Thomas Roma: “The Waters of Our Time”

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Thomas Roma: “The Waters of Our Time”

'The Waters of Our Time' foi publicado pela powerHouse Books. A obra, considerada o melhor livro fotográfico da primavera/verão de 2014 pela revista Time e é um dos livros de fotografia mais bonitos que já vimos.
05 February 2015, 11:00am

Thomas Roma é uma das pessoas mais carismáticas que já conheci. Digo isso não por causa das muitas realizações dele, como fundar e comandar o programa de mestrado em Belas Artes da Universidade Columbia, suas exposições solo no MoMA e no International Center of Photography, além de ele ter inventado a câmera que ele usa para tirar suas fotos. Mas, sim, pela abundância de uma qualidade cada vez mais rara: Roma sabe falar com as pessoas. O que faz sentido – esse é um fotógrafo que mostra os momentos mais humanos da vida. Ele fala sobre suas fotos de um jeito generoso e incomum, as considerando lembranças ou talismãs que ajudam outras pessoas a seguirem em frente.

Esse espírito se reflete em seu novo livro, The Waters of Our Time, que cabe no bolso da jaqueta. Enquanto entrávamos num bar barulhento em Chelsea, ele me presenteou com o volume de tamanho íntimo. Imediatamente, notei algo diferente: o texto do livro, escrito por Giancarlo Roma, seu filho de 22 anos, começa na metade da capa. Isso recebe uma atenção igual à da fotografia. O livro é um fac-símile de The Sweet Flypaper of Life , obra de Langston Hughes e Roy DeCarava de 1955, em tudo – menos no conteúdo, me diz Roma. "É uma cópia exata em tamanho, número de páginas e número de fotos. Mesmo o papel que usamos para a capa é do exato mesmo estoque. É um estoque antigo que a editora achou para mim na Itália." Enquanto nos sentávamos, a música tocando no bar mudou, e ele levantou um dedo para chamar minha atenção.

Thomas Roma: Etta James, "At Last".

Toco uma música antes de toda aula que dou. Na primeira aula, é sempre Dinah Washington cantando " Look to the Rainbow". É uma música diferente por semana, dependendo do que está acontecendo nos noticiários ou do que passamos em aula, mas a última música é sempre Richie Havens cantando " Follow". Essa música é muito importante para mim. Não acho que eu poderia ensinar sem ela. Na última aula, coloco essa música para revelar do que estive falando no semestre. O título do livro, The Waters of Our Time , vem da letra dessa música.

Uso a música para desmistificar a arte. Especialmente agora, com celulares e iPods, todos temos uma playlist. E essa playlist é sua história de vida de certa maneira. Música é arte – e, quando precisamos dela, ela sempre está ali. Quando você termina uma relação ou se apaixona. Quando você está confuso, quando alguém é mau com você. Há músicas para todos esses momentos. E acho que a mesma coisa funciona para a fotografia: há fotos que vêm à minha mente quando passo por coisas diferentes. É isso que estou tentando fazer quando fotografo. Estou tentando fornecer fotos com que as pessoas possam contar quando precisarem delas em algum ponto.

VICE: O que te atraiu em The Sweet Flypaper of Life?
O que me surpreendeu quando vi o livro pela primeira vez, mesmo antes de tocar nele, é que o texto começa na capa. E a foto na capa não se repete dentro. Não é texto e fotografias ou fotografias e texto. Essas coisas existem como iguais.

O texto é a história de uma idosa, que está se lembrando de um pedaço de sua vida de um jeito melancólico. Ela é confrontada pelo Anjo da Morte e engana o anjo dizendo que não pode morrer, porque tem muito trabalho a fazer: ela tem de cuidar dos netos. É uma história triste sobre obrigações. Esse novo livro é sobre o oposto. É sobre ser levado. Há coisas que acontecem conosco por suas próprias razões. E elas não fazem nenhum sentido. Mas temos de aceitar o que a vida é.

