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      Homicídios, Promessas de Vingança, Medo e o Recorde da Violência Policial Em SP Pós Whatsapp Homicídios, Promessas de Vingança, Medo e o Recorde da Violência Policial Em SP Pós Whatsapp
      Ilustração por Juliana Lucato.

      Homicídios, Promessas de Vingança, Medo e o Recorde da Violência Policial Em SP Pós Whatsapp

      Por Bruno Paes Manso

      abril 1, 2015

      São 22h05 de quinta-feira quando começam a chegar informes assustadores no WhatsApp de policiais militares de São Paulo:

      - "Mike (policial) baleado, sendo socorrido no HGIS (Hospital Geral Itapecerica da Serra)".

      - "Mike do 25m (25º Batalhão Metropolitano) baleado na cabeça".

      São as redes sociais dos PMs em funcionamento, que são formadas por steves (policiais homens) e foxes (policiais femininas) de baixas e altas patentes. O instrumento não é oficial, mas se tornou "oficioso". É tolerado pelo comando, compartilhando até informações reservadas – as quais, antigamente, costumavam ficar restritas ao serviço de inteligência.

      Nessas redes, as mensagens também lamentam a morte dos colegas de farda e celebram quando quem tomba são os que eles chamam de "malas", corruptela de "malaco", gíria usada entre os policiais para se referir a criminosos. São publicadas fotos de suspeitos, mesmo sem indícios de culpa. Depois, não é incomum seus corpos aparecerem baleados no WhatsApp.

      A VICE recebeu por um período as mensagens do WhatsApp dos policiais. Policiamento é o assunto sobre o qual menos se fala. A conversa que interessa é a guerra travada em São Paulo a partir de uma visão equivocada, que divide o mundo entre mocinhos e bandidos. Essa guerra vem corroendo a credibilidade da PM e provocando mais violência em vez de combatê-la.

      Duas horas antes das primeiras trocas de mensagens pelo aplicativo, perto das 20 horas de quinta, o policial Anderson Silva Duarte, de 32 anos, estava curtindo a folga em um bar em Itapecerica da Serra quando quatro homens chegaram para assaltar o local.

      Anderson correu para o banheiro e saiu disparando, como se fosse um super-herói de filme americano. Baleou um dos assaltantes, mas acabou levando um tiro na cabeça de um dos comparsas da quadrilha e faleceu. O WhatsApp da polícia narrava as sequências praticamente em tempo real, conforme as viaturas locais chegavam à cena do crime e descreviam o ocorrido e o resultado da ocorrência.

      - Baleou "os malas", mas eles se evadiram.

      - "O mala acabou de ser dispensado no PS Serra Maior por uma Space Fox prata. Área do 16".

      Depois do assalto e dos tiros, a quadrilha conseguiu roubar um Space Fox e fugir. Eles deixaram o ladrão baleado no estacionamento do Pronto-Socorro para receber atendimento. Essa foi a informação passada na rede. A última foto já é do corpo do ladrão morto, cujo foco está na área do tiro na barriga.

      - O mala do QRU (mensagem) do Mike.

      - Mala bom é assim. Mala morto.

      A mensagem é seguida por três sinais de curtir.

      Foto distribuída pelo whatsapp da PM do suposto atirador do soldado Duarte. Redes informaram que ele havia sido deixado no PS. Instantes depois, aparecem fotos do corpo.

      A crença de que existe uma guerra em pleno andamento na realidade obscura de São Paulo fica cada vez mais clara nas redes sociais dos policiais. A única maneira de sair vitorioso em uma guerra é exterminando os inimigos. Seguindo essa lógica, criminosos cometem mais atentados contra policiais e policiais voltam a bater recordes de homicídios no Estado, alcançando números que não eram vistos desde os piores anos do Massacre do Carandiru.

      No ano passado, 926 pessoas foram mortas pela PM. No mesmo período, foram mortos 75 policiais. O total do ano passado fica bem acima do verificado nos dois anos em que integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) atacaram policiais, como em 2006 (608 mortos) e em 2012 (715 mortes).

