o pensamento de que o Mato Grosso do Sul precisava ser colonizado para se desenvolver, trouxeram colonos, em especial do sul do país e criaram pequenas áreas para abrigar as comunidades despejadas. Esses territórios são incapazes de garantir a subsistência dos kaiowá, que nesses locais não só dependem das cestas básicas, como convivem com a violência gerada pela superpopulação e a falta de oportunidades.

      - Cacique da Aldeia Taquara, Ládio Veron é filho do cacique Marcos Veron, assassinado em 2003. As 64 famílias que vivem na Taquara ocupam cerca de 90 hectares do território de mais de 9 mil hectares que reivindicam.

      VICE: Vou começar com uma pergunta bem aberta e você desenvolve como quiser. Quais são as suas expectativas para o futuro?
      Ládio: Nós estamos lutando por esta área aqui, não para nós, que já estamos com certa idade. Mas a gente pensa no futuro dessas crianças que estão vindo hoje. A gente quer essa terra, estamos lutando por essa terra, para vivermos aqui, onde viveram os nossos antepassados, construir e organizar de acordo com a nossa cultura e tradição. O nosso futuro são as crianças que estão hoje aqui. Nós já temos uma escola, um posto de saúde. A gente tem uma roça nessa pequena área de 90 hectares. E o nosso desejo é de ter essa área de 9,7 mil hectares, que já foi identificada e reconhecida pelo governo. E aqui construir o sonho do kaiowá-guarani. Por enquanto nós estamos em cima deste pedaço.

      Se saísse amanhã a demarcação, o que vocês fariam?
      Nós vamos fazer uma reunião, criar um regimento que vai abranger a comunidade. Sentar, conversar, dialogar com todo mundo, para a gente poder usar a terra. E não vamos usar o terreno cortando, fazendo loteamento, falando “esse pedaço é meu, esse pedaço é seu”. Não, não é dessa forma. O kaiowá-guarani nunca usou esse tipo de mecanismo na comunidade. A gente pensa em organizar bem a comunidade da Taquara.

      Esse uso que vem sendo feito da terra, com monoculturas de soja e cana, será um problema quando a comunidade receber a terra?
      Se nós recebermos esta terra aqui, vamos enfrentar um problemão, porque até deixar a área reflorestada, vamos sofrer muitos impactos da natureza. Hoje a gente já sofre, porque ao nosso redor só se vê cana. Nós já temos vários pedaços dentro desta área de 90 hectares, mais ou menos uns 30 hectares, que a gente já deixou como área de reflorestamento.Tem muitas plantas medicinais, animais já andando pelo pedaço. Então, vai ser mais um elemento da natureza. A gente pensa que nessas áreas, que estão nuas, vamos ter bastante trabalho. E isso o não-índio tem que entender.

      Em Panambizinho [aldeia próxima a Dourados], saímos várias vezes com os alunos da região de Dourados para coletar sementes de árvores nativas para jogar naquele pedaço de chão, para reflorestar. E, com isso, sofremos ataques dos parlamentares e do governo do estado dizendo que o índio é vagabundo, que índio não trabalha, que sujou a terra. Mas o não-índio nunca vai entender o nosso desejo, como nós nos relacionamos com a natureza. Nós vivemos mais com a natureza, deixamos que ela sobreviva. A árvore, os pássaros, animais, tudo o que está ao nosso redor. E através disso nós preservamos nossa cultura, nossa tradição, nosso canto, nossa reza. Tudo isso vem pela força dessa natureza que ainda resta.

      Depois de tanto tempo nessa luta para retomar a terra, você acredita que agora é o momento em que isso vai ser solucionado ou será que essa situação pode se arrastar por mais 20 ou 30 anos?
      Houve um acordo na Assembleia Legislativa em Campo Grande. Eu quero acreditar que talvez eles já possam solucionar esse problema para nós. Estivemos em Brasília, conversamos com o presidente do Supremo... Porque a maioria das terras pelas quais estamos lutando estão encalhadas lá no Supremo. Ele disse que no primeiro semestre do ano que vem vão julgar essas sete áreas primeiro para sair do encalhamento. Aí Taquara, Guyraroka, Jatayvari, Marangatu, Yvy Katu, Kokuei e Sombrerito já estão na frente para eles julgarem.

      Mas vocês já receberam outras promessas antes, será que realmente desta vez está chegando o fim dessa saga?
      Eu quero acreditar, sim, na Justiça. Mas como eles mesmos dizem, quero ver primeiro. Quando eles entregarem a terra, eu vou acreditar. Há séculos vem se arrastando a promessa. A Constituição está bem clara: dentro do prazo de cinco anos era para fazer todas as demarcações das terras indígenas. Vai para 30 anos e ainda não saiu do papel.

