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O Coke Bust Veio para Mostrar que o Hardcore Straight Edge Ainda Tem Algo a Dizer

Com suas apresentações nervosas, letras espertas e um som que revela ingredientes do powerviolence acelerado, a banda recontextualiza o discurso straight edge politizado.

Para aqueles que têm o vício de pensar na cena hardcore de Washington, DC, como algo nostálgico, sugiro que deem uma boa sacada no som e no discurso dos caras do Coke Bust. É certo que os anos 1980-90 trouxeram várias bandas insuperáveis, especialmente no rolê straight edge, de onde o Coke Bust erigiu. Mas é de lei também que o quarteto surgido em 2006 e que atualmente conta com Nicktape (voz), James Willett (guitarra), Daniel Jubert (baixo) e Chris Moore (bateria) na formação captou o genuíno espírito da coisa.

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Com suas apresentações nervosas, letras espertas e um som que revela ingredientes do powerviolence acelerado e da crueza inerente ao hardcore old school americano, além de uma vibe meio Heresy, o conjunto veio para encabeçar uma tendência de recontextualização do som e do discurso straight edge politizado.

Eles já passaram pelo Brasil no começo do ano e, em 2015, estarão de volta dentro de uma turnê latino-americana que, entre os dias 28 de janeiro e 21 de fevereiro, prevê shows também em outros países, sendo eles Uruguai, Argentina, Chile e Peru. Clique aqui para ficar por dentro da agenda. Na entrevista a seguir, o vocalista Nick fala sobre o começo da banda, a cena atual de sua cidade, a temática das letras, a primeira vinda ao Brasil e os sons novos a caminho.

Noisey: Como vocês foram atraídos para a cena hardcore, e especialmente para o movimento straight edge de Washington? Como é a cena da cidade hoje em dia, se comparada com o aquele espírito que marcou os anos 1980 e 90?
Nicktape: Cada um de nós tem uma história diferente, mas todos somos do mesmo subúrbio de Washington, DC. James, Chris e eu descobrimos o hardcore punk da cidade mais ou menos na mesma época, em 2001. Minha irmã mais velha era punk e me apresentou ao Minor Threat, ao 7 Seconds e mais um monte de coisas legais da música punk local. Foi ela quem me levou ao meu primeiro show de hardcore da vida naquele ano, e eu fiquei viciado imediatamente. A identificação com o straight edge rolou de primeira também, logo quando escutei a música do Minor Threat. Me senti representado pelo espírito da banda e nunca mais me desgarrei. Os anos 1980-90 foram uma cena totalmente única que obviamente nunca mais será recriada. Não tenho como dar um depoimento pessoal específico sobre isso porque obviamente não estava lá. Porém, no fim das contas, ainda rolam algumas similaridades. DC tradicionalmente sempre teve um forte sentido de “todas as idades, todas as épocas” nos shows, e isso se mantém fortemente arraigado nas raízes DIY do punk.

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Ouvi dizer que no começo vocês queriam soar como o Suicidal Tendencies. Como o som da banda evoluiu desse ponto de partida para o que vocês fazem atualmente? Quero dizer, o que mudou, quais outras influências, ideias e inovações vocês trouxeram para aquela proposta inicial?
Quando eu e meu amigo Parsons originalmente discutimos nossas ideias para o Coke Bust, estávamos curtindo muito a onda daquele primeiro álbum do Suicidal Tendencies. A gente trocava ideia ao telefone sobre o quanto amávamos aquele disco. Amávamos a crueza, as letras descompromissadas (e brutalmente honestas) e as mudanças de tempo totalmente loucas e fora de controle. Aquele disco é um clássico absoluto do gênero hardcore punk ao mesmo tempo em que quebra com tantos paradigmas, introduzindo solos de metal e músicas mais compridas. Não queríamos soar exatamente como o Suicidal, mas gostávamos do que eles estavam propondo. Uma vez que nós de fato nos reunimos, compartilhamos todas as ideias e ensaiamos com o Chris (egresso de uma cena mais grindcore/extrema), senti que conseguimos desenvolver a nossa própria identidade sonora. Então ainda que nós não tivéssemos importado os elementos exatos da música do Suicidal Tendencies, ainda os considero uma inspiração para a banda.

