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Entrevista

Falámos com um ex-neo-nazi sobre a sua antiga vida como fascista

“Ser uma pessoa cheia de ódio é divertido e é uma boa maneira de libertar qualquer raiva contida”.

Hanna Herbst

Hanna Herbst

Foto: Patrick Hansy.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Áustria.

Christian Weißgerber já foi um conhecido neo-nazi em Turíngia, um estado do centro da Alemanha. Weißgerber, que costumava negar a existência do Holocausto, foi um membro activo da extrema-direita durante boa parte da adolescência. Coordenava grupos de jovens, tocou em bandas nazis e até tatuou uma suástica na perna.

Mas, a dada altura, com ajuda da Exit - uma organização que auxilia antigos neo-nazis que querem deixar o movimento -, saiu e começou a estudar Filosofia. Inicialmente, muitos dos seus colegas estudantes recusavam-se a aceitar a conversão quando descobriam o seu passado - e alguns chegaram mesmo a vandalizar a sua casa -, mas isso acabava por mudar quando o conheciam melhor. Hoje, trabalha em Berlim como consultor educacional e tradutor.


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Falei com Weißgerber sobre a sua época como neo-nazi e o estado actual da extrema-direita pela Europa.

VICE: Olá, Christian. Consideravas divertido ser neo-nazi?
Christian Weißgerber: Ser uma pessoa cheia de ódio é, de certa forma, divertido e é uma maneira de libertar qualquer raiva contida. Também te pode ajudar a sentires-te mais homem.

Quais eram as tuas antigas opiniões sobre o Holocausto?
Passei por fases. Durante um tempo achei que não era possível ter acontecido da maneira que nos ensinavam na escola. Depois, comecei a acreditar que as câmaras de gás nunca existiram; decidi que os judeus estavam a manipular a questão para servirem a sua própria agenda.

Mas, no fim, percebi que tudo isso não tinha qualquer importância, porque prender pessoas em campos de concentração - locais que mesmo os negacionistas mais extremos admitem ter existido - já é suficientemente criminoso. Entender isso foi o meu primeiro passo para deixar de negar o Holocausto.

Como é que alguém começa a acreditar que o Holocausto não aconteceu?
Consumindo certos livros, vídeos e palestras. A determinado ponto, começas a convencer-te de que és mais inteligente que toda a gente, porque acreditas que te informaste de uma forma que outras pessoas não fizeram.

Quais eram os teus objectivos naquela época?
Inicialmente, quando ainda fazia parte do movimento Völkischer, eu queria ver a restauração do Reich alemão para as fronteiras de 1936, a queda do sistema financeiro e a destruição das chamadas “lojas maçónicas”. Muito disso baseado em teorias da conspiração. Depois, juntei-me aos Nacionalistas Autónomos, que era uma forma mais jovem e moderna de fascismo. Focávamo-nos em fornecer incentivos para as pessoas serem repatriadas para os seus próprios países.

Isso não parece muito diferente do que movimentos modernos de extrema-direita, como o AfD da Alemanha, ou o FPÖ da Áustria, defendem hoje.
Podemos não chamar o FPÖ ou o AfD de partidos nazis, mas é confuso como eles defendem as mesmas coisas que costumávamos defender. Na época, não mencionávamos especificamente o sangue nazi e políticas de propriedade; em vez disso, falávamos sobre grupos específicos e devolver ao país certas tradições históricas. A nova direita é sobre a mesma coisa, mesmo quando não coloca as suas crenças da mesma maneira. Eles recuperam sempre o argumento da geografia e genealogia, que é a política de sangue e solo numa forma diferente.

Então, o que é que distingue os teus antigos grupos fascistas dos partidos mais conservadores e de direita de agora?
Queríamos expulsar pessoas cujas famílias estavam na Alemanha há apenas duas gerações. Por exemplo, mesmo se nunca tivesses morado na Turquia, desde que os teus avós fossem de lá, queríamos que voltasses para esse país.

