A chance é mínima: Câmara dos Deputados admite abertura do processo de impeachment de Dilma
Foto: Agência Brasil

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A chance é mínima: Câmara dos Deputados admite abertura do processo de impeachment de Dilma

Com mais de 342 votos a favor, oposição derrota presidente. Processo segue para o Senado.
18.4.16

Com 342 votos a oposição ao Planalto já comemora: fez passar o processo de impeachment contra a presidente Dilma neste domingo (17) - ao fim da votação, foram 367 votos a favor e 137 contra, além de 7 abstenções e duas ausências. Com uma sessão aberta às 14h e que se estendeu além do esperado pelo presidente da casa, Eduardo Cunha, o Planalto contou com uma série de viradas de casaca para afundar as esperanças de barrar o processo, que haviam crescido durante a semana durante um forte embate.

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Marcado por uma votação quase farsesca, que chegou a incluir a soltura de papéis picados pelo deputado Wladmir Costa (SD-PA), muitas bandeiras do Brasil usadas como manto, exemplares da Constituição carregados à mão e menções à familiares durante os votos – só faltou mandar beijinho pra Xuxa.

A sessão começou com confusão generalizada, antes das falas dos líderes partidários. Depois de admitir a presença de deputados à mesa principal, Cunha voltou atrás após ter uma faixa de "Fora Cunha" estendida às suas costas. A votação começou por Roraima, alternando entre estados da região Norte e Sul do país – o Nordeste, principal reduto governista, ficou para o final da sessão.

Antes de 300 votos a favor do impeachment, José Guimarães, líder do governo na Câmara, já admitia a derrota e falava em "virar o jogo no Senado". A Casa Alta precisa de maioria simples para admitir o início do julgamento do impedimento da presidente, a partir do qual ela fica afastada por até 180 dias, período em que o Senado, sob a presidência do ministro do STF Ricardo Lewandowski, debaterá o processo. Para que o impeachment ocorra, é preciso que dois terços dos senadores votem pela saída da presidente, 54 votos no total.

Se há alguma virtude nesta votação foi o processo didático de fazer o povo brasileiro conhecer mais de perto os seus representantes. Foram pouquíssimos os deputados que se manifestaram diretamente a respeito das tais "pedaladas fiscais" sobre as quais o pedido de impeachment foi construído. Além de uma avalanche de votos dedicados à Deus, e, mais especialmente, às próprias famílias (num processo que remete à formação nacional através das capitanias hereditárias, como se o mandato de cada deputado fosse propriedade privada, e não representatividade outorgada pelo voto popular), falou-se muito na crise econômica e seus 10 milhões de desempregados, e, num assombro, também aconteceram dezenas de votos em favor do impeachment como se ele fosse a garantia pela continuidade da Lava Jato.

O voto mais pernicioso e assustador foi feito, obviamente, por Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que na sua sanha fascista evocou positivamente o nome do torturador Brilhante Ustra em seu voto – estamos falando de um homem que chegou a torturar crianças durante a ditadura militar no Brasil. O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), votando na sequência, foi interpelado com termos homofóbicos por Bolsonaro e revidou com uma cusparada na cara do adversário. Em um post no Facebook, Wyllys disse que "não vou me calar e nem vou permitir que esse canalha fascista, machista, homofóbico e golpista me agrida ou me ameace".

Após a vitória da oposição, alguns deputados mais saidinhos já começaram a declarar seu apoio para uma "anistia" a Eduardo Cunha, que, entre contas na Suíça e outros quejandos, foi acusado na sexta-feira (15) de ter recebido R$ 52 milhões em propinas. Paulinho Pelego, ops, da Força (SD-SP) declarou ao Congresso em Foco que "sem ele (Cunha), não teríamos impeachment, merece ser anistiado". Osmar Serraglio (PMDB-PR) também deu declaração nesse sentido.

Em entrevista coletiva após a sessão da Câmara, José Eduardo Cardozo, da Advocacia Geral da União, disse que a votação foi "eminentemente política" e descartou a possibilidade de Dilma renunciar. Ao cabo das somas, a derrota é bastante dura para o Planalto. No fim da semana, após o governador Flavio Dino (PCdoB – MA) anunciar o voto de Waldyr Maranhão (PP-MA) e mais 11 deputados da legenda, uma luz vermelha foi acendida na equipe Temer. O vice-presidente, único político do PMDB com cargo no governo federal que não foi instado a desembarcar do governo na revoada geral, acabou tendo que voltar de SP para Brasília para articular o resto dos votos e garantir seu posto como presidente interino. A tática parece ter funcionado, e inclusive o PDT, partido que havia fechado com o governo, teve seis votos a favor do impeachment. Agora é ver se, garantido na interinidade, ele vai repetir o seu discurso pré-vazado, incluindo o silêncio sobre a Lava Jato.