Qual é a crítica social que vocês fazem por meio de músicas como “Fumigation”? Quais são as causas que o Coke Bust defende?
Escrevi “Fumigation” pensando nos problemas da guerra às drogas na América e suas implicações internacionais no que diz respeito à ultra agressividade das polícias, especificamente a fumigação aérea sobre as plantações em regiões pobres da Colômbia – pulverizando um forte herbicida venenoso em qualquer parte que se pareça suspeita com uma plantação de coca. Essa política cega tem afetado negativamente a saúde das pessoas, outras plantações legalizadas, o meio ambiente e a qualidade do solo por longos períodos. Sou um cara muito interessado nesse tema da guerra às drogas (assim como sua ligação com a indústria dos complexos prisionais, indissociável do racismo e do classicismo) e sua análise a partir de um ponto de vista crítico. Muitas de minhas letras lidam com isso. A banda também tem uma mensagem central straight edge, o que eu acho que deixa muita gente confusa. Como podem minhas letras serem pró-legalização e straight edge ao mesmo tempo? Para mim o straight edge sempre foi um lance de escolha pessoal e não um padrão que deve ser seguido como conduta social. As pessoas têm o direito de escolherem consumir as substâncias que bem entendem, sejam saudáveis ou nocivas. Essa é uma realidade que nunca vai mudar independente da criação de leis mais e mais duras. Eu gostaria que nossas políticas em relação às drogas não resultassem diretamente em mortes, sofrimento e pobreza, assim como num sistema de corrupção internacional que cria um inevitável mercado negro de manufatura e distribuição. Insisto, mais uma vez: a escolha de usar qualquer substância, legal ou ilegal, é individual e sempre vai existir alguém transgredindo a lei. E o straight edge preserva isso, a escolha pessoal.

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Eu vi aquela foto do Max Cavalera exibindo uma camiseta do Coke Bust. Vocês o conhecem pessoalmente? Vocês são fãs do Sepultura ou outras bandas de metal, hardcore ou punk do Brasil?
[risos] Não! Nenhum de nós o conhece pessoalmente, mas Max e sua família vivem no Arizona, onde nós tocamos algumas vezes. O filho e a namorada dele já compraram camisetas do Coke Bust de nós pelo correio e daí acabamos trocando algumas mensagens. Quando as camisetas chegaram, eles nos enviaram essa foto com Max. Nós achamos sensacional! Todos obviamente amamos Sepultura e Ratos de Porão. Antes de chegar ao Brasil para a nossa primeira turnê no ano passado eu também já conhecia o Infect, I Shot Cyrus e Discarga, por ser um grande fã do selo 625 Records. James pirava no B.U.S.H. e o Chris curtia Mukeka di Rato. Escutamos O Inimigo pouco antes de embarcar para a turnê e achamos bem legal também. Conheci um monte de outras bandas brasileiras das quais hoje sou fã durante essa turnê por aí, a partir das amizades que fiz com vários brasileiros, e por morar com um brasileiro em D.C. por seis meses. Tem muita coisa que eu poderia listar, mas eu gostaria de dizer que me apaixonei pelo som do Jorge Ben Jor!

Esta será a segunda vez que vocês vêm tocar no Brasil, né? Quais as melhores lembranças que você guarda da turnê anterior?
A turnê brasileira que rolou no ano passado foi incrível: comemos açaí na praia de Cabo Frio, nadamos em Vila Velha, pogamos com o Disxease, exploramos a vida noturna do Rio, andamos de metrô em São Paulo, tomamos café o dia inteiro e trombamos um monte de gente legal da cena de São Paulo no Prime Dog. O rolê inteiro valeu a pena. Conhecemos tantas pessoas camaradas e nos divertimos tanto vivenciando uma cultura completamente diferente da nossa. Estamos ansiosos para voltar.

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Depois de dois álbuns e três EPs, tem algum lançamento pela frente que você já possa nos adiantar?
Sim! Neste exato momento estamos trabalhando num split 7’’ com a lendária banda Despise You, do sul da Califórnia. Serão três faixas, que já foram escritas, e que vamos gravar em breve.

O Coke Bust tem fama de encarar umas turnês em lugares onde a maioria das bandas geralmente não costuma ter as manhas de ir. Você tem alguma história curiosa ou engraçada dessas aventuras na estrada pra contar?
Essa é uma pergunta difícil, já que são oito anos repletos de muitas histórias de coisas estranhas que já nos aconteceram. Aqui vai uma lista:

Boas surpresas:
- Açaí

- Se perder e ir parar num jardim secreto do Brasil onde homens se masturbavam uns aos outros à noite escondidos em meio às árvores

- Conhecer novas e incríveis pessoas de todas as partes do mundo

- Cabo Frio

Surpresas ruins:
- Gangues rivais em Salt Lake City

- Ter escovado meus dentes com água suja por acidente em Salt Lake City

- A van pifando no meio do deserto em Novo México

- Nosso motorista caindo no sono enquanto dirigia na estrada e causando um acidente

- Pessoas tentando me roubar em Miami