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viagem

O Peru Reabriu seu Departamento de Investigações de OVNIs

A luz que brilha agora sobre minha cabeça nas montanhas de Marcahuasi explica a súbita paranoia do governo peruano com os homenzinhos verdes.
20.8.14

Pôr do sol em Marcahuasi. 

“Que porra é essa?”, grito, apontando para uma luz acima de mim. O céu noturno é incrivelmente claro, uma das razões pelas quais tantos observadores de estrelas que buscam ETs vêm até aqui em cima das montanhas de Marcahuasi, no Peru. Consegui montar uma barraca e fazer uma fogueira. Enquanto aqueço minhas mãos com as chamas e o resto do meu corpo com uma garrafa de rum, o avisto no céu.

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No começo parece um avião, ligeiramente lampejando uma cor azul, planando na direção das Três Marias. Então me dou conta de que na verdade ele não está planando, mas fazendo um zigue-zague que, até onde eu sei, é impossível de ser feito com um bloco de metal voador de 500 toneladas. Desce numa reta em milésimos de segundo, depois faz um W meio trêmulo antes de voltar ao ponto de partida.

Esfrego meus olhos e me foco na fogueira durante um tempo. “Deve ser algum tipo de ilusão de ótica”, penso – ou simplesmente enchi um pouco a cara de rum. Mas meu amigo também o vê, e quando levanto minha cabeça para dar uma outra olhada… “Caralho, ainda está lá”.

Em situações normais isso deveria ser uma vitória. Você vai ao Peru para caçar OVNIs e de fato vê um. Mas agora que está na minha cara na montanha mais sinistra da Terra, e estou praticamente sozinho, na companhia apenas do meu amigo horrorizado – agora desesperadamente tentando entrar na barraca e reprimir os nervos com pílulas para dormir –, não tenho mais tanta certeza de que estou disposto a fazer isso. Talvez fosse melhor eu estar escrevendo outro guia de turismo de comida gourmet para a revista de voo da Delta Airlines.

Alguns dias antes, num café de Lima, estou bebericando um café com Marco Barraza, o culpado por essa história toda. Pergunto por que as forças aéreas peruanas reabriram, em outubro passado, seu departamento de investigações de OVNIs, sem me dar conta das terríveis fronteiras às quais uma pergunta tão inocente me levaria.

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Escritor no site Peru.com e no Discovery Channel de língua espanhola, Marco é um investigador de OVNIs de padrão internacional, cuja página da internet é a mais lida sobre assuntos extraterrestres em língua espanhola, com 25 mil visitantes diários. Ele vinha fazendo lobby há anos para que o departamento – cujo último período de operação foi entre 2001 e 2003 – fosse reaberto.

Embora o nome do Departamento de Investigações de Fenômenos Aéreos Anômalos seja bastante sedutor, o DIFAA não é um cubículo ultrassecreto lotado de coisas que deixariam Robbie Williams e seus amigos ufologistas superexcitados. No lugar disso, ele está cumprindo “uma necessidade real”, de acordo com Marco. “Alguns dos objetos voadores não identificados – sejam meteoritos, detritos caindo do espaço ou balões meteorológicos – podem ser perigosos”, explica. “Há colisões no ar. E há muitos voos ilícitos, a maioria de narcotraficantes lançando drones. Há também uma questão de segurança nacional”.

Lagoas de Marcahuasi. 

Marco não está se referindo à ameaça de invasão alienígena, mas a questões com países vizinhos, como o Chile. Objetos não identificados no céu noturno provavelmente vêm de forças militares estrangeiras, diz, e por isso o DIFAA é supervisionado por um coronel. Ele e um conselho civil se encontram ao menos uma vez por semana para rever os últimos avistamentos críveis.