      Fomos para Brasília, vimos a preocupação dos deputados, a preocupação do Senado, a preocupação dos ministros. Vamos ver se até abril saem essas sete áreas. Se não, vai ser mais um blá-blá-blá que a gente tá ouvindo.

      E se for mais um blá-blá-blá? O que vocês vão fazer se a demarcação não for para frente desta vez?
      Aí nós vamos partir para o plano B, reunir com todas as lideranças em Brasília e fazer barraco lá, até sair. Não só liderança kaiowá-guarani, mas lideranças do Brasil inteiro. Pressionar o governo mesmo para sair a área.

      Então vocês já estão preparados para ser mais um blá-blá-blá ?
      Se for mais uma enganação, nós vamos partir para o plano B. Não vamos deixar do jeito que está. Vamos ter que fazer o governo compreender.

      Uma das alternativas apontadas até por pessoas favoráveis à causa indígena é indenizar os fazendeiros, não só pelas benfeitorias, mas pelo preço total das terras. Você é favorável a isso? Ou você acha que a Constituição tem que ser seguida à risca? Ou seja, quando a terra é reconhecida como indígena, passa para o domínio da União e os proprietários recebem apenas pelo que foi construído.
      É uma alternativa que eles acharam, de tirar o fazendeiro pagando. Mas para nós indígenas isso hoje é pesado. Porque é como se tivesse pagando o sangue do kaiowá-guarani para o fazendeiro. Porque mais de 400 lideranças indígenas tombaram por causa dessas áreas. E se hoje a gente entende que a Justiça tem que pagar, então está pagando o sangue do kaiowá-gurani para o fazendeiro.

      Mas esse dinheiro teria que voltar para o kaiowá-guarani, porque nós é que somos prejudicados, não o fazendeiro. Fazendeiro já tirou tudo o que queria tirar da nossa terra: já plantou, já desmatou, criou gado, vendeu, produziu. Todo o dinheiro deles já está no banco, em cima dessa terra indígena. E agora vem a luta do povo kaiowá-guarani para pegar essa terra. E vai pegar a terra nua, estragada, morta. E ainda em cima dessa terra morta vai ter o sangue das nossas lideranças que já tombaram. Então qual é a benfeitoria que o governo vai pagar para o fazendeiro? É o sangue da própria liderança. Eu fico pensando: pagar para um fazendeiro por um pedaço de terra onde uma liderança foi morta é a mesma coisa que pagar para um fazendeiro matar uma liderança.

      Se eles entenderam que a terra é da União, deixem a terra para o índio e com esse valor façam um projeto de reflorestamento para essas áreas. Mas é bem o contrário do que a gente pensa. Eles querem mesmo receber esse dinheiro e vão receber.

      - Carlito de Oliveira, 78 anos, é cacique da aldeia Passo Piraju. A comunidade, também conhecida como Porto Cambira, ocupa 40 hectares da Fazenda Campo Belo, reivindicada como território tradicional.

      VICE: Você nasceu aqui?
      Carlito: Eu nasci e me criei aqui no Passo Piraju. Eu saí daqui com a idade de 14 anos, empurrado pelo que naquele tempo não se chamava de policial, se chamava de captura. Tempo de captura. Aqui era cheio de aldeia.

      Veio a polícia tirar vocês?
      Veio. Naquele tempo se chamava captura. Era quartel. Quem mandava era o quartel. Aquele que não saía da aldeia dele, a lei era o 44. Naquela época, aqui no Mato Grosso do Sul.

      Ia para a cadeia?
      Não ia para a cadeia. Mata! Isso que é a lei do 44. 44 é arma. A lei era do 44. A pessoa teimou, acabou, mata. Depois que saiu essa lei mesmo, para não acontecer mais o que acontecia naqueles anos. Saiu essa lei que proibiu matar.

      Você acha que o futuro dos seus netos vai ser mais difícil do que a vida que você teve?
      Vai sofrer mais a geração mais nova. Olha, essa aqui é minha filha, está estudando. Ela tem um guri. Esse guri daqui a 20 ou 30 anos vai casar, vai ter filhos. Como ele vai viver? Ele tem que viver apoiado no estudo. Mas só que naquele estudo, o guri que nasceu aqui na aldeia Passo Piraju não vai saber o que é a caça, não vai saber o que é floresta, não vai saber nada. Hoje, ela [minha filha] já não sabe. Ela sempre me pergunta: “pai, aqui tinha floresta?” Tinha! “Aqui tinha mel, pai?” Tinha! “Aqui tinha de tudo?” Tinha, aqui era cheio, minha filha, de fora a fora.

