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Assista a um trecho do documentário da Plebe Rude, 'A Plebe É Rude'

O filme que será lançado no dia 13 de junho pelo Canal Brasil traça um perfil do rock de Brasília e expõe feridas abertas da banda.​
25.5.16

Foto por Breno Galtier

Foram o tédio e o ocasional acesso a certas referências musicais, políticas e culturais, tão escasso no Brasil dos anos 1980, especialmente na Brasília dos últimos anos da ditadura, os elementos reagentes que produziram a faísca do punk no Planalto Central. E, por consequência, a cena que ficou conhecida como "rock de Brasília". A Plebe Rude é sem dúvida o expoente mais consistente daquela geração, tanto pelo seu refinamento sonoro, já alinhado com o pós-punk e outras vertentes para além dos três acordes, como pela elaboração das letras, repletas de significados e repertórios nas entrelinhas, e toda a coerência que fecha o discurso.

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A Plebe É Rude, um documentário do Canal Brasil que chega aludindo aos 30 anos de lançamento do clássico álbum O Concreto Já Rachou, dirigido por Diego da Costa e Hiro Ishikawa, parte dessa perspectiva da história para contar a trajetória da banda. Os êxitos estão no ritmo fluente da montagem e na apuração dos depoimentos, que pela primeira vez tiram os integrantes de sua característica posição reservada para revelar picuinhas, mágoas e feridas da caminhada até aqui. Coisas como a indisposição entre o Philippe e o Ameba, que saiu da banda frustrado por não conseguir injetar mais das raízes brasileiras no som da Plebe, problemas com drogas e o lance do Gutje ter ficado ressabiado com a volta da Plebe com o Txotxa na batera.

Outros temas são explorados no filme, desde influências assumidas à contribuição do Herbert Vianna e a amizade entre o Philippe e o André X. Especialmente para o Noisey, a banda e o Canal Brasil liberaram um trecho do documentário — que já se encontra disponível nas plataformas de streaming digital. Na tevê, A Plebe É Rude estreia dia 13 de julho, às 22h, na programação.

Aproveitei a deixa e bati um papo com o Philippe sobre algumas questões abordadas no registro. Leia e assista!

Noisey: Se vocês tivessem tido acesso a outros tipos de som, que não o punk, você acha que teriam se sentido impelidos a sair da posição de espectador, por conta do discurso DIY?
Philippe Seabra: Exato, o punk te desafia pra fazer parte do movimento. Mas sabe o que serviu muito de influência pra que fôssemos, talvez, pra esse lado mais contestatório? O fato de termos crescido em Brasília. Porque Brasília quase que literalmente tem uma perspectiva diferente do Brasil inteiro. Todo mundo é filho de acadêmico, né, então, os nossos pais passaram pra gente o valor da leitura. Aí você põe isso junto com, claro, o explosivo movimento punk que estava rolando, e joga no liquidificador os hormônios à flor da pele – todo mundo era adolescente, menos eu, que era o mais novo da turma, ainda pré-adolescente — e, mais importante o acesso limitado à cultura que tínhamos em Brasília, que acabou sendo uma coisa boa. Porque Brasília, 35 anos atrás, era capital, só que era tipo uma cidade do interior. Um lugar pequeno, árido, desolado, e nada chegava lá. Os filmes não chegavam, as peças de teatro não iam pra lá, porque era uma cidade pequena. Mas, por ser a sede do poder, ali tinham todas as embaixadas, e as embaixadas nos forneciam duas coisas: através dos filhos de diplomatas a gente conseguia acesso direto à informação, livros e discos vindos da Inglaterra e de Nova York quase que em real time, através desses malotes; e as mostras de cinema das embaixadas. E não era uma coisa de pseudo intelectual, "vou ver um festival do Truffaut". É que era só o que tinha, e era de graça. Porque os filmes grandes não chegavam, demorava muito. Então isso meio que semeou os fundamentos da lucidez das letras e desse impacto das coisas. É claro que, no meu caso específico, quando eu ouvi Stiff Little Fingers pela primeira vez a minha vida mudou. E todos nós tivemos um momento desses, de iluminação, a partir desse contato.

