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O Glicério É o Novo Mundo para Estas Mulheres

A dificuldade para falar português e conseguir emprego, a saudade dos filhos e o estilo das mulheres que largaram suas rotinas para tentar uma vida melhor por aqui.
6.3.15

A haitiana Julie Oscar, que já exerceu a profissão de educadora e hoje trabalha como faxineira no Brasil. Foto: Felipe Larozza/VICE

No Haiti, seu país de origem, Julie era professora de anatomia. Aqui no Brasil, onde vive há dois anos, trabalha como faxineira de um grande hospital da cidade de São Paulo. Ganha mil reais por mês. Por ser estrangeira, ela relata ouvir agressões constantes no emprego. "Aqui é meu país. Quem tem de trabalhar mais é você", disse uma colega de trabalho brasileira quando Julie pediu ajuda para encerar o chão. "Não adianta ir até a delegacia denunciar. Não vai dar em nada. Mas Deus sabe o que faz", conta a haitiana, que reproduz expressões como "oxe" entre uma frase e outra.

Essa dura realidade não é diferente da de muitas mulheres que chegaram ao país em busca de oportunidades melhores. Várias deixaram filhos, maridos, namorados e sonhos pra trás. Fomos até a Igreja Nossa Senhora da Paz, no bairro paulistano do Glicério, onde funcionam vários núcleos voluntários que abrigam e direcionam imigrantes recém-chegados a terras brasileiras.

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A língua é a primeira barreira para muitas, assim como para a nossa equipe, que se virou em português, inglês, espanhol e francês para conseguir realizar as entrevistas. A timidez é um segundo fator. Em situação vulnerável, muitas das moças ficaram extremamente envergonhadas em compartilhar suas realidades.

A peruana Giovanna Contreras veio ao Brasil com a família depois de levar um calote ao vender um carro. Foto: Felipe Larozza/VICE

Giovanna Contreras veio do Peru com o marido e o filho depois que a família ganhou um automóvel em um sorteio e resolveu vendê-lo para complementar a renda familiar. O calote ao receber o pagamento os deixou em uma situação financeira complicada. Por isso, escolheram tentar a vida no Brasil. Estão aqui "há um ano e quinze dias".

Técnica de enfermagem formada em seu país de origem, Giovanna está concluindo um curso de cuidadora de idosos. Conseguiu tirar os documentos necessários por aqui para se tornar beneficiária do Bolsa Família – oferta garantida pelo Artigo 95 do Estatuto do Estrangeiro, permitindo que imigrantes gozem dos mesmos direitos que os brasileiros. "Meu marido é artesão", conta, em lágrimas. "Faço voluntariado e estágio. Estou contente. Agora estão me encaminhando para fazer faculdade de enfermagem. Fico muito feliz."

Zenny Adegoke é nigeriana e está no país para estudar administração. Foto: Felipe Larozza/VICE

Vinda da Nigéria, Zenny Adegoke combina a cor da sombra dos olhos com a da gola da camisa e da calça. Tudo pink. "Estou aqui há três meses. Aprendi algumas coisas em português, como 'bom dia' e 'obrigada'. Viver no Brasil é melhor pra mim. Aqui, se você não está metido com o crime, pode fazer o que quiser", relata, em inglês. Ex-estudante de tecnologia na Tailândia, agora ela pretende estudar administração. "Quero estudar, conseguir meu diploma e, depois, fazer o mestrado. Quero trabalhar aqui no Brasil."

A ex-professora Pierrot Enise deixou a filha no Haiti para tentar a vida no Brasil. Foto: Felipe Larozza/VICE

Com unhas longas pintadas de vermelho, anéis, pulseiras e um vestido estampado até o pé, Pierrot Enise conta que sente saudades da filha, que ficou no Haiti. "Penso nela todo dia", suspira, em sua língua nativa: o francês. Aos 35 anos, a ex-professora diz que sua vida aqui permanece parecida com a que tinha na terra natal: sem emprego. Mas o humor e a vaidade vão bem, obrigada. Pierrot faz as próprias unhas – impecavelmente – e o cabelo da amiga haitiana, Colin Jesulaine.

A haitiana Colin Jesulaine. Foto: Felipe Larozza/VICE

Com um penteado bicolor, comprido e liso de um lado e mais curtinho do outro, Colin explica seu look. "Usamos linhas de costura e agulhas. Também dá pra colocar algumas mechas de cabelo falso", fala ao mesmo tempo em que exibe uma dessas cartelas baratinhas com fios sintéticos. O sorriso no rosto muda quando falamos em preconceito. Ela diz que já ouviu coisas horríveis de brasileiros, como "Por que você não ficou no seu país? O que você veio fazer aqui? Por que não ficou lá?".

Apesar das dificuldades, essas mulheres se mostram guerreiras, fortes e cheias de vida e esperança. Ficam um tanto tímidas ao falarem de si, mas dão risada quando as peças de roupas usadas pelas brasileiras viram assunto durante a conversa. Adoram as saias e os shorts curtos. No final, é irresistível não perguntar à dupla haitiana o que acham do estilo da repórter, que veste botas, calça jeans e camiseta. "Está muito bonita. Parabéns", elogiam.

Siga a Débora Lopes no Twitter (@deboralopes) e veja mais fotos e vídeos do Felipe Larozza aqui.