Entretenimento

Como as SuicideGirls sobreviveram aos anos 2000

“Isso se tornou algo como Kleenex ou Xerox. Quando diz 'Suicide Girl', você sabe de que tipo de garota está falando.”
31.3.17

Fotos cortesia SuicideGirls.

Esta matéria foi originalmente publicada no Broadly.

No estúdio de dança JustDance, três artistas burlescas despem seus vestidos da Sailor Moon. Elas estão ensaiando para a Comic Con ou se preparando para um festival de anime. Elas são Suicide Girls ensaiando para um show burlesco prestes a sair em turnê pelos EUA.

Fundado algumas semanas depois do 11 de Setembro de 2001, o SuicideGirls ainda existe. MySpace, LiveJournal, Kiki Kannibal e outros queridinhos da internet do meio dos anos 2000 perderam seu brilho, mas o SuicideGirls continua entreter seus 6,2 milhões de seguidores no Instagram, quase três milhões a mais de followers que a primeira-filha dos EUA Ivanka Trump.

Publicidade

A nativa do Oregon Missy Suicide fundou o site em seu apartamento em Portland com a amiga Sean Suhl, a.k.a. Spooky. Ela cresceu em Beaverton, Oregon, perto do quartel-general da Nike, e sofria para se encaixar com os bros de sua cidade. Ela idolatrava garotas tatuadas, mas descobriu que muitas delas não se classificavam como bonitas. Feministas também passavam longe de discussões sobre sexo e positividade corporal. Missy e Suhul criaram o SuicideGirls como uma comunidade online para garotas que elas idolatravam e com quem se identificavam.

As garotas postavam nudes no estilo pin-up, destacando suas tatuagens, e o site atraiu a ira tanto das feministas quanto da administração Bush. Feministas questionavam se mulheres postando suas próprias nudes contava como exploração, e em 2005, segundo o Racked, o Departamento de Justiça pediu que o site tirasse do ar imagens que poderiam ser consideradas obscenas.

Leia também: "Camille Paglia discute o feminismo contemporâneo"

Muitas estrelas de 2007, como Chris Crocker, sumiram na obscuridade enquanto YouTubers lucravam com os trejeitos que eles desenvolveram, mas o SuicideGirls sobreviveu. Hoje o site atrai mais de cinco milhões de usuários, segundo o Racked, e emprega dez pessoas.

Entre os ensaios, Missy discutiu com a VICE sua turnê de burlesco com 60 datas agendadas, como ela sobreviveu ao meio dos anos 2000, e por que ela riu por último das feministas que a odiavam.

Publicidade

VICE: Qual o maior equívoco sobre o SuicideGirls?
Missy Suicide: Se você perguntar para qualquer garota qual sua parte favorita de ser uma Suicide Girl, ela vai responder que as amizades que fez no processo. A maioria das pessoas pensa que isso é só sobre nudez e fotos de pin-ups nuas, mas é uma questão de comunidade e amizade entre as meninas. E sobre mim pessoalmente em relação ao SuicideGirls, as pessoas acham que posso ser um pouco grossa, mas sou uma pessoa doce, legal e simpática.

Como surgiu a ideia do show burlesco?
O show burlesco surgiu porque fizemos um evento assim alguns anos atrás, que foi muito popular. Elas abriram para o Guns N' Roses, mas era muito trabalho organizar um show burlesco, então decidimos fazer uma pausa, e começamos a procrastinar essa volta. Aí decidimos lançar um livro, e mandamos duas garotas para a turnê de autógrafos dele. Quanto elas chegaram a Santa Cruz, mais de 500 pessoas estavam na fila em frente à loja. A gente sabia que podia fazer um show melhor ao vivo. As pessoas querem a mesma experiência que têm no site na vida real, e isso é uma extensão da comunidade, onde o público em si coloca uma energia incrível no evento. Queríamos fazer uma turnê burlesca temática da cultura pop. Os cosplays na Comic Con são muito populares. Queríamos pegar os elementos do cosplay e combinar isso com o espírito sexy do burlesco tradicional, mas dando um toque moderno.

Fotos cortesia de SuicideGirls.

Qual era sua visão original para o SuicideGirls?
Eu queria criar um lugar onde as garotas pudessem se expressar, se sentirem confortáveis sendo únicas e sendo belas, e abraçar seus corpos, porque a definição de beleza era muito limitada em 2001. Você tinha o tipo de corpo magrelo de passarela ou o tipo loira siliconada Pamela Anderson. Eu vi todas essas mulheres lindas ao meu redor, e nenhuma delas tinha um reflexo na sociedade. Eu queria dar a elas um lugar onde pudessem brilhar, onde pudessem ser elas mesmas, onde fossem apreciadas por sua própria beleza e por serem únicas. Eu achava que isso poderia ser popular em Portland, talvez Seatle. Quinze anos depois, temos três mil Suicide Girls oficiais de todos os continentes, incluindo a Antártida. Temos mais de 250 mil candidatas a Suicide Girl, e recebemos cerca de 50 mil inscrições todo ano. Nossa comunidade é bem grande. Todo mundo se sente outsider em algum momento da vida, e a mensagem de que você pode ser única ressoa muito além.

