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Centenas de Milhares de Manifestantes Estão Tomando Kiev

A capital ucraniana é palco de manifestações cada vez mais espetaculares desde sexta-feira, quando o presidente Viktor Yanukovych se recusou a assinar um acordo que aproximaria o país de uma adesão completa à União Europeia.
3.12.13

No final de semana, os protestos de rua que vinham acontecendo em Kiev atingiram um ápice dramático, com a dissidência pública pacífica escalando para violência em larga escala. A capital ucraniana é palco de manifestações cada vez mais espetaculares desde sexta-feira, quando o presidente Viktor Yanukovych se recusou a assinar um acordo que aproximaria o país de uma adesão completa à União Europeia. Infelizmente, esses manifestantes — descontentes com a decisão implícita de Yanukovych de se aproximar ainda mais da Rússia de Putin — foram recebidos com a repressão severa da tropa de choque.

Enquanto os líderes da UE se reuniam em Vilnius, Lituânia, no dia 28 de novembro, muitos ucranianos e políticos ainda esperavam que Yanukovych assinasse o pacto de integração à UE. Mas o premiê deixou a cúpula de mãos abanando.

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“Esperávamos mais”, diz a chanceler alemã Angela Merkel na noite de quinta-feira em Vilnius, repreendendo Yanukovych por cima de uma taça de champanhe. Em resposta, o premiê ucraniano resmunga algo sobre como o país está passando por uma situação econômica difícil e foi deixado sozinho com Putin por três anos e meio. O vídeo original, que não está mais disponível on-line por motivos de direitos autorais, recebeu quase 90 mil visualizações no YouTube.

Quando ficou claro que Yanukovych não estava interessado em fortalecer os laços do país com a Europa, pareceu inevitável que as coisas fossem ficar feias em Kiev. E sim, elas ficaram. Como o Economist colocou: “Bandidos e ladrões sempre preferem atuar nas primeiras horas da manhã. Assim fez Viktor Yanukovych, o presidente da Ucrânia”. Às quatro da manhã do sábado, a tropa de choque atacou com cassetetes os manifestantes espremidos na Praça da Independência da capital, deixando muitas pessoas feridas. Enquanto a área era limpa pela força, alguns procuraram refúgio no pátio da Catedral de São Miguel em Kiev.

Implacável, o público ucraniano voltou às ruas no sábado, no que provavelmente foi a maior manifestação até agora. É difícil de estimar a participação em números; alguns meios de comunicação ocidentais falam em 350 mil pessoas, enquanto a mídia doméstica cita números muito maiores. As coisas se tornaram violentas durante a tarde, quando manifestantes radicais armados com tacos e cartuchos de gás lacrimogêneo chegaram à Rua Bankova para enfrentar a tropa de choque, que também estava usando gás lacrimogêneo, além de granadas de luz. Nos enfrentamentos — que em certo momento contaram com manifestantes sequestrando e dirigindo um trator contra as fileiras da polícia — mais de 100 pessoas foram hospitalizadas, incluindo muitos jornalistas atacados e feridos por policiais. Paweł Pieniążek, um repórter polonês, descreveu como recebeu vários golpes de cassetete na cabeça. Parece que seu crachá da imprensa não teve muito peso na questão.

Mas quem está começando essa violência? As manifestações pró-Europa na Ucrânia eram pacíficas no início, e — até o final de semana — continuavam assim. Há rumores de que os enfrentamentos foram causados por provocadores conhecidos como titushki, que já chegam com a intenção de incentivar o ódio e lutar contra a polícia. Não ficou claro de onde essas pessoas vieram ou quais são suas motivações. Muitos dos manifestantes pacíficos, que foram pegos no meio da violência, questionaram abertamente se os titushki não estariam, na verdade, sendo guiados pelas forças do governo.

A maioria dos manifestantes acha que a violência nas ruas é do interesse das autoridades. Segundo eles, isso pode dar a Yanukovych o pretexto que ele precisa para iniciar uma repressão ainda mais dura. Assim, muitos ativistas e músicos conhecidos estão pedido que as multidões permaneçam não violentas. Esses sentimentos foram repetidos pelos Ministros das Relações Exteriores da Polônia e da Suécia, que iniciaram sua parceria com a UE em 2009: “Pedimos a todos que os protestos em Kiev sejam pacíficos”, declararam eles no domingo. Com “todos” talvez se referindo não só aos manifestantes, mas também como um aviso sutil às autoridades ucranianas. Sutil demais, alguns diriam, entre pedidos de imposição de sanções por parte da UE.

Em outra reviravolta irônica — lembra como ele aplaudiu os manifestantes na semana passada? —, Yanukovych expressou preocupação com a repressão nas primeiras horas do sábado. “Condeno as ações que levaram aos confrontos forçados e ao sofrimento das pessoas”, declarou em seu site oficial, acrescentando que ele e os manifestantes estão “unidos na escolha de um futuro europeu comum”. A questão continua óbvia: se esse é o caso, por que Yanukovych não assinou o acordo no dia anterior em Vilnius?

Na manhã de segunda-feira, algumas partes de Kiev estavam sob controle dos manifestantes, que adotaram o prédio da prefeitura como base; eles também quebraram as janelas e pintaram o título “QG da Revolução” na entrada. Muitos escolheram bloquear as entradas para os prédios do governo, para impedir que os oficiais públicos trabalhassem. Outros dizem que não vão deixar os prédios ocupados até que o governo atual seja deposto.

Por enquanto, grupos pequenos da tropa de choque continuam no centro de Kiev, reunidos em torno da administração presidencial, onde — no domingo — mais de 100 policiais foram feridos. O Ministro do Interior ucraniano afirmou que um total de 150 policiais e outros oficiais foram feridos nos enfrentamentos, assim como 165 manifestantes.

As redes sociais continuam tendo um papel de destaque, e o maior provedor ucraniano de internet, o Viola, está montando pontos de Wi-Fi pela cidade e pedindo que os usuários removam as senhas de suas redes pessoais para estimular a cobertura civil. No domingo, os rumores eram de que um estado de emergência seria estabelecido — apesar de um porta-voz do governo dizer na manhã de ontem que essa opção não foi discutida pelas autoridades.

Agora, as rachaduras estão começando a aparecer no teto de Yanukovych. Alguns parlamentares de seu partido renunciaram durante o final de semana. Arseniy Yatseniuk, um dos líderes da oposição, pede que o primeiro-ministro e seu governo renunciem até 3 de dezembro. É muito improvável que isso aconteça, mas os ucranianos contrários ao governo — desesperados pelos efeitos modernizadores que acreditam que a participação na UE traria — esperam que os aliados de Yanukovych do Partido das Regiões continuem desertando para o lado pró-Europa até formar a maioria.

Depois que os registros de participação nos protestos apareceram, os manifestantes decidiram continuar esta semana. Hoje é o 13º dia do que eles chamaram de “Euromaidan”, uma mistura das várias ambições continentais dos manifestantes, mais Maidan, o nome ucraniano da Praça da Independência de Kiev. No entanto, o site de notícias Ukrainska Pravda está usando uma manchete mais dramática: “Eurorrevolução — segundo dia”.

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