Arthur Jafa
Arthur Jafa. Foto: Mario Sorrenti.
Entrevista

Virgil Abloh entrevista Arthur Jafa

O visionário da moda conversou com Arthur Jafa sobre ganhar um Leão de Ouro, a experiência de ser negro nos EUA e Kanye West.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
23.9.19

Arthur Jafa acabou de ganhar um Leão de Ouro, o prêmio mais alto que um artista pode receber na Bienal de Veneza, possivelmente o maior palco onde um artista pode exibir seu trabalho. O prêmio veio, em parte, por The White Album, um vídeo visceral que mergulha na branquitude, racismo e violência. The White Album vem na esteira de outro trabalho em vídeo aclamado, Love Is T he Message, The Message Is Death, que também usava found footage numa exploração sobre o que significa a negritude nos EUA - da criatividade até a violência policial.

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Love Is The Message, entre sua bricolagem de filmagens, apresenta principalmente "Ultralight Beam" de Kanye West como trilha sonora. Na época da criação de Love Is The Message, Virgil Abloh estava trabalhando como diretor criativo de Kanye West, e os dois continuaram amigos e colaboradores desde então. Na ocasião da premiação de Arthur, colocamos os dois no telefone para discutir…

Virgil Abloh: Oi, tudo bom, é o Virgil, que anda fazendo?

Arthur Jafa: Tudo bem? Onde você está? Chicago?

Sim, acabei de voltar de uma semana na Europa. É quase agosto. A Europa está desacelerando.

Mas isso não significa que você está desacelerando. É tão engraçado, cara, eu estava falando pra alguém recentemente, ganhar um Leão de Ouro em Veneza, não tenho uma grande relação emocional com isso. Não é algo com que sempre sonhei. Mas estar na i-D, pensei “Caralho, devo ter chegado em algum lugar”.

Se ver na i-D, cara, tudo que você cresceu idolatrando naquelas páginas, e agora alguém dizer “Você também está lá”, é uma loucura, cara.

Claro, eu sei que o Leão de Ouro é mais importante, estruturalmente pelo menos, mas definitivamente senti isso mais na cabeça que no corpo.

Mas você nunca fez seu trabalho para ganhar um Leão de Ouro. Num mundo feito de todas essas construções diferentes, na verdade é a expressão mais autêntica e pura quando um trabalho acaba num espaço onde foi feito sem levar em consideração.

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Love Is The Message não foi feito para um espaço de galeria. Fiz o vídeo pra mim mesmo. Eu ia publicar no YouTube, mas meus amigos vetaram a ideia. Seis meses depois ele estreou no Gavin Brown's Enterprise em Nova York, e mudou minha vida. Eu nunca teria imaginado apresentar aquele trabalho no contexto de uma galeria de arte. Um ano depois, estou realmente fazendo uma exibição num espaço de galeria. E penso, tipo, “caralho, não sei se vai funcionar nesse contexto”.

Foi meio como uma Ave Maria. As peças apresentadas na Bienal de Veneza foram feitas para aquela segunda exposição no Gavin Brown's. Ralph Rugoff, o curador da Bienal de Veneza, pediu essas peças mas também queria um trabalho em vídeo – ele tinha esse conceito de que todos os artistas da Bienal deveriam apresentar dois aspectos de sua prática. Então mostrei Big Wheels, coisas esculturais e um vídeo, The White Album. Inicialmente eles estavam interessados em apresentar vídeos mais antigos. E eu disse “Tenho essa coisa nova em que estou mexendo”. Na verdade, The White Album vazou dois anos atrás, a base da ideia, antes de ser apresentado de maneira mais robusta no Berkeley Museum. Mas desde então, ele continuou a evoluir. Mesmo o título, é meio que uma piada.

Como o título surgiu?

Eu tinha esse trabalho novo com um monte de pessoas brancas. Um amigo disse “Caralho, o mundo da arte vai amar, uma obra nova de Arthur Jafa, e é sobre nós”.

