Publicidade
Este artigo tem mais de 5 anos.
Music by VICE

Discos: Sj Esau

Há rave nos bosques.

Por Ricardo Miguel Vieira
10 Abril 2014, 8:53am


Exploding Views
fromSCRATCH

2014


São poucos os casos em que um músico faz uma transição brusca entre uma matriz estética musical com que cresceu para outra completamente dispar, em cuja raiz não se encontram ramificações com o género anterior. Mais raro ainda se torna quando nesse novo género não se vislumbram uns grãos de influências passadas, embora não seja de todo uma realidade desconhecida e o que não falta são artistas versáteis com um sentido de adaptação a ambientes opostos à sua génese. Um deles é Samuel Wisternoff, produtor de Bristol, Reino Unido, que começou a dropar rimas com apenas oito anos de idade e que nos anos de 1990 lançou álbum de hip-hop/dance quando integrava o projecto Tru Funk com o irmão, Jody Wisternoff.

Contudo, Sam saltou para os meandros do indie-pop experimental e desde então fez-se notar pelo seu trabalho com SJ Esau, que acaba de lançar o Exploding Views pela editora fromSCRATCH. Trata-se de um álbum que associo ao que chamo “música dos bosques” — de tipos como Justin Vernon, Sufjan Stevens e Devendra Banhart —, embora com um espírito de rave eléctrica, com um indie mais musculado e demente. No fundo, e isto até se revela pela capa do álbum, SJ Esau aposta na introdução de cores e luzes psicadélicas menos visíveis naquele género de “músicas dos bosques”.

Exploding Views assenta numa destruição de sintetizadores e baixos profundos com salpicos de elementos electrónicos e distorcido, para além do ecletismo estético que vagueia nos 50 minutos de rotação do álbum. Há momentos em que uma música é mais pausada, para, segundos depois, disparar numa explosão de sintetizadores epilépticos, uma percussão desenfreada, riffs acelerados e um coro de vozes — como são exemplo “Stubborn Step” e “No Journey”. Além disso, outro dos traços distintos é utilização de uma panóplia de instrumentos ao longo das 11 músicas, sem que se perca o fio condutor e a consistência estílista. “The Pull” tem um violoncelo que segue na sombra de uma voz mais obscura; “Why Angry” aposta em tons electrónicos que relembram os vídeojogos de consolas 32-bit; e o teclado enche “What is it Now?”.

Sam Wisternoff fez um salto bem sucedido entre estilos e, pela escuta de Exploding Views, nem nos apercebemos de que fez parte da cena hip-hop. É certamente um um valor escondido entre os indie-pop provenientes do Reino Unido.