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Entretenimento

Alan Smithee É Oficialmente o Pior Diretor de Hollywood de Todos os Tempos

Ele é responsável por um extenso catálogo de filmes horríveis.
19.8.15

Alan Smithee faz filmes escrotos há quase 50 anos. Não só blockbusters trash, comédias românticas sentimentaloides ou aqueles thrillers psicológicos pretensiosos que só fazem sentido na cabeça do roteirista – mas, na real, qualquer espécie de filme verdadeiramente ruim. Obras tão péssimas que ninguém gostaria de ter seu nome associado a elas.

E é exatamente por isso que o extenso catálogo nas costas de Smithee é tão, tão zoado: porque "Alan Smithee" (ou, às vezes, "Allen Smithee") é um pseudônimo usado por vários diretores para se distanciarem de filmes em que, seja lá por qual razão, eles não tiveram pleno controle criativo – e, por isso, acham que eles são lixo cinematográfico.

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O primeiro filme creditado a Smithee foi o western de 1969 Death of a Gunfighter (Só Matando, em português). Depois que o astro Richard Widmark discordou do diretor no meio das filmagens, outro cara foi trazido para dirigir. Como nenhum dos dois queria seu nome associado ao resultado final, a Director's Guild of America (DGA) creditou o título a Allen Smithee, e a carreira dele deslanchou. Com o passar dos anos, a obra de Smithee veio a incluir uma comédia de cowboy com David Hasselhoff; a sequência de Os Pássaros, de Hitchcock; um episódio do spin-off de detetive Mrs. Columbo; e a versão estendida para a TV do Duna de 1984, já que o roteirista e diretor do filme original, David Lynch, não tinha ficado feliz com a edição para televisão. Tudo isso levou Smithee a se tornar "o ninguém mais conhecido de Hollywood", segundo a revista do DGA.

O professor da Universidade de Cornell Jeremy Braddock, que editou o livro Directed by Alan Smithee, me explicou como as carreiras dos diretores sobrevivem e morrem pelas suas reputações. "No final dos anos 60, os diretores começaram a ter mais liberdade para fazer os filmes, mais liberdade para se estabelecerem como artistas. Isso também significou que o nome deles podia acumular valor ou ser ligado a uma produção comprometida ou ruim. Então, comercialmente, o nome do diretor começou a ser usado como ferramenta de marketing."

Nesse livro, Braddock pega a ideia do diretor como autor e artista e aplica isso aos filmes de Smithee. Mesmo que diferentes pessoas tenham dirigido cada filme, ele aponta que a obra do diretor fantasma revela a influência da indústria em vez da influência de um indivíduo. Braddock sugere que isso "em si é uma forma de gênio, o gênio do sistema. Também podemos pensar nesses grandes estúdios como autores e artistas, de certa maneira".


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Em 1983, Rick Rosenthal dirigiu Bad Boys (Juventude em Fúria): sem nenhuma ligação com o filme de ação de mesmo nome de 1995, essa obra de Rosenthal ajudou a lançar a carreira de Sean Penn, hoje atuando como consultor de produção de Transparent, o drama transgênero aclamado pela crítica. Algo que ele não fica tão feliz de se ver ligado é à sequência do clássico de Hitchcock, Os Pássaros 2, que ele dirigiu, mas do qual depois retirou seu nome. Tippi Hedren, que estrelou o original e apareceu na sequência, disse sobre a continuação: "É absolutamente horrível. Isso me envergonha profundamente".

Rosenthal afirma que o filme funcionou para os produtores da Showtime e diz que ter usado o Smithee não teve nada a ver com o sucesso da película. Ele assinou o contrato de direção com a garantia de que partes do roteiro seriam mudadas, mas "essas cenas foram tiradas e as originais foram colocadas de volta. Me disseram que eu tinha de filmar aquelas cenas. Isso foi só o começo, e o formato do filme era muito diferente do que eu pensei que seria".