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Eu queria falar sobre comunidade e quão importante sua comunidade é para sua prática?

Há aspectos diferentes nisso. Você é parte da minha comunidade mesmo que a gente só esteja na mesma cidade duas vezes por ano. Aí tem caras que conheço e com quem convivo há 30 anos. Mas também posso estar fazendo trabalhos para alguém que, até certo grau, é imaginário. E essa comunidade imaginária, acho que ela conhece Killer of Sheep, que conhece Storyboard P, conhece Dr. J. O que permite ao trabalho não ter que estar constantemente se explicando, basicamente não precisando ser reparador. Sempre tento ser super-específico, e isso geralmente significa fazer minhas coisas o mais negras possível. Enquanto ainda recusando a noção de quer ser negro e ser universal é algo mutualmente exclusivo.

Tenho certeza que em todas as suas entrevistas você é chamado de artista negro entre aspas. Esse é um contexto que te confronta e é colocado sobre você, mesmo que nem sempre necessariamente de um jeito prejudicial. Você sente que há um lugar onde o “artista negro” está sendo definido diferente comparado com 10 ou 20 anos atrás?

Meu amigo, o brilhante artista John Akomfrah, disse, quando nos conhecemos, que ele nunca queria ser definido como um artista negro, mas ao mesmo tempo ele era um dos fundadores do Black Audio Film Collective, então… é complicado. Acho que não importa realmente como você se chama desde que suas coisas sejam incríveis. Parecia muito importante pra mim que John levantasse a bandeira de ser um artista negro, só pra podermos explodir qualquer conotação negativa que isso tinha.

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A estética negra não é sobre hierarquias fixas ou valor material, é uma questão de como você trata o material. É o que você faz com ele. Como você o molda. Como o deforma. O que você justapõe com ele. Como alguém pega um material “alto” como ouro, e transforma numa merda como uma corrente Dookie. Isso é afirma nosso próprio valor. É isso que curto.

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Uma coisa que adoro no seu trabalho é que ele permite que a comunidade veja a arte de maneiras com que consegue se identificar. Quando eles veem Love Is The Message , tem uma iconografia ali que as pessoas entendem. Frequentemente uso a frase Turista e Purista para descrever minha abordagem para o trabalho. O purista sabe tudo sobre história da arte, todo museu de todo país e o que está acontecendo no mundo. E o turista, nesse contexto, bom, ele sabe o que uma corrente Dookie realmente é.

Um público diferente geralmente significa uma resposta diferente. Meu irmão estava assistindo The White Album em LA com uma amiga, branca, e ela ficou olhando para ele o tempo inteiro, tentando ver quando ele estava rindo no caso dela rir de algo que fosse inapropriado.

Acho que isso acontece em muitas subculturas. Tem um espaço. Negros inventam alguma merda nova (como sempre inventamos). Todo mundo quer ver o que está acontecendo. Eventualmente, os brancos (ou héteros) superam o número de negros (ou gays) e isso muda o que está acontecendo. Se a proporção se desequilibra entre pessoas participando da cultura e pessoas que só consomem cultura, então o espaço fica comprometido e precisa ser evacuado. Isso sempre acontece. Não vimos isso acontecer no mundo da arte ainda porque a proporção estava comprometida desde o começo. É um desafio fazer uma coisa com alguma capacidade de chacoalhar as pessoas, fazer elas sentirem alguma coisa, mesmo que elas não entendam. Com Love Is The Message, previ que os negros ficariam abalados, mas nunca imaginei quantas outras pessoas também ficariam.

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Isso que acho único em Love Is The Message . Lembro de ouvir sobre a obra quando estava trabalhando como diretor criativo do Kanye. "Ultralight Beam" acabou sendo a trilha sonora de Love Is The Message, mas não é um contexto de clipe musical. É arte. Chegamos nesses momentos seminais onde há uma mudança e uma guinada no entendimento do que a imagem negra projetada é, e quão poderosamente ela pode ser representada.