      Foto do WhatsApp da PM - Esse é o criminoso que atirou no sd Duarte segundo o dono do estabelecimento onde o policial foi morto, o bandido reside na Rua Safra da 3ª Cia do 37º.

      Em 2006 e 2012, depois dos ataques aos policiais, o que se viu foi o começo de uma caçada em bairros pobres de São Paulo. Entre 12 e 20 de maio de 2006, depois dos atentados contra os agentes da lei, 493 morreram no Estado nos chamados Crimes de Maio. A autoria não foi comprovada na quase totalidade dos casos por causa da péssima investigação e do corporativismo. Em 2012, as respostas aos ataques isolados a policiais foram execuções de grupos de jovens praticadas por atiradores de toucas ninjas, que os vizinhos acusavam se tratar de policiais. Mais uma vez, a população local acusava policiais de uniformes e à paisana, mas as investigações pouco caminharam.

      O recorde de 2014 mostra que a guerra segue em plena vigência. "Nos ataques de 2006 e 2012, a PM tinha a informação, mas não divulgava, e os policiais acabavam sendo mortos. Agora, com a divulgação, os PMs, que sabem que o Estado não faz nada... os policiais fazem o caixa dois (gíria policial para assassinato descaracterizado, fora de serviço)", disse à VICE um dos policiais que participa do WhatsApp, cuja fala foi sob a condição de anonimato.

      Ainda é quinta-feira, e nova mensagem chega pelo aplicativo de celular:

      "Cezinha, mala de Poá, está agora no semiaberto. E já informou que vai matar dois Charlies (policiais civis)". Em seguida, em novo texto, aparece a ficha completa com nome, endereço e fotos dos supostos predadores, dados obtidos no Fotocrim, software das polícias para ajudar na busca de suspeitos.

      Se o WhatsApp ajuda na prevenção, cria também problema ao alimentar o medo cotidiano dos policiais. Faz o policial se sentir mais vulnerável e desprotegido. No sábado, chegam as mensagens para jogar gasolina na fogueira. Nenhum dos alertas se confirmou.



      Cesinha, Mala de Poá, está agora no semiaberto. Ele iria matar dos policiais. A imagem é reservada do Fotocrim (software da PM) e são passados o endereço dele.

      - Pessoal, joguem em seus grupos de pelotão. Não é bizu. O sargento Soares acabou de pedir. Possível ataque a PMs da região da 1ª Companhia.

      - Amanhã tem visita no CDP de Pinheiros, porém não tem parente de presos do lado de fora. Geralmente lota. QRU (mensagem) de possível ataque. Vamos ficar ligeiros. Fonte quente.

      Casos e ocorrências bizarras passaram a ser toleradas na rede. As fotos dos corpos de um suspeito de ter matado o cadete Rafael Camilos Passos circularam pelo WhatsApp e foram divulgadas em um blog de admiradores das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar. A perseguição por parte dos PMs da Rota contra os suspeitos começou no dia seguinte ao homicídio do jovem policial morto ao tentar reagir a um assalto. Doze horas depois, um dos suspeitos estava morto, junto com outros dois jovens da Favela Funerária, na Zona Norte.



      Imagens divulgadas na rede e em blogs de moradores da Favela Funerária mortos em suposta troca de tiros com policiais que tentavam pegar suspeitos de ter matado aspirante da PM.

      O interrogatório do jovem que apontou os suspeitos foi feito por PMs e divulgado na internet, uma espécie de investigação Big Brother. É como se os policiais prestassem contas aos integrantes da corporação sobre a vingança praticada.

      ROTA ASPIRANTE

      Há absurdos mais grotescos. Como a divulgação da foto de MC Vitinho, DJ de funk morto em Santos no dia 15 de janeiro deste ano. Foi feita uma montagem com uma foto dele no Facebook cantando música de apologia ao lado da imagem de seu corpo sobre a maca do resgate, instantes depois de ter sido morto.

      Na legenda, os produtores do blog, que é apoiado por policiais e defensores dessa guerra, escrevem: "Um funkeiro a menos para atormentar os ouvidos alheios. Apologia do crime, efusivo entoador do hino do crime". Os policiais disseram que o mataram porque o MC reagiu. Amigos contaram que o motivo foram as letras de apologia. Testemunhas contaram que, antes de morrer, Vitinho pediu socorro e implorou para não ser assassinado pelos policiais.

