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A Mamba Negra expande sua pesquisa eletrônico-orgânica no selo MambaRec

A festa que é lar das intervenções urbanas e artísticas de Carol Schutzer e Laura Diaz virou label, e o primeiro lançamento é o EP de estreia do quarteto TETO PRETO.
2.9.16
Mamba Negra do dia 13/8. Foto por Alexandre Furcolin Filho.

Tive a oportunidade de ir na minha primeira Mamba Negra no mês passado — sim, eu sei, muito atrasada, visto que a festa rola desde meados de 2013. Não cheguei a pegar a época áurea da Mamba, de quando as festas aconteciam na rua e de graça, mas já tinha escutado tantos relatos positivos do evento que decidi ir sacar de uma vez por todas o que era tão interessante no rebento da arquiteta Carol Schutzer e da artista audiovisual Laura Diaz.

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A conclusão que tirei foi essa: se você estiver caindo de chapado ou desinteressado, a Mamba é similar a muitas outras festas da capital paulistana. Música eletrônica nos autofalantes, luzes, muita gente, muita dança, muita pinga. Mas o evento, em toda sua aparente despretensão, faz parte de um esquema maior de manifestações urbanas, políticas, musicais e visuais. Nas palavras de Cashu e Laura: "Gostaríamos de que a Mamba funcionasse como uma usina articuladora de intervenções urbanas, inserida num movimento artístico que enxergou no formato de 'festa', um suporte para construção e experimentação de novas linguagens."

Em agosto, a dupla resolveu expandir a pesquisa eletrônico-orgânica da festa e dos artistas que fizeram parte de sua história criando o selo MambaRec. A proposta é que essas tais experimentações artísticas e sonoras que rolam na festa sejam divulgadas, também, para fora dos eventos. "O público vai às nossas festas porque é um dos lugares em que encontra musica eletrônica brasileira fora o que rola nas rádios, shoppings e academias enquanto experiência coletiva. E a MambaRec será um portal para desenvolver essa pesquisa e expandi-la além dos frequentadores e consumidores da festa", explica a dupla.

Uma nova plataforma de divulgação também é uma nova plataforma para que a estética e linguagem da Mamba seja trabalhada, segundo Cashu e Laura: "Além da parte gráfica, a MambaRec traz matéria prima pra gente trabalhar um novo suporte: o videoclipe. Sem dúvida o audiovisual abre muitas possibilidades de discurso e criação", contam. Essa possibilidade de inovação fica clara no primeiro lançamento do selo, "Gasolina", do TETO PRETO.

O clipe é um improviso de dança do artista francês Loic Koutana, e foi gravado em quatro dias pela própria Laura. "Nos divertimos muito quebrando cabeça, vendo como que aquilo ia acontecer. Foi cinema direto", conta.

As imagens foram gravadas em diferentes partes da cidade de São Paulo, e as filmagens se encerraram no Ato Contra as Olimpíadas, organizado pelos secundaristas no dia 5 de agosto. "A polícia, em maioria esmagadora, fechou o ato no Vão de Lina Bo, depois fechou a Paulista e por fim, encaixotou a criançada na Augusta. Nenhum banco quebrado, nenhum pixo, nenhum ataque dos estudantes. Todos foram presos. Foi isso que registramos. Foram situações em que a performance e o mundo exterior dançaram em vertigem", explica Laura.

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"Gasolina" é a faixa-título do projeto do primeiro lançamento da MambaRec, o EP de estreia do TETO PRETO que ainda conta com a faixa "Já Deu Pra Sentir", uma interpretação techno de 10 minutos da canção de Itamar Assumpção.

Concebido dentro da própria festa, o TETO PRETO é um projeto em conjunto de Laura (sob a alcunha CARNEOSSO), os produtores paulistanos Zopelar e L_cio e o multi-instrumentista Bica. "A Laura e a Cashu sempre tentaram experimentações entre DJs e músicos. Em novembro de 2014, a Laura veio perguntar se ela e o Bica poderiam tocar improvisando comigo. Concordei e rolou super bem… na Mamba seguinte, a Laura, já veio com a idéia do nome TETO PRETO, aproveitamos a volta do Zopelar do Japão e convidamos ele pra session (também rolou) e a partir daí não paramos mais", conta L_cio.

Teto Preto. Foto: Marcelo Elídio.

O grupo segue a mesma linha de experimentação e construção de linguagem que vemos na Mamba; primeiro, pelos diferentes panos de fundo musicais dos artistas envolvidos (Bica toca percussão e instrumentos de sopro em grupos de música latina/brasileira, Laura tem uma forte influência de música brasileira, Zopelar é multi-instrumentista e produtor, assim como L_cio — que também tem experiência com música experimental), depois, pelo discurso social e político encrustrado na música do TETO PRETO, principalmente em "Gasolina": "Acho que [a faixa], assim como os Black Blocs e essa pulsão jovem que ganhou força e esmaeceu no último período são, essencialmente, símbolos de uma geração — e do esgotamento de outras…", pondera Laura.

O EP do grupo foi gravado no RedBull Studio, a convite do estúdio, e o timing foi perfeito para que o lançamento estreasse a MambaRec. Segundo ela, não havia pressa nem de sua parte, nem da de Cashu para que o projeto saísse logo: "A gente tem um tempo ofídico pra fazer as coisas. O bote e rápido, a digestao é lenta. E isso é legal. Eu e a Cashu temos muito cuidado e carinho com cada estágio de crescimento da Mamba e dos nossos projetos artísticos. Temos muitos planos, mas cada coisa tem um tempo de maturaçao pra nao virarmos mais um coletivo de astros auto-proclamados."

A MambaRec já tem alguns próximos lançamentos programados, como um trabalho do produtor Alexandre Silveira sob a alcunha EXZ_, que assina o MN02 ainda esse ano. Por enquanto, a Mamba planeja focar os lançamentos nos projetos e participantes da trajetória da festa, mas para Cashu e Laura, é impossível garantir que a Mamba Rec parará por aí.

"Entendemos que [o selo e a festa] são duas mídias diferentes, que têm alcances de públicos que podem ser distintos e complementares, ou seja, não necessariamente estarão sempre interligadas. Seja pelo surgimento do TETO, seja pela trajetória da cobra preta, estamos sempre em renovação e mutação da identidade sonora. Queremos fortalecer e criar canais que dêem vazão tanto a produção de parceiros quanto a nossa, gente nova com veneno pra gastar", concluem.

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