      Então você acha que essa falta de vivência com a natureza vai fazer diferença para as próximas gerações?
      Vai e já está fazendo. Aqui está pertinho da Aldeia Jaguapiru [aldeia urbana perto de Dourados]. Se você ficar dois dias lá, você vai ficar louco, jornalista. Lá, em 3,5 mil hectares têm 28 mil habitantes. Daqui a 20 anos, para onde essas crianças vão? Eles têm que ter estudo. Mas só o estudo não garante. Porque já tem índio formado, mas a sociedade branca não aceita, não pega para trabalhar. Para ser servidor do estado ou do município, não pega. É difícil para nós.

      Agora há pouco você estava falando que quer construir a casa grande? O que é essa casa grande?
      Eu vou falar para você só o pé da história. Não é nem a metade da história. Muitos cidadãos não dão valor para a Óga Pysy, mas nós damos. Óga Pysy para nós é um paraíso na terra. Porque quando a gente vai plantar, quando a gente vai batizar criança, quando vai vir doença, a gente faz aquele trabalho dentro da Óga Pysy. A gente faz aquela reza. A reza que o índio tem é muito poderosa. Não adianta vir um branco e dizer que é bobagem. Se ele soubesse, não ia nem falar do lado quando nós estamos rezando.

      E a casa grande, quando fica pronta?
      Esta semana já vou começar a cutucar. A pessoa falou para mim que, para trazer todas as coisas, já estava pronto. Mas tem que pagar a despesa do caminhão. O caminhão, cada viagem que ele faz é R$400, R$500, para transportar o capim cortado. Mas nós vamos fazer, se Deus quiser. Se você voltar aqui na Aldeia Passo Piraju, em seis ou sete meses já vamos estar inaugurando. Esta semana já vamos começar a nos mexer. Aí vamos fazer uma reza. Aquela reza poderosa que nós tínhamos há uns anos trás, de 1943 até 1950. Quando foi de 1970 para 1980 aí bagunçou.

      - Walmir Junior vive na aldeia Passo Piraju.

      VICE: Você acha que a Justiça demora ou não funciona?
      Walmir: Acho que não funciona. Se funcionasse nós já estávamos com a nossa tera na mão e não tínhamos mais medo de ser despejados. Morre índio, morre índio para depois regularizar. Se a Justiça cumprisse seu papel, a morte das nossas lideranças não ia acontecer. Hoje em dia quase todas as nossas lideranças são ameaçadas. Eles falam que o Paraguai é pertinho para comprar arma. Sempre uma ameaça.

      Você tem medo dessas ameaças?
      Quanto mais ameaça, mais coragem a gente tem. Porque nós vivemos sob ameaça, e a pressão é como se fosse vento, que bate e passa. Aqui no Mato Grosso do Sul nós somos torturados psicologicamente, mas estamos aí na luta, tentando mostrar para a Justiça e botar para valer essa Constituição Federal. Não fomos nós que fizemos essa lei.

      Você está disposto a lutar por quanto tempo para conseguir a demarcação?
      O tempo que for preciso. Eu estou com 24 anos, estou novo ainda. Dá para dar muita dor de cabeça para o povo ainda. E nós indígenas falamos assim para não deixarmos a luta. Passar para os nossos filhos como é a luta. Tocar para frente. Nós confiamos que um dia nós vamos viver em paz.

      Muitas coisas nós já perdemos. A nossa mata virgem, nós perdemos. Medicamentos naturais já não tem mais. Mas vamos ver se conseguimos retomar esse pó que sobrou.

      O que você tem mais medo de perder?
      Eu acho que eu tinha medo de perder a esperança. Eu não quero nunca perder a esperança. Porque aqui onde nós vivemos, não só aqui na aldeia, a gente não vive mais tranquilo. Hoje, nós estamos vivendo em um chiqueiro, pior do que porco, rodeado pelo canavial. Porque quando porco sai do chiqueiro, você tem que correr para pôr no chiqueiro de novo. Com a gente é a mesma coisa: não podemos sair na estrada, somo ameaçados de morte pelo fazendeiro. Então a gente vive pior que escravo. A gente não pode passar para o outro lado do rio.

      A nossa luta aqui é contra o dinheiro. Porque nós não temos dinheiro, nós vamos pela lei. Agora, para quem tem dinheiro, não tem lei.

      Os que não aguentam mais, fazem como nós, que retomamos um pedaço de terra para sustentar nossas crianças. Para que nossas crianças não vivam como as crianças da aldeia de Dourados. E para você ver: por 40 hectares de terra eles entram com ação na Justiça para nos despejar.

      - Adelsa Veron vive na aldeia Taquara. Já passou por um despejo judicial e também foi agredida no ataque que matou o cacique Marcos Veron em 2003.