      Montagem em blog de apoiadores da PM para celebrar a morte de DJ Vitinho ocorrida em janeiro deste ano em Santos.

      Desforras se multiplicam. Corpos sangrando de pessoas rotuladas como marginais. Imagens de caveira são apresentadas como os símbolos da ROTA. A guerra parece ter sido assumida pela corporação. Uma das peças de propaganda no blog é uma produção amadora, publicada na semana passada, com imagens raras de arquivo da polícia fazendo apologia ao Esquadrão da Morte, grupo criado em São Paulo em 1968, comandado informalmente pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, que retirava suspeitos das cadeias para executar e jogar seus corpos nas estradas.

      ESQUADRÃO

      O Esquadrão cresceu e ganhou popularidade em São Paulo logo depois da morte do policial Davi Parré, morto em tiroteio em 1969. Mais de 80 colegas compareceram em seu enterro e fizeram a promessa de que matariam dez bandidos para cada policial que fosse morto. No filme, também ressuscitaram a Scuderie Le Cocq, grupo que homenageou também um detetive da polícia morto na década de 1960 e que promoveu a formação de grupos de extermínio. No filme, aparecem fotos de cadáveres e apologias ao extermínio.

      Se a PM bateu recorde de violência, o Batalhão Policial do Estado que mais matou foi o 16º BPM da capital, que cobre a região do Rio Pequeno, na Zona Oeste. No ano passado, 26 pessoas morreram oficialmente em supostos tiroteios contra homens do BPM. Não faltaram motivos para se investigar o possível excesso dos agentes desse batalhão, mas o comando parecia não se importar.

      Em setembro de 2014, cinco homens da Força Tática do 16º se envolveram em um caso escabroso. Quatro jovens em um Corsa preto, com idades entre 16 e 21 anos, foram mortos em um carro roubado depois de serem perseguidos pelos policiais. A descrição oficial da ocorrência foi a esperada: resistência seguida de morte. Segundo os cinco policiais envolvidos, houve troca de tiros e, por isso, os suspeitos morreram. Seria mais um caso a cair no esquecimento e a engrossar os números da violência policial se não fosse a celebração virtual macabra ocorrida nos dias que se seguiram.

      Foto de WhatsApp mandada da cena do crime e do IML para familiares. Policiais do 16 BPM perseguiram quatro jovens e eles morreram. Fotos foram mandadas aos parentes pelas redes sociais.

      Fotos dos mortos foram tiradas na cena do crime e no Instituto Médico Legal, locais que só as autoridades tinham acesso. Numa das fotos, a vítima aparece com um colar de 13 tiros sob o pescoço, oferecendo fortes indícios de execução. Nos dois dias que se seguiram, essas imagens foram mandadas por WhatsApp para os parentes dos garotos mortos e colocadas em um blog de admiradores da polícia.

      A legenda era a seguinte: "Força Tática do 16º BPM em acompanhamento de um veículo produto de roubo troca tiros com três marginais que o ocupavam. O resultado está na foto. Os três vermes, agora há pouco, deitaram no mármore gelado do IML. Vagabundos perigosos. Parabéns aos policiais envolvidos na ocorrência".

      Passaram-se meses, e a Corregedoria e o Comando da Polícia Militar deram pouca bola para o assunto. Familiares dos jovens foram depor acompanhados da Defensoria Pública, mas se sentiram acuados. Na visão deles, os investigadores pareciam mais interessados em saber sobre o passado criminoso dos jovens que morreram, como se estivessem buscando justificativas para o tal do tiroteio. A divulgação virtual das fotos não foi sequer mencionada.

      A celebração pela morte de criminosos segue a toda nas redes sociais dos policiais. Como se a guerra não nos prejudicasse. Parte da população acha que o extermínio de bandidos deixa o mundo mais seguro. E assim vamos alimentando o monstro, que, um dia, vai devorar a todos nós.

      A VICE pediu esclarecimentos para a Secretaria de Segurança Pública na segunda-feira e ainda não obteve resposta. Era será colocada assim que a resposta chegar.

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