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Infelizmente para outros diretores na posição de Rosenthal, nem sempre é tão fácil deixar Smithee levar o golpe. A DGA julga cada requisição do uso do pseudônimo individualmente; depois, negocia com a produtora do filme, o que pode resultar no diretor perdendo qualquer royalty ou lucro futuro com sua obra. Rosenthal lembra sua audiência como uma experiência positiva – um "tipo de processo de cura", como ele colocou.

Tony Kaye, diretor de A Outra História Americana, não teve a mesma sorte. Ele criticou a influência do astro do filme, Edward Norton, sobre o estúdio. Durante o processo de edição, Kaye gastou US$ 100 mil com anúncios denunciando Norton na imprensa de LA, além de ter convidado um rabino, um monge e um padre para tentar mediar sua reunião com um executivo do estúdio. Quando ele tentou renegar o filme e atribuí-lo a Smithee, a DGA decidiu que a briga tinha sido pública demais e que qualquer tentativa de se distanciar era inútil, negando o pedido de Kaye.

Rosenthal também já levou seus problemas com os estúdios para o lado pessoal no passado. Ele não trabalha com o Showtime desde Os Pássaros 2 e queimou sua ponte com a Warner Bros. TV com estilo: "Contratei um avião com uma faixa para voar sobre o estúdio com o qual eu tinha tido uma pequena briga", ele me contou. "Eu não disse nada muito negativo, mas, como eu fazia um personagem chamado Uncle Richard, a faixa dizia 'Bye Bye, Uncle Richard'. O resultado foi que não trabalhei para o estúdio de novo por 11 anos."

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Apesar de admitir que deveria ouvir os conselhos dos amigos e pensar melhor sobre projetos futuros, Rosenthal conta que é fácil agir irracionalmente na indústria do cinema: "Você tem uma discussão com alguém e pensa: 'Foda-se. Por que vou continuar dando duro para alguém que simplesmente não entende?'."

O trailer de An Alan Smithee Film: Burn, Hollywood, Burn (Hollywood – Muito Além das Câmeras, em português).

Oficialmente, Smithee se aposentou depois do lançamento de An Alan Smithee Film: Burn, Hollywood, Burn, de 1997. A sátira de grande orçamento apresenta um diretor chamado Alan Smithee como personagem principal. Quando Smithee (Eric Idle, do Monty Python) percebe que não pode renegar seu filme porque tem o mesmo nome do pseudônimo da DGA, ele rouba a película e ameaça destruí-la. Ironicamente, Burn, Hollywood, Burn era tão ruim que o diretor, Arthur Hiller, escolheu usar o pseudônimo Smithee para se distanciar do projeto.

E isso não foi só um golpe publicitário: o filme ganhou cinco Framboesas de Ouro, incluindo Pior Filme (mas perdeu Pior Diretor para o Psicose de 98). Roger Ebert chamou o título de "um filme espetacularmente ruim: incompetente, sem graça, mal concebido, mal executado, toscamente escrito e interpretado por pessoas que parecem congeladas na frente do farol de um carro". Ele não deu uma estrela sequer para o título, o que fez sentido para um filme sobre um filme ruim. Desde então, a DGA tem usado outros pseudônimos, mas alguns diretores continuam se escondendo atrás do Smithee, como sua página no IMDB pode comprovar.

Rick Rosenthal acredita que a única maneira de os diretores garantirem controle criativo – e, assim, não precisarem recorrer ao pseudônimo – é realizar obras de baixo orçamento, já que, "no momento em que um diretor falha, as asas dele são cortadas. Fica muito mais difícil manter o controle que você tinha antes de um filme fracassar".

Smithee e a influência dos estúdios que o criaram vão viver nos blockbusters cada vez mais extravagantes que estamos vendo nesta década, já que as grandes equipes se mantêm leais aos estúdios, e não aos diretores. Alan Smithe provavelmente nunca vai ganhar um Oscar, porém os filmes atribuídos a ele revelam o que acontece quando a visão de um indivíduo entra em choque com a indústria. Ele nunca vai ser um grande diretor, mas, pelo menos, nos deu alguns memoráveis filmes péssimos.

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Tradução: Marina Schnoor