“Há alguns casos muito interessantes”, opina. Infelizmente, esses casos são secretos, mas um incidente extraordinário datado de mais de uma década atrás foi revelado recentemente pelo então chefe do DIFAA, o comandante aposentado Julio Chamorro, durante uma entrevista rara: o então-presidente Alberto Fujimori estava numa viagem de pesca na Amazônia com toda sua comitiva de segurança, quando uma esfera luminosa ascendeu da água e pairou acima dos barcos antes de sair em disparada para dentro do espaço. Isso, junto com frequentes avistamentos na base militar La Joya na região sul de Arequipa, é o que se acredita ter sido a causa da abertura do departamento.

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Adoro ficção científica desde que William Shatner atirou seu phaser, mas para mim sempre foi só isso: ficção. No entanto, Marco me garante que os avistamentos nos lugares chamados de “sagrados” são consistentes. Um deles vem atraindo teorias extraterrestres há décadas, então fui até lá, ao sul, às Linhas de Nazca, uma série de geóglifos antigos (grandes desenhos formados com pedras ou outros materiais naturais) que variam em complexidade, de linhas simples a motivos de peixe, macacos, aranhas e lagartos.

O “astronauta”, uma das Linhas de Nazca. 

O minúsculo avião para seis pessoas inclina 60 graus para nos dar uma visão melhor do primeiro geóglifo, uma baleia que levemente aparenta estar em perigo. Lutando contra a náusea intensa, recompus-me suficientemente para ver o “astronauta” bizarro desenhado num morro, como o primeiro desenho de uma criança de cinco anos numa lousinha mágica, só que um bilhão de vezes maior. O beija-flor enorme e perfeitamente simétrico já não é tão infantil, com uma envergadura de quase 100 metros.

Questões óbvias surgiram desde que as linhas foram descobertas nos anos de 1930. Como as pessoas antigas faziam esses gigantes pictogramas sem aviões? Talvez, como argumentou o controverso escritor de assuntos extraterrestres Erich Von Däniken, fossem linhas de pouso para aeronaves alienígenas. De volta à terra firme, o guia turístico local, Orlando, explica as teorias proeminentes, incluindo as ideias de que são um vasto calendário astronômico, ou de que apontam para fontes subterrâneas de água. Mas e os alienígenas?

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“Cada teoria tem algum ponto válido”, opina Orlando. Depois, falando mais baixo: “Acredito que não estamos sozinhos. Os deuses sempre desciam até as pessoas. Há pinturas em cerâmica encontradas nas linhas que mostram seres alados …”

Logo estamos enterrados até o pescoço em lendas sumérias e murmurando sobre os Annunaki, que proto-historiadores acreditam terem arquitetado geneticamente os humanos, 300 mil anos atrás. Talvez, sugere o guia, as linhas eram para serem vistas por “deuses alienígenas”. Isso certamente explicaria por que elas são enormes.

Quanto a avistamentos de OVNIs, o Orlando recomenda visitar as zonas energéticas vizinhas como a antiga capital de Nazca, Cahauchi, e Orcona, aonde as pessoas vão para ver luzes estranhas à noite. Vou até lá, mas não testemunho nada do tipo.

Gravação de figuras gigantes registradas em Marcahuasi. 

Se há um lugar no Peru em que realmente posso esperar ver um homem grande e cinza com braços e pernas desengonçados, é em Marcahuasi. Um antro de avistamentos de fenômenos estranhos, essa área peculiar nas montanhas, 100 quilômetros a leste de Lima, é pouco conhecida pelos turistas. No entanto, é famosa entre entusiastas de OVNIs, não apenas pela formação rochosa bizarra que proto-historiadores alegam ser enormes esculturas datadas de antes da história humana, mas também pelas figuras gigantes que regularmente aparecem aqui em cima.

Na realidade, estou tão desconfiado quanto todos. E depois de ser transportado em um ônibus durante quatro horas numa passagem da montanha coberta de nevoeiro, pergunto-me que porra estou fazendo em San Pedro de Casta. Composta de algumas construções estranhas e ruas enevoadas, essa cidadela é a base da qual partiremos para a trilha até Marcahuasi pela manhã.