Kanye constrói uma máquina. É uma máquina de estética negra. Ele a está alimentando, fazendo a curadoria dela. Com Love Is The Message, sinto como se eu tivesse estendido o que ele começou no reino do visual. Mas ainda de acordo com a metodologia, a coisa Jes Grew do que eles já tinha criado. O que estamos vendo agora são todas suas novas formações. Há esse aspecto de meta autor pra tudo. É isso que adoro no YouTube, muitas coisas incríveis no YouTube não têm um autor. Muito do meu trabalho com vídeo envolve pegar coisas diferentes e as tornar plausíveis juntas. Pegar algo com capacidade expressiva, e a colocar ao lado de uma coisa diferente com capacidade expressiva, seletor – como John (Akomfrah) disse: “colocar essas coisas num tipo de proximidade afetiva uma com a outra”. É isso que DJs fazem. Eles criam justaposição que intensifica como você experimenta a informação.

Acho que uma das grandes contribuições para a arte negra é a invenção de dois toca discos e um mixer.

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É a mais importante! Porque é uma questão do tratamento, nunca só dos materiais. Quando “nós” fomos trazidos para as Américas, “nós” éramos africanos. Diferentes países, diferentes grupos étnicos, diferentes famílias, mas o navio negreiro é (como disse Fred Moten) essa máquina generativa que nos causou essa “mutação”, que nos tornou “pessoas negras”. Você é acorrentado ao lado de vários outros fudidos e nenhum de vocês teve escolha. Isso é uma mistura. Quem somos veio disso. Uma deformação se torna uma formação. Tem uma mágica nessa falta de autodeterminação e a luta constante por autodeterminação. Só estar no mundo, sendo um só com a indeterminação do universo, é um produto disso. Esse é um aspecto central de ser negro e você vê isso no nosso trabalho criativo o tempo todo.

Você é um otimista? Ou um pessimista?

Sou um cético, principalmente. Acho que só um otimista pode ser realmente cético. E sou um otimista, não do tipo que acha que tudo vai ser divertido, mas do tipo que pensa – como chegamos lá pode ser doloroso, até horrível, mas vai ser incrível. Pensando na experiência negra, a divisão entre majestade e miséria não existe, elas andam juntas. Nossas circunstâncias, o contexto que nos produziu, cruzar o mar, ficamos molhados, ensopados. A pergunta é, o que vamos fazer? Você vai nadar de costas ou nadar de peito? Talvez você respire embaixo d'água. O que nos torna tão poderosos, pelo que todos somos presos, é como demonstramos, de novo e de novo, a capacidade de não só sobreviver como prosperar, nas circunstâncias mais problemáticas; capitalismo global, crise de imigração, desastres ecológicos, supremacia branca. É por isso que a negritude importa pra todo mundo. Porque somos como o futuro vai parecer, isso é inegável.

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Você está pregando pro coro aqui. Uma das citações suas que mais gosto , você estava falando sobre as barreiras que artistas negros encaram no mundo da arte. E você fez essa referência à patinação artística. Uma patinadora negra pode dar uma pirueta tripla e levitar sobre o gelo, e eles vão dar um 8,45 pra ela. Mas essa ainda é uma plataforma de lançamento pra mim e minha comunidade.

A primeira coisa é entrar no jogo. Quando estamos no jogo, queremos ser mestres nele. Quando somos mestres, queremos transformá-lo. Trazemos essa expressividade excedente para tudo que fazemos, e a negritude é sobre isso. É por isso que todo mundo fica hipnotizado com ela. E isso não é anticapitalista ou pró-capitalista, isso existe fora da lógica do capitalismo.

Influência negra criou um novo ecossistema, que pode crescer e sustentar diferentes tipos de vida que não podíamos antes, como na indústria da moda, por exemplo.