      VICE: A senhora estava me dizendo que já passaram por muitas dificuldades aqui, mas agora as coisas estão melhorando um pouco.
      Adelsa: Melhorou. Mas agora eles têm que devolver essa terra para nós vivermos aqui para sempre. Para que essas crianças fiquem aqui até Deus terminar o mundo. Mas hoje nós já dormimos mais tranquilos, plantamos mais tranquilos. Antes não era isso, era um sofrimento de ameaça dos jagunços dos fazendeiros. Eles viviam dando tiros nos nossos barracos. Não dava nem para comer direito. Foi muito doloroso também o dia do despejo.

      Quando eu vi o carro, achei que era uma visita trazendo alguma coisa boa. Mas não era. Eu estava dando aula na escola de sapé que a gente tinha. As polícias chegaram. Colocaram as crianças no sol quente. Deram tiros em cima de nós. Jogavam bombas no meio dos alunos. Era uma coisa dolorosa.

      Não deixaram a gente pegar nada. A gente tinha bastante galinha, bastante roça. Nós deixamos tudo. Quem pegou documento, pegou. Colocou a gente num ônibus. Colocou as nossas tralhas em um caminhão e jogou a gente na aldeia de Caarapó. Não tinha água, não tinha médico. Mas eu dei aula debaixo da lona preta.

      Aí depois nós voltamos aqui para a Aldeia Taquara, onde perdemos o cacique Marcos Veron.

      Como foi esse ataque que terminou com a morte do cacique?
      Chegamos aqui e estava tudo cheio de soja. O fazendeiro colocava um jagunço só para vigiar os indígenas.

      Era a noite quando veio o ataque contra nós. Pegou eu e outra companheira. Pegou o Ládio. Me botaram em um carro e disseram: “Se você pular daqui, você leva um tiro”. Então nós ficamos ali bem quietas. Outro carro já tinha ido no barraco do nosso cacique Marcos Veron. A luz do caminhão ficava acesa. E o tiroteio que não deixava a gente escutar nada.

      Quando eu estava presa, vi o Marcos Veron. Eles estavam trazendo ele pelo braço. Batiam nele, batiam nele. E o outro se jogava no peito dele. Ele morreu calado. Sem levantar a mão contra eles, sem fazer nada, ele morreu.

      - Francisco Gonçalves tem cinco filhos na aldeia Taquara.

      VICE: Como é viver com essa expectativa em relação à demarcação?
      Francisco: Estamos aqui desde 1999. Estamos aqui trabalhando, colhendo. Queremos terra para a gente poder plantar. Porque a gente não quer viver dependendo da cesta do governo. Por isso que a gente quer a nossa terra, para poder trabalhar tranquilo, para a comunidade ficar trabalhando e colhendo.

      A gente já tem bastante lavoura plantada. Aqui na aldeia já avançou bastante. A gente já tem água encanada, tem o nosso posto de saúde. Não estamos muito bem porque a nossa terra não foi demarcada ainda.

      Aqui vocês conseguem produzir o quê?
      Aqui a gente planta milho, batata, arroz, abobrinha, amendoim e mais outras coisas.

      O que você mais gosta aqui na aldeia?
      Eu gosto mais de plantar as coisas.

      E qual é a maior dificuldade que você enfrenta hoje no dia a dia da aldeia?
      Aqui a dificuldade nossa é esse negócio de transporte. A gente não tem um carro, uma caminhonete para vender nosso produto na cidade. Isso é uma dificuldade. Porque a gente tem bastante mantimentos para vender, mas não consegue vender por causa disso.

      Se demarcasse hoje a terra, o que você acha que ia melhorar imediatamente?
      Acho que se for demarcada a nossa terra amanhã, a gente fica mais tranquilo.

      Hoje você vive intranquilo?
      A gente não vive tranquilo porque a terra da gente não está demarcada. Os karaí [homens brancos] estão aí na fazenda. Então, a gente é ameaçado por eles e não pode viver tranquilo, porque a gente como índio quer sair para caçar, para pescar e não pode sair por causa disso. Eles põem as pistolagens em volta da aldeia para a gente não poder sair para pescar. A gente não fica muito tranquilo por causa disso.

      Você tem medo dos pistoleiros?
      Eles andam armados, né? Ninguém vai enfrentar. Andam armados com revólver, calibre 12 na mão. É perigoso.

      Qual foi a pior situação de medo com pistoleiros que você já passou?
      Ano passado, nós fomos ali caçar e encontramos eles com um monte de armas. Cinco pessoas.

      Você estava sozinho?
      Nós estávamos em três, mas não tínhamos nada. Estávamos só com um facão e uma lança. Eles estavam com armas.

      Eles falaram o que para vocês?
      Falaram que não era para a gente caçar para lá. Ele falou que se encontrasse a gente outra vez ia botar para correr na ponta da bala. A gente não foi mais para lá, por causa disso.

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      Tópicos: Guarani-Kaiowá, Índios, territórios, Ocupação, Morte, despejo, fazendeiros, latifundiários, comunidade indígena, Daniel Mello

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