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O único hotel da vila é sinistro pra diabo. Sem nenhuma outra alma à vista, meu “Hola” mais alto não encontra resposta alguma. Finalmente, um homem alto com uma bandana verde-limão ao redor da cabeça aparece para dizer que o dono saiu e que o caseiro do local chegará em breve. Enquanto isso, Igo – como ele se chama– se entusiasma dizendo quão “especial” essa montanha é. Poupando-me de outra discussão sobre aviões de energia positiva, o caseiro velho e gentil finalmente nos leva ao nosso quarto congelante sem água quente.

Igo (à direita).

Antes de dormir, Igo me avisa sobre o poder perigoso de Marcahuasi. Já se soube de pessoas vagando peladas, delirando por estar em comunhão com espíritos, diz. Ele mesmo afirma já ter visto figuras misteriosas no crepúsculo.

Antro de alienígenas ou não, a trilha pelos morros até Marcahuasi é linda debaixo dos luminosos raios de sol da manhã. Depois de montar acampamento, percebemos haver nas rochas a serem exploradas centenas de formas de enormes rostos derretendo e se confundindo com animais deformados, enquanto uma caminhada até a beira da montanha mostra que estamos acima das nuvens. Preocupados com nos perdermos ao chegar da tarde, voltamos antes de irmos até a enorme torre de pedras conhecidas como O Forte, no ponto mais remoto de Marcahuasi.

Acima das nuvens em Marcahuasi. 

À medida que o sol poente transforma a paisagem num estranho roxo-alaranjado, finalmente começo a sentir que há algo quase mágico nesse lugar. Seja ou não essa “energia” que todos ficam martelando, não faço ideia, mas, quando a noite traz consigo uma vista perfeita do cosmo, começo a pensar que caçar OVNIs não é tão ruim assim.

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É nessa hora que a vejo: uma luz inexplicável zigue-zagueando pelo céu. Não pode ser um avião. Definitivamente não é uma estrela. E não há tecnologia terrestre capaz de sair em disparada desse jeito. Quando entro na barraca meia hora depois, não estou mais perto de explicar o que aquilo poderia ser.

Monumento À Humanidade. 

No dia seguinte, depois de ver o Monumento À Humanidade (pedra que parece uma cabeça humana perfeita) temos dificuldades em deixar Marcahuasi. Entrar no caminho errado nos leva a um campo de cactos, e então, desorientados, achamos que podemos ver O Forte. Ao que viramos, baixa uma névoa. Em poucos minutos é difícil ver algo além de nossas mãos estendidas. Logo escurecerá e cogitamos acampar onde estamos, mas não sobrou comida e temos pouca água. As coisas estão sinistras. É como se a montanha não quisesse que fôssemos embora.

Por sorte, a névoa sobe por um momento e revela uma senhora – aqui em cima em busca de cabras perdidas –, que nos aponta nosso caminho. Horas depois, morrendo de fome e exaustos,  conseguimos voltar a San Pedro de Casta – não que a cidade seja superacolhedora. Olhando-nos suspeitosamente, os locais parecem fantasmas. Mesmo nosso amigo Iogo me enerva: “Que bom que vocês voltaram!”, dando uma risada maliciosa. Há um ônibus saindo no dia seguinte, e me certifico de que estaremos nele.

Marco me ligaria logo depois para me contar de “um evento muito especial” que aconteceria no final do mês em Chilca, um planalto deserto conhecido por avistamentos. A mídia internacional estará presente. São e salvo de volta à Inglaterra, recuso educadamente. Nunca saberei o que aquela luz estranha em Marcahuasi era, mas fico feliz de o investigador peruano estar por lá procurando saber a verdade para que eu não tenha que fazê-lo.

@DarrenLoucaides

Traduzido por: Julia Barreiro