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Quais eram as suas referências antes desse contato que te abriu as possibilidades?
Eu não vi o filme inteiro direito ainda, vi algumas cenas, mas dei entrevista contando que até então eu ouvia rock setentista americano. Todo mundo bonito, cabelo comprido, tocando pra caramba, e aí, de repente, chega o cara do Stiff Little Fingers, feio, de óculos e cabelo curto. Pô, eu era feio, de óculos, e tinha o cabelo curto! [risos] Então eu encontrei meu nicho, cara. E em Brasília você tem que encontrar a sua turma. Foi muito legal, no meio daquela desolação toda, conseguir se encontrar na música. E é uma coisa muito bonita. Música era a trilha sonora da nossa vida, hoje em dia é plano de fundo pra disputar em headphone ruim enquanto você surfa no Facebook textando. Na verdade eu sinto pena que as gerações mais recentes não vão ter… isso não vai fazer parte da vida delas.

Numa passagem do documentário a banda demonstra certo pesar com algo que as novas plataformas e formatos de se fazer circular a música e o conteúdo trouxeram. Por quê?
Eu sou muito fã do Arthur C. Clarke, o autor de ficção científica que morreu recentemente, e ele sempre falava que tecnologias novas são quase indistinguíveis de mágica. Então se alguém aparecesse com alguma forma de internet 30 anos atrás, cara, seria mágica. Seria inconcebível. E é uma pena, porque da mesma maneira que vem, vai. A gente penava tanto pra conseguir disco, penava tanto pra conseguir livro, e valorizava muito. Aí alguém falava assim, "O novo disco do Sham 69 está na casa do Renato", e todo mundo ia pra casa do Renato. O André, da Plebe, era o grande fornecedor, todo mundo sempre ia pra casa dele ouvir os discos. Quando alguém conseguia algo como o livro Hammer of The Gods, a biografia do Led Zeppelin, todo mundo pegava emprestado. Era bonito. Era em torno disso que se formava aquilo que o Renato [Russo] chamava de tchurma. E ele sempre sentia falta disso, tanto que ele ficou muito infeliz naquela fama, aquela coisa toda que virou, de ele ter se mudado pro Rio… E sempre que ele esbarrava com alguém da tchurma ele pegava pelo braço, lembrava de alguma anedota, sabe? Foi uma época muito legal. Ninguém vive do passado, a vida continua, mas essa coisa de você encontrar a sua turma… Igual quando você está andando em algum lugar, aí passa alguém com a camiseta do Buzzcocks, e você vai lá se apresentar, saber quem é a pessoa. A gente fala disso mesmo com um certo pesar, mas eu estou com um filho de quatro anos, e ele não terá essa relação que tivemos com a música, uma sensação de que era uma coisa só nossa, sabe? Aí a banda fazia sucesso e ficávamos putos porque só a gente podia conhecer [risos].

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Mas a própria Plebe Rude chega na nova geração ou mesmo beneficia os antigos fãs, disponibilizando seu conteúdo, inclusive este documentário, para streaming…
Esse contato é positivo, claro, não tem como lutar contra isso. Mas a gente também não se entrega de corpo e alma. Nós não lançamos EPs, por exemplo, lançamos álbuns. O documentário não é um clipezinho de alguns minutos porque ninguém consegue mais manter a atenção por mais tempo. Eu faço trilhas sonoras também, né, e ganhei o prêmio de melhor trilha sonora pelo filme Faroeste Caboclo, no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Mas não entrei no Twitter pra postar "Olha só, pessoal, o prêmio que ganhei!", sabe? É tudo tão público hoje em dia, e eu sou uma pessoa extremamente reservada, sempre fui. Nós estamos em todas essas plataformas, é um jeito novo de chegar nas pessoas, tudo bem. É que as pessoas se esquecem que só porque mudou o formato não significa que mudou o conteúdo. Você tem que ter música boa do mesmo jeito. Teve uma banda que fez uma promoção, que o cara tinha que fazer o download de uma senha, aí assistia o trecho de um clipe exclusivo, aí caia num outro lugar… e ia juntando… Cara, como se estivesse inventando a pólvora… e a música era ruim! Então de que servem todos esses artifícios? A banda tem que ser boa, tem que ter postura, tem que ter uma faísca. Não tem como forjar. O público brasileiro é muito mal informado, mas burro, não é. Então quando a Carla Perez tenta fazer uma carreira solo, aí não rola. Isso é ótimo, mostra que o público está tendo um pouquinho de discernimento.

