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Punks contam-nos as coisas menos punk que já fizeram

O que é pior: ser informador para uma associação anti-tabaco, ou trabalhar como agente imobiliário?

Por Graham Isador
08 Novembro 2018, 1:20pm

Frank Turner (à dir.) e Evan James Redsk. Imagens cortesia do autor.    

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Dois dias antes do meu aniversário de 13 anos, tentei cortar o próprio cabelo sozinho. Era uma época estranha da minha vida, pontuada por masturbação crónica e uma raiva enorme de praticamente tudo. A minha cidade natal. Os meus pais. Trabalhos de casa. Fascistas. A raiva era constante e sem forma. Tinha surtos aleatórios em que gritava e agia com violência. Num dia estava a ventilar a minha frustração a insultar um colega que não merecia, no outro a atirar pedras ao supermercado ao lado da escola. Nesta ocasião em particular, a totalidade da minha raiva hormonal foi dirigida para o meu couro cabeludo.

Tinha descoberto recentemente a música punk e estava desesperado para adoptar o estilo de todos os outros não-conformistas. Trancado na casa-de-banho de casa, cortei o cabelo com uma lâmina de barbear que comprei na farmácia. O resultado foi um Devilock assimétrico. Claro que o corte foi executado de forma atabalhoada e não estava apenas desigual, mas acidentalmente deixei uns pontos carecas (por mais que respeite o aspecto DIY do punk, há coisas que é mesmo melhor deixar para os profissionais). Mesmo assim, fiquei extremamente orgulhoso do meu novo visual. Quando a minha avó me viu começou a chorar, o que – honestamente – era mais ou menos o efeito desejado.


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Aos 13 anos, o meu corte de cabelo ocupava o lugar da minha personalidade. A minha esperança era que as pessoas veriam o meu cabelo e reconheceriam instantaneamente que eu era uma pessoa com quem não te irias querer meter: um indivíduo que tinha opiniões fortes sobre nosso governo opressor e as qualidades sedativas da religião organizada. Um verdadeiro vanguardista, que desenhava pentangramas e até tinha tentado andar de skate uma vez. Por isso, fiquei surpreendido quando me perguntaram se queria ser um informador.

Um amigo dos meus pais tinha aceitado um trabalho como chefe da Unidade Anti-tabaco de Ontário, no Canadá. Parte da missão da unidade era impedir a venda de cigarros a menores, impondo multas pesadas às lojas que o fizessem. Sendo assim, a Unidade Anti-tabaco chamou alguns menores de idade, não-oficialmente, para tentarem comprar cigarros no comércio local. Aparentemente, o meu novo look fazia-me parecer mais velho e, se eu quisesse uma posição na Unidade Anti-tabaco, ela podia ser minha.

Fiquei bastante dividido. Isto foi anos antes de começar a ler – e a citar de forma errada – Orwell, mas a ideia de ser um delator era bastante desprezível. Todavia, o trabalho rendia 10 paus a hora (mais sete dólares para o jantar). Exactamente 10 dólares a mais por hora do que alguma vez tinha recebido para fazer o que quer que fosse na vida. Depois de muita deliberação, decidi que 10 dólares era a minha taxa para desistir da minha moral. Fui de punk para um vendido numas duas semanas. Recebi 300 dólares pelo meu tempo como informador e usei o dinheiro para comprar uma Nintendo 64.

Trabalhar como informante foi, certamente, a coisa menos punk que já fiz na vida. É bastante mau, claro, mas tinha certeza que era possível encontrar encontrar algo pior. Por isso, passei os últimos meses a perguntar a um bando de punks qual a coisa menos punk que já fizeram. Lê as repostas abaixo.

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"Prestar atenção a qualquer coisa que escrevem nos fóruns do PunkNews". – Frank Turner

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"A coisa menos punk que já fiz foi abrir uma conta no Money Market. Acções Blue Chip. Fundos de investimento. Mas, é uma maneira muito segura de fazer o dinheiro crescer a longo prazo". – Benji Madden/Good Charlotte

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"Aceitar dar esta entrevista". – Dave Hause

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"Uma vez, decidimos não fazer um álbum de punk rock. Queríamos ver o que acontecia. Também passámos o dia inteiro a ouvir Steely Dan". – Bad Cop / Bad Cop

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"Há muita coisa na minha vida que não é nada punk. Pago as nossas digressões a trabalhar como agente imobiliário. Quando era puto, fiz aulas de sapateado, mas nunca fui suficientemente bom para realmente calçar aqueles sapatos". – Drew Thomson/Single Mothers

"Adoro ver a série Nashville e comparar os personagens com artistas de country da rádio". – Pkew Pkew Pkew

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"Literalmente, fiz 30 anos, tive gémeos e comprei uma casa na mesma semana". – Larry and His Flask

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"Usar uma sunga da Hello Kitty. Num jacuzzi. Enquanto comia mini cenouras. Ou usar a t-shirt da nossa banda. Com as letras nas costas. No dia que o nosso álbum saiu". – The Dirty Nil

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"A coisa menos punk que já fiz foi tocar Tom Collins na produção de RENT no meu último ano no liceu". – Evan James Redsky


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