É uma ideia muito bonita.
Um brinde ao nosso primeiro encontro.

Parece que todo o seu trabalho é muito pessoal, mas feito para se aplicar a um público muito mais amplo.
Uma coisa que gosto muito de ouvir sobre meu trabalho: "Sabe, odiei seu último livro, mas amei o anterior". Só sociopatas querem que todo mundo goste deles. Quando tentamos fazer arte, estamos nos sujeitando à crítica. Esse é o papel do herói: o herói não é cuidadoso. Passar pela vida tentando convencer as pessoas é um erro. Você tem de colocar alguma coisa no mundo; e, se as pessoas não gostarem, você diz: "Não gostou dessa? Vou cantar outra música então".

Nesse novo livro, trabalhei com meu filho. A foto na capa é do primeiro rolo de filme que fotografei com uma câmera que fiz em 1972. Você sabe que projeto e fabrico as câmeras que uso? Chamo isso de Siciliano Camera Works. Estou usando a mesma câmera desde 1991. Acredito que fiz a câmera perfeita. Tão perfeita que a batizei com o nome do meu filho. E como fiz isso! Nunca faço esquemas e perdi os rascunhos, e fiquei com medo de desmontá-la para medir tudo. Estou calculando meus anos na Terra e acredito que só preciso de mais uma câmera. Mas estou fazendo duas, caso eu seja assaltado.

Meu filho era um grande jogador de basebol quando criança, o melhor interbase de Nova York. Projetei uma máquina para fazer tacos de basebol e fiz todos os tacos dele. Então, eu não fazia apenas os tacos: eu fiz a máquina para fazer os tacos. Eu sou maníaco nesse ponto.

Há fotos do seu filho no livro?
Sim, mas ele só interpreta um personagem. No livro, ele vai ficando mais e mais jovem. Minha esposa, Anna, também aparece como uma personagem, e ela vai ficando mais e mais velha. Há uma narrativa cruzada, e o livro acaba com um tipo de tragédia, que é um segredo. Eu me inspirei no livro de John Szarkowski [o diretor fotográfico emérito do MoMA], Mr. Bristol's Barn . Há um segredo naquele livro. Quase ninguém sabe disso.

Eu gostaria de saber.
Bom, não posso te contar hoje. Então, nunca mais vamos nos ver de novo.

Eu queria fazer um livro em que não houvesse informação suficiente para se chegar a uma conclusão lógica. Tenho um problema com os jovens conforme vou envelhecendo: eles dão muita importância à lógica, e eu não estou nem um pouco interessado nisso. Nada de lógica interna, externa, nada que seu pai ou sua mãe tenham te falado, nada que seus grandes professores tenham dito. Eles também são mentirosos. Lógica é sempre dependente da informação que você tem. As pessoas acham que lógica está relacionada de alguma maneira à qualidade. Não está.

Parece que a maneira como vocês combinaram imagens e texto, e imagens com outras imagens, é mais poética do que lógica ou linear.
A ideia de linear é curiosa. Gosto de contar uma história: duas pessoas estão passando por um quarteirão no Brooklyn. Estou esperando no final do quarteirão. Eu paro a primeira pessoa e digo (imagine um lindo dia de primavera): "Com licença, notei você passando por essa rua. O que você achou?". E a primeira pessoa diz "Ah, é muito chato; não se incomode em passar por esse quarteirão". E eu pergunto o porquê, e ela diz "Vi alguns pardais e pombas comuns. Só". Bom, essa pessoa é uma ornitóloga e o quarteirão foi chato. A segunda pessoa passa pelo quarteirão, eu a paro e ela diz que o quarteirão é incrível. "Você precisa ver", ela diz. "No meio do quarteirão, há a fachada de uma fazenda holandesa do século 17. E, se você olhar do outro lado da rua, dá para ver que há um celeiro. E, se você olhar de um lado e do outro, você vê as casas que o fazendeiro construiu para o primeiro e o segundo filho." Essa pessoa é uma arquiteta que projeta prédios para pessoas morarem. E existem quarteirões assim no Brooklyn, você pode ir lá. Essa pessoa ficou empolgadíssima com a caminhada. Então, quando dizemos linear, quero saber: de que linha estamos falando? Que olhos você tinha na sua cabeça para ver isso?