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Eu concordo que tem artista que não se liga muito em elaborar o som antes de lançar. Compõe, já grava e solta…
E grava de qualquer jeito, também. Sou dono de estúdio e completamente a favor das novas tecnologias e da democratização, mas tem que ter um pouquinho de discernimento. São tantos vídeos na internet. Uma banda que existe há quatro meses e já lança um CD. Quem consegue fazer um disco bom nesse tempo? Tem que encontrar o seu "eu", desenvolver a banda, encontrar um estilo… E não estou falando da forma de gravação, mas das músicas mesmo, da canção. Sabe aquele filme Ratatuille, do ratinho cozinheiro? Tem uma frase lá, que ele fala que nem todo mundo pode ser um grande cozinheiro, mas um grande cozinheiro pode sair de qualquer lugar. Eu acho que é uma coisa de geração, cara, é tudo pra ontem.

O que você acha essencial pra uma banda achar a sua identidade?
Tem que pegar a estrada. Não como regra. Mas é recomendável lapidar as músicas ao vivo, você começa a sentir, a ter uma troca com a plateia. A gente toma muito cuidado. Todo disco que lançamos, as músicas são tocadas ao vivo antes, pra poder sentir a vibe. O Concreto Já Rachou foi feito em 16 canais, cara. Ou a gente tocava ou não tocava, não tinha edição, nada. O lance do punk de Brasília é muito simples: não deixar as suas limitações te definirem como pessoa. Estávamos limitados lá, não tínhamos acesso a muita coisa, e olha só o que essa geração conseguiu fazer nacionalmente. E até hoje ela ecoa. Faça você mesmo, né?

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Vocês meio que domaram as suas limitações e transformaram numa estética, isso foi muito positivo. Nem sempre a erudição no executar faz de um músico um bom compositor, não é?
Você vê o The Edge, nunca fez um solo na vida. E ele mudou a história da guitarra. Venceu as suas limitações. A limitação não precisa ser uma coisa ruim, é só você saber usar. Essa faísca não é o produtor que vai te fornecer, ela tem que estar na banda. Infelizmente nem toda estrela foi feita pra brilhar, nem toda banda tem isso. E, quando aparece, temos que valorizar. Esse é o grande mal dessas escolas de guitarra, o cara vai, aprende a tocar mil notas por hora, mas na hora de compor, não vem. Um dos melhores guitarristas que já gravei, na hora de gravar a base no disco, teve que parar durante duas semanas, porque empacou na base. E olha só, 95% da música é base. Tirando o Yngwie Malmsteen, no caso dele é o contrário [risos].

Rola a mesma coisa com letra?
A grande decadência dos letristas brasileiros eu atribuo a uma coisa: quando a tevê educativa infantil foi pro saco. Programas como Sítio do Pica-Pau Amarelo, que eu assistia quando era moleque, poxa, era mitologia grega, tinha o Minotauro. Eu assistia aquilo. Aí foi substituído por Xuxa e Angélica, empurrando seus produtos goela abaixo. Essa geração cresceu com pouca leitura e muita televisão. Não é à toa que as letras brasileiras andam péssimas. E o Renato falava, "Vamos cuspir de volta o lixo em cima vocês". Na Plebe, as letras são bastante trabalhadas, mas é coisa de ferramenta. A gente sempre leu bastante, via cinema arte, curtia as ideias e tudo.

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Você acha que a Plebe teria estourado se tivesse surgido em outro contexto?
O que é sorte? É o encontro do momento com o preparo. E quando começou a explosão do rock nacional, a gente estava ali em ponto de bala. O primeiro disco da Plebe, que foi o Herbert [Vianna] que produziu, ele só guiou a gente no estúdio porque o disco estava praticamente pronto. Ele fez um trabalho primoroso, mas ele trabalhou com uma puta de uma matéria-prima. Como produtor, eu trabalho com uma porrada de bandas, mas eu preciso de uma boa matéria-prima. Se você me der uma farinha vagabunda e uma água suja, eu não consigo fazer um bom pão.