Como o site evoluiu?
Quando começamos, era algo apenas no nosso computador. Você não tinha a internet no seu bolso. Agora as pessoas usam muito mais a internet móvel, e estão acessando a internet com mais frequência durante o dia. As pessoas querem entrar rapidamente online em vez de fazer uma longa sessão. Temos livros, quadrinhos, o show burlesco, o site, nossas redes sociais. Temos mais de 25 milhões de seguidores nas redes sociais; temos roupas, merchandise. É muita coisa. Isso tudo evoluiu organicamente. Eu não sabia que tinha tanta gente com experiências similares pelo mundo.

Publicidade

Como o termo "Suicide Girls" mudou?
A mesma mensagem vale hoje. O termo "Suicide Girl" veio de um livro do Chuck Palahniuk. É sobre garotas que escolhem cometer suicídio social não se encaixando [nos modelos]. Sempre odiei o termo "alternativo". Vindo de Portland, isso me dá um arrepio. Alternativo ao quê? Ninguém define sua identidade da partir do subgênero de música que escuta hoje em dia. Mesmo na época, não era como se você fosse só punk ou só hip hop. Eu precisava de uma frase que encarnasse a atitude em vez de um elemento muito específico de nicho.

["Suicide Girl"] se tornou um termo onipresente. Quando as pessoas fazem casting, elas pedem por garotas "tipo Suicide Girls". Isso se tornou quase algo como Kleenex ou Xerox. Quando diz 'Suicide Girl', você sabe de que tipo de garota está falando.

As pessoas viam tatuagem com maus olhos naquela época?
Com certeza. As mulheres não tinham tatuagem. Era coisa de marinheiro ou do exército, olhe lá. Tinha um elemento meio elitista. A gente ouvia muito naquela época: "Como você pode fazer isso com seu lindo corpo? Por que marcá-lo permanentemente? Por que você vai se rabiscar? Você era tão bonita e agora está estragada".

Quando você fez sua primeira tatuagem?
Fiz minha primeira tatuagem quando comecei o SuicideGirls. Fiz as asas nas costas cerca de um mês depois que comecei o SuicideGirls. Eu tinha piercing no septo desde os 15. Tatuagens e piercings, esse era o tipo de garota de Portland com quem eu me identificava e que achava as garotas mais bonitas do mundo.

"Fui muito criticada por me chamar de feminista na época. Agora o mundo alcançou essa ideia um pouco mais."

Como foi criar essa plataforma sem ter um mapa? Hoje as estrelas do YouTube têm 700 exemplos para seguir, mas nos anos 2000, muitos artistas eram explorados. Como vocês superaram isso?
Claro, cometi erros. Eu não tinha ninguém em quem me basear, então procurava as coisas no Google. O Google já existia, mas era algo novo. Eu dizia "Vou jogar esse contrato no Google e ver o que acontece". Sinto que definitivamente caí em armadilhas. Sempre fui bastante transparente, o que eu acho que a internet aprova hoje.

Por que você acha que as feministas te rejeitaram?
Não havia positividade corporal. Não havia Marcha das Vadias ou coisas assim que normalizavam que as mulheres podiam aceitar seus corpos e sua sexualidade sem serem perseguidas. Fui muito criticada por me chamar de feminista na época. Agora o mundo alcançou essa ideia um pouco mais. Vamos ver o que os próximos quatro anos nos reservam. Se você se lembra, a segunda onda do feminismo era muito anti-sexo. O fato de que eu tirava fotos de mulheres nuas, as publicava e dizia que elas eram lindas [alienava as feministas]. Muitas das primeiras feministas achavam que não podíamos usar nossos corpos para avançar.

O que sua avó acha de tudo isso?
Minha avó era muito republicana, ela cresceu em Orange County, e me dizia "Por que você está tirando fotos dessas mulheres nuas? Não entendo o que você está fazendo". Depois que ela viu um livro do SuicideGirls e foi para uma noite de autógrafos, ela disse "Bom, agora eu vejo o que você está fazendo". Ela conheceu algumas das garotas, e disse "No meu tempo, acho que eu teria sido uma Suicide Girl". No aniversário de 75 anos dela, fizemos tatuagens combinando.

Tradução: Marina Schnoor

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.