Chamo isso de terraformação negra, porque é assustador! É a transformação do ecossistema cultural, como você disse. E é algo totalmente contraintuitivo sob o capitalismo. Fazer um 360 antes de enfiar a bola na sexta não é eficiente, mas é assim que fazemos. Da escravidão em diante, sempre resistimos à lógica de como o Ocidente estrutura o mundo.

Temos histórias similares, viemos da esquerda e nos encaixamos nesse outro espaço. Você tem um Leão de Ouro, eu trabalho para a Louis Vuitton. Como nossas posições afetam como criamos? O Leão Dourado vai afetar como você aborda a produção cultural?

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Tenho pensando um pouco nisso. Nesses últimos seis meses, pessoas com quem eu nem poderia conversar 18 meses atrás, agora elas dizem “Seria tão legal trabalhar com você!” Elas estão entrando em contato. Elas estão tentando fazer sentido do que eu estou fazendo. Tudo isso é efêmero pra mim. Isso não muda minha relação com o mundo, mas muda a relação do mundo comigo. O que quero é continuar tentando fazer um trabalho que é radicalmente alienado do contexto atual. Desde o Leão de Ouro, definitivamente tenho mais recursos, mais acesso, e tenho muito menos interesse em ser adaptável. Estou tentando emergir, atualizar, manifestar algo novo, algo que vai revelar que Love Is The Message é a demo que sempre foi.

É a trajetória: toda essa energia que você está colocando já está te lançando em órbita.

A razão para me sentir tão confiante sobre onde estou agora? Isso é sobre mim, sou uma emanação. Quando o Ocidente descobriu os artefatos africanos, foi como uma bomba atômica explodindo. Isso está se desenrolando há 100 anos, as consequências da arte africana e estética negra se infiltrando no cerne da prática artística ocidental. É por isso que estou empolgado com o que estou fazendo, porque vejo isso num contexto mais amplo. Vejo isso agora, artistas negros chacoalhando a merda toda. Todo mundo acordando pra isso e tentando trabalhar as implicações, mas é inegável que essa coisa está acontecendo.

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O artista negro está definindo o presente, mostrando essa nova forma de expressão num espaço antigo que nunca viu nada assim.

Gosto dessa citação do Barry Gordy da Motown. Quando perguntaram se ele fazia música para os negros, ele respondeu que fazia música para os consumidores de música negra. O que ele queria dizer, para citar de novo Fred Moten, é que “negros têm um relacionamento privilegiado com a negritude mas não somos donos dela. Não é um relacionamento de propriedade”. Negritude é em si uma formação que está continuamente se formando, que está oferecendo novas possibilidades para o futuro. Sempre me pergunto – por que alguém fora os negros se importa com essa merda, se interessa por estética negra? Porque a negritude não é relevante apenas para os negros. É uma formação ontológica que está procurando entender o mundo. É sobre a possibilidade de um jeito diferente de ocupar a Terra, de existir nela.

Espero que essa conversa com a i-D seja um trampolim para elevar outros. Isso é o melhor que podemos fazer.


Créditos

Fotografia Mario Sorrenti.

Styling Alastair McKimm.

Cabelo Bob Recine para Rodin.

Maquiagem Kanako Takase da Streeters.

Manicure Honey da Exposure NY usando Dior.

Assistentes de fotografia Lars Beaulieu, Kotaro Kawashima, Javier Villegas e Chad Meyer.

Assistentes de styling Madison Matusich, Milton Dixon III e Yasmin Regisford.

Assistente de cabeleireiro Kabuto Okuzawa e Kazuhide Katahira.

Assistente de maquiagem Kuma.

Produção Katie Fash.

Assistentes de produção Layla Néméjanksi e Adam Gowan.

Consultora criativa e de casting Ruba Abu-Nimah.

Diretor de casting Samuel Ellis Scheinman para DMCASTING.

Matéria originalmente publicada na Edição The Post Truth Truth da i-D, nº 357, Outono de 2019. Encomende uma cópia aqui.

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