Quão importante foi a atuação do Herbert Vianna pra achar o som da banda no estúdio?
O Herbert foi fundamental. As músicas já estavam prontas. Pouca coisa a gente fez lá, em termos de arranjo. É que em estúdio a gente era completamente verde, né. E teve duas coisas que sugeriu lá, que ele falou, "E se fizermos isso", que fizeram toda a diferença. Uma entrou pra história do rock brasileiro, o cello, na abertura de "Até Quando". Ela não abria assim. Só que quando a gente estava equalizando um cello e colocando um leve delay e tal, soou. Aí o Herbert veio e falou:, "Vem cá, por que não usamos isso na introdução?". E olha só a precariedade, não era só dar copy e paste. Tivemos que isolar o cello, gravar em fita, e depois passar dessa fita de volta pra outra pra colocar no começo da música. Se por acaso o Jaques [Morelenbaum – que tocou violoncelo na Plebe como músico de apoio entre 1985-89] tivesse usando o headphone mais alto e vazasse o som da base no microfone do cello, já não daria pra usar. E o rock brasileiro teria perdido um riff tão emblemático. E "Proteção" são quatro versos, né, e é uma paulada só. Só que no terceiro verso o Herbert falou, "Deixa eu fazer um negócio", apertou quatro botões e tirou as guitarras. Aí ficou "Para sua proteção", só baixo e batera. E esse baixo e batera virou meio que a característica da banda.

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E as tretas com o Ameba e o antigo batera?
Tem umas picuinhas lá, mas não chega a ser igual o documentário do Raul Seixas, que só tem mulher brigando com mulher. E é a primeira vez que eu falo a respeito, nunca tinha falado. Mas teve um problema de abuso de drogas na banda, não da minha parte nem do André, e que afetou. Eu nunca falei disso, mas num documentário sobre a história da banda tem que explicar, e afetou. Tem que explicar.

As drogas foram uma faca de dois gumes para o rock. Porque tem o lado decadente, mas também o lado de expansão da consciência e o hedonismo que se expressou musicalmente e criou novas vertentes do rock…
Drogas é uma coisa de escolha pessoal, mas que afeta a gente. Tem uma estatística no Brasil que mostra que existem 20, 25 milhões de pessoas afetadas por drogas. Mas não estou falando de quem é viciado, são amigos e família, mais família, aqueles que convivem com alguém drogado. Ou alguém abusando de alguma substância, álcool, seja lá o que for. E naquela época eu me senti assim, porque não era só banda, era roadie, técnico de som. Pô, a gente teve um roadie que traficava, cara. Esse cara uma vez levou dois quilos de maconha pra dentro do estúdio. Eu nunca tinha visto algo assim. Imagina se um cara desse vacilar? O outro, o técnico de som, só depois que eu fui saber, viajava com a cocaína dele dentro do meu case. Eu vi ele mexendo no case antes de embarcar, de longe, aí depois fui olhar e tava lá um pacotinho. Imagina a polícia parando, o cachorro farejando, vai pensar que é de quem? Eu fiquei muito mal, sabe? No auge da banda eu era muito infeliz. Pô, cara, é a única vida que eu tenho, entendeu? Eu merecia mais, saca? Mas aí quando o Clemente entra você vê a diferença no astral.

Os caras da Plebe com o Herbert Vianna. Divulgação

Você estava sempre insatisfeito nessa época, então?
Era estranho, eu morava no Rio, não me identificava com a cidade, nem com as bandas. Eu me identificava com as bandas de São Paulo, Cólera, Inocentes, Ira!, era muito mais a nossa praia. Queria muito ter me mudado, não pro Rio, mas pra São Paulo. É que a gravadora ficava no Rio, talvez fosse mais fácil. Não chegou a ser oferecida uma opção pra gente.

Qual é a faceta da história no documentário que você mais gostou de ver revelada?
O filme foca muito na amizade e na cumplicidade minha e do André. O meu irmão mais velho foi embora do Brasil e ficou a vaga. E quem preencheu essa vaga foi o André, como irmão mais velho, e, logo em seguida, como companheiro de banda, quando ele me chamou pra formar a Plebe. Eu tive três mentores dos quais me orgulho muito, que fizeram muito bem pra mim: o André, claro; o Renato. Eu nunca vi o Renato usando droga na minha frente. Eu era o mais novo da turma, né. Ele era muito carinhoso, muito preocupado comigo; e quando a gente começou a despontar e descer pro Rio mais vezes e eventualmente se mudar pra lá, aí o Herbert tomou conta. O Herbert era muito preocupado com a carreira da Plebe, com a percepção das pessoas.

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