Escalpelamento

Desfiguradas Por Embarcações Amazônicas

By Matheus Chiaratti

Muitas cidades de estados amazônicos do Brasil, como Amapá e Pará, têm um índice de deslocamento fluvial gigantesco, e também um índice de pobreza considerável, o que resulta em muitas embarcações improvisadas. Até aí, nada de novo sob o sol, se não fosse o ritmo assustador de escalpelamentos nesses barcos usados pra pesca e locomoção. Durante muitos anos foi prática comum deixar descoberto o eixo que gira a hélice dos motores. Some a isso muita gente evangélica — mulherada de cabelos bem compridos — e o resultado é uma caca.

Quando acontece um acidente assim, se a vítima não morre, pode perder parte ou todo seu couro cabeludo, orelhas, sobrancelhas e partes da pele do rosto e do pescoço, e invariavelmente fica deformada pelo puxão. Grande parte dos acidentes acontece no interior, o que dificulta o atendimento. Grande parte das vítimas são mulheres. Além de muitos casos de suicídio por depressão, muitas escalpeladas não conseguem mais emprego por causa da aparência e são rejeitadas por cônjuges e familiares.

Isso é um problema de saúde pública tão sério na região, que em 2010 foram sancionadas leis instituindo um Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento, exigindo modificações nos barcos e capacitando ações preventivas dos poderes locais. No primeiro semestre deste ano, a Associação de Mulheres Ribeirinhas e Vítimas de Escalpelamento da Amazônia, cuja sede fica em Macapá, capital do estado do Amapá, em parceria com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e o governo local, conseguiu realizar um mutirão de atendimentos e cirurgias pra 87 pacientes durante um final de semana. Fomos lá pra conhecer a história de algumas vítimas.

Maria Trindade Gomes, 43, fundadora da AMRVEA, foi vítima de escalpelamento aos sete anos: “Meu pai transportava farinha. Numa das viagens fui na embarcação com ele. Ao desembarcar, meu pé escorregou e caí em cima da tábua que cobria o eixo. Fui abandonada por pai e mãe depois de um mês e quinze dias dentro do hospital em Portel, no Pará. Uma senhora me levou ao Hospital da Polícia Militar em Belém. Fiquei seis anos internada porque não tinha pra onde ir. Quando voltei a Portel, meu pai não me aceitou de volta e um francês me adotou. Saí de lá com 18 anos. Hoje dou palestras pela associação e sou muito respeitada onde eu chego. Tenho várias perucas, sou eu quem fabrico. Num dia estou usando uma vermelha, outro dia estou usando uma loira, preta, cacheada. Sou muito vaidosa. Uma peruca demora em média dois dias pra ser feita. É cabelo natural que vem de doação, porque nossa associação não recebe verba pra comprar cabelo. Cada mulher que recebe uma peruca nossa tem que trazer dois cabelos pra fazer uma peruca pra outra vítima, assim a gente não fica sem matéria-prima”.

Maria do Socorro Damasceno, 30, também foi escalpelada aos sete anos: “Quando eu era criança, nem sabia o que tinha acontecido comigo. Depois que vi a proporção do acidente, porque vi a rejeição, o preconceito... Me mudei de onde eu morava no interior pra Macapá por causa disso. Eu pensava: será que vou namorar com essa deformação no meu rosto, será que alguém vai me querer? Com 21 anos conheci uma pessoa, me amiguei com ela. Tenho quatro filhos. Tá todo mundo muito animado com a cirurgia”.

Rosinete Rodrigues Serrão, 35, foi escalpelada há 15 anos: “Geralmente nós, vítimas de escalpelamento, abandonamos nossos estudos e nossa família, em busca de tratamento numa cidade maior que tenha um hospital mais avançado. No interior a gente não pode pescar nem ir pra roça por causa do sol, então acabamos não voltando mais. Quando vim do interior, eu tinha um namorado e, após o acidente, ele se afastou. Encontrei outra pessoa muito especial, estou grávida de sete meses. Ele também é vítima de acidente de motor”.

Franciane da Silva Campos, 33, foi escalpelada há 26 anos: “Eu ia viajando com o meu pai e caiu uma colher da minha mão. Quando me abaixei, meu cabelo foi-se. Fiquei hospitalizada um ano e 40 dias. Sofri muita discriminação, pessoas me olhando, tentando arriar minha autoestima. Isso é coisa que eu não aceito. Tenho um esposo, uma filha e até neta. Tô muito ansiosa, quero ver logo como é que eu vou ficar. Quero dar um tchau pra esse visual. A primeira coisa que eu vou fazer é procurar um emprego, que nunca tive”.

Marcilene Mendes Rodrigues, 24, tinha dez anos quando se acidentou: “Tinha muita água no barco e meu irmão pediu pra eu tirar. Quando me agachei, meu cabelo caiu e enrolou no eixo. Como o motor tava em pouca velocidade, não chegou a arrancar o couro cabeludo todo. Meu cabelo era tudo pra mim. Gosto muito de tomar banho de rio, de mergulhar, mas uso peruca. Desde o acidente nunca mais, pra mim acabou. Vou fazer a cirurgia, os médicos falaram que vão expandir parte do couro cabeludo. Caso não feche tudo, vai dar pra eu usar o aplique”.

Patrícia, de oito anos, caiu do colo da mãe Francidalva da Silva Dias num barco em 2009: “Pra mim, foi um desespero muito grande, eu nunca tinha visto isso na minha vida. Na hora ela só gritava que queria o cabelo dela de volta, e eu dizia que não tinha como. Ela dizia que eu era culpada, que eu tinha deixado ela cair em cima do eixo. Ela perdeu uma orelha. Queria muito que ela reconstruísse. Ela sofre muito preconceito na escola. Ela quer reconstruir a vida dela. Ela vai se sentir mais feliz, e eu, também”.

Jaqueline Dias Magalhão, 17, foi escalpelada em 2005: “O acidente aconteceu quando eu tinha dez anos de idade. Eu estava pegando taperebá. Fui pra debaixo da popa da lancha, o eixo estava descoberto e pegou meu cabelo. Puxou tudo, total. Logo no começo eu não sentia nada, depois que as dores foram aumentando, fiquei adormecida. Quero me formar em Medicina. É difícil, mas eu vou conseguir”.

 Fotos por Matheus Chiaratti

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