Como ensinar se encaixa na sua prática como artista?
Provavelmente me preocupo muito mais em ensinar fotografia do que em fotografar hoje em dia.

Sério?
Nunca vou parar de fotografar, mas sei que vou parar de ensinar. Então, estou muito focado em fazer um bom trabalho ensinando agora. Posso fotografar até cair, mas seria irresponsável ensinar até cair. Eu me preocupo muito com isso.

Falando em mortalidade, ouvi uma entrevista com você e seu filho para a NPR sobre o último livro de vocês, Show &Tell. Você disse alguma coisa sobre ele poder contar com isso quando você se for.
Fiz uma lista das minhas qualidades, e uma delas era "pai inexperiente". Não tive pai. Meu pai me deu para a adoção em vez de ir para a cadeia por me bater. Ele fez isso na minha frente: eu estava na frente do juiz da Suprema Corte. É uma história melodramática, eu sei.

Então, eu não sabia como era ser um pai. Na verdade, quando minha esposa Anna anunciou "Temos que começar a tentar ter um filho", foi um problema, porque ela acabou tendo sete gravidezes, e só temos um filho. O filho número cinco. Imediatamente, comecei a fazer psicanálise. No primeiro dia, eu disse: "Estou aqui, porque li que crianças abusadas frequentemente se tornam pais abusivos. E imagino que seja porque eles agem inconscientemente, e eu não quero isso". E ele disse: "Ter um filho te dá a chance de experimentar uma infância feliz". Então, me levantei e apertei a mão dele. "Está ótimo, volto na semana que vem."

É vulgar pensar que você deve ser um pai perfeito ou um filho perfeito. É assim que as pessoas enlouquecem. Meu filho, com certeza, foi exposto a diferentes lados meus. Já bati em pessoas, por exemplo. Não no meu filho. Mas – sabe? –, por raiva, já dei um murro na cara de alguém. Ele viu isso. Ele estava lá. Sou uma pessoa em conflito, e vão ter coisas que ele vai ter de resolver sozinho. Já fui um idiota, já fui agressivo. Não sei se fiz o meu melhor, talvez eu tenha mais para dar. Mas me batizei quando tinha 30 anos como Thomas Roma. Essa foi minha quarta mudança de nome. Então, sou Thomas Roma e ele foi exposto a essa pessoa, se é que isso faz algum sentido.

A vida que ele vê como minha não é um obstáculo. Ele não tem que sentir que precisa viver de acordo com algo que fiz, porque tropecei, caí, me arrastei na lama, me levantei orgulhoso e entrei no baile todo coberto de lama, dizendo: "Me aceite como eu sou". Não estou tentando convencer ninguém de nada. Estou tentando experimentar a vida. Só conheci a origem da minha família em retrospecto; então, não sou escravo da minha biologia ou de quem meus avós eram. Não sou nada tribal, exceto talvez por ficar mais confortável entre fotógrafos do que outras pessoas. Não acho que eles são melhores que ninguém, só acho que fico um pouco mais confortável. Quero poder experimentar tudo que puder, desde que eu não precise sair do Brooklyn.

The Waters of Our Time foi publicado pela powerHouse Books. A obra, considerada o melhor livro fotográfico da primavera/verão de 2014 pela revista Time, é um dos livros de fotografia mais bonitos que já vi. Compre o livro pela Amazon.

Matthew Leifheit é o editor fotográfico da VICE. Siga-o no Twitter.

Tradução: Marina Schnoor

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