No geral, neo-nazis são idiotas?
Ser idiota não é uma questão de falta de conhecimento, é mais uma obsessão com criar problemas, tendo por base um mundo que não existe. Um exemplo disso é a forma como populistas neo-nazis e de direita estão a insistir na ideia de que o Ocidente está a ser islamizado. Estão a construir um mundo de fantasia cheio de falsos problemas e isso sim é idiotice.

Faz diferença que neo-nazis sejam expostos publicamente?
Pode afectá-los de maneira positiva e negativa. Geralmente, quando um neo-nazi é exposto, deixa de poder concorrer a cargos públicos e pode acabar por perder o emprego. Por outro lado, isso pode afundar a pessoa ainda mais no movimento, já que são incentivados quando recebem esse tipo de atenção de grupos como os antifas e jornalistas. Acho que é preciso considerarmos se as vantagens de perseguir essas pessoas são maiores que as desvantagens. A extrema-direita geralmente vence, porque nada lhes importa.

Ainda ficas perturbado ao veres uma mulher branca com um homem negro?
Ser radicalizado afecta-te consciente e inconscientemente. Por exemplo, no passado percebi que o racismo é errado, mas se estava a ver porno e, de repente, me cruzava com duas pessoas de raças diferentes a fazerem sexo, perturbava-me. Agora já não acontece.

Fantasias desse tipo não são mais excitantes por serem proibidas?
Não é assim tão simples. Há uma crença clara entre os fascistas de que não devem fazer sexo com uma mulher negra. Mas, algumas pessoas fazem e convencem-se de que é OK, porque é como “domar um animal” ou algo do género. É uma forma de pensar muito colonial.

Neo-nazis podem ver porno lésbico?
Não posso falar em nome de todo a gente. Na maioria dos casos, isso não é realmente um problema. De toda a comunidade gay, as lésbicas são as mais aceites entre os fascistas. No final dos anos 80, houve um debate entre nazis sobre se era OK ser gay. Alguns neo-nazis disseram que estavam dispostos a aceitar a homossexualidade como uma questão privada - desde que o camarada se empenhasse noutras frentes alinhadas com o movimento. Claro, há outros grupos que têm uma abordagem completamente diferente da homossexualidade. Alguns skinheads acham que as mulheres são muito inferiores aos homens, portanto não vale a pena fazer sexo com elas e é assim que eles justificam terem relações entre si.

É perigoso para ti falares tão abertamente sobre o teu tempo como neo-nazi?
Se eles me quiserem matar, podem tentar. Mas, pensar demasiado nisso seria paralizante - é assim que funciona a intimidação. Quero apenas focar-me nos estudos. Quando recebo ameaças de morte no Facebook rio-me, porque sei que essas pessoas não são do tipo que vão em frente com algo desse género. Conheço alguns que desertaram directamente para os Antifas. Esses são os mais visados. Uma vez ouvi alguém sugerir que devíamos trancar todos os desertores do movimento numa casa e pegar-lhe fogo.

Ainda és amigo de alguém desse período da tua vida?
Não, perdi a maioria dos meus antigos amigos por volta de 2011. Alguns ficaram realmente desapontados comigo quando comecei a convidá-los para reuniões de clubes de livros marxistas.

Sentes falta de algum deles?
Sim, claro. Apesar de, eventualmente, ter discordado das suas crenças, a solidariedade era incrível - é como ser membro de um clube desportivo. Sentes que pertences ali, mesmo quando discutes sobre se existiram câmaras de gás ou não.

Não seria melhor simplesmente ignorar a extrema-direita por completo?
Muitas vezes é difícil saber quão grandes são esses grupos, porque eles dividem-se em muitas redes meais pequenas. Mas, de qualquer maneira, o tamanho em si não determina quão influentes esses grupos são. Já vimos movimentos com apenas um punhado de membros destruírem muitas vidas.


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