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O filme "Cidade de Deus" alterou mesmo a realidade da favela?

"Quando lidas com actores que têm uma estrutura social precária, tens que pensar muito sobre isso", diz o actor e realizador Luciano Vidigal.

Por Gabriela Silva de Carvalho e Bianca Furlani
29 Novembro 2018, 2:01pm

Cena do filme Cidade de Deus. Foto: Divulgação/Globo Filmes

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Há quem diga que Cidade de Deus (2002), o filme do realizador brasileiro Fernando Meirelles inspirado no livro de Paulo Lins, dissemina imagens negativas e de violência; para a sensibilidade conservadora é perigoso trazer à tona uma história sobre criminosos. A representação das camadas populares e a denúncia escancarada da desigualdade pesam.

Tudo é forte em Cidade de Deus: as mortes, a violência gratuita, a indiferença do poder público e da sociedade, o exército de crianças e até mesmo as falas dos personagens. A grande verdade é que a história da favela, seja ela retratada por Paulo Lins ou por Fernando Meirelles, incomoda.


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A obra cinematográfica foi um sucesso mais além dos cinemas brasileiros, tendo obtido reconhecimento na Europa e nos Estados Unidos – tanto que teve quatro nomeações aos Óscares de 2004: Melhor Realizador, Melhor Guião Adaptado, Melhor Edição e Melhor Fotografia.

Uma das questões mais marcantes em torno da produção cinematográfica é o facto de o elenco fazer parte da própria Cidade de Deus – bairro periférico do Rio de Janeiro que já chegou a ser considerado o mais perigoso do município –, inclusive parte da equipa técnica, como no caso do actor e realizador Luciano Vidigal, que começou no grupo de teatro Nós do Morro e se tornou cineasta em 2002.

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Cena do filme "Cidade de Deus". Foto: Divulgação/Globo Filmes

"O Fernando Meirelles e a Kátia Lund vieram aqui ao morro e pediram ao fundador do grupo para encontrar actores jovens e negros das favelas do Rio. Eu fiz esse mapeamento, acompanhei todo o processo e treino e, depois, o filme entrou em produção. Cidade de Deus foi o meu maior estágio de cinema como cineasta”, relata Vidigal.

A inclusão dessas pessoas deu, é certo, protagonismo ao filme e representa até um ponto de viragem na vida de muitos a partir do audiovisual. Para Eduardo BR, que interpretou Jorge Piranha, a participação no filme representou uma mudança completa de vida. “Antes do filme, cantava rap e vivia como muita gente da favela vive, a fazer escolhas que não são tão comuns e necessárias fora da favela, mas que, dentro dela, se tornam necessárias por uma série de razões", recorda. E acrescenta: "Eu vivia como muitos jovens vivem em algum momento da sua vida. A principal mudança foi a abertura de novos horizontes”.

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Cena do filme "Cidade de Deus". Foto: Divulgação/Globo Filmes

A realidade, que era vista de uma forma fatalista, passou a ter uma possibilidade de mudança. Vidigal menciona actores que conseguiram sucesso nas suas carreiras, até a nível internacional, como Douglas Silva (que interpreta Dadinho em criança) e Thiago Martins (no papel de Lampião). “O próprio BR, que era traficante e se transformou em realizador de cinema”, comenta.

No caso de Eduardo BR, a actuação no filme foi a descoberta de uma paixão: a parte técnica do cinema. "Com mais dois amigos, fundei a ONG Nós de Cinema, onde fiquei durante um tempo. Em 2006 saí e comecei a trilhar o meu caminho para me tornar realizador, lancei a minha primeira longa-metragem no cinema e estou muito feliz".

Dez anos depois, Luciano Vidigal e o cineasta carioca Cavi Borges decidiram mostrar a realidade de Cidade de Deus e como se encontravam os actores Entre muitas histórias, o que mais marca nos relatos do documentário é a questão dos baixos cachês. “Não foi difícil reencontrar os actores, muitos tornaram-se meus amigos. 70 por cento deles eram do grupo Nós do Morro. A dificuldade é que alguns não quiseram dar a entrevista devido ao tema. Se vês o filme, percebes que muitos ficaram revoltados por não terem recebido essa retribuição financeira de uma boa forma”, relata Vidigal.

No próprio documentário, os actores falam abertamente sobre quão pouca foi a quantia recebida. Alguns dizem ter comprado alguns utensílios domésticos, outros, um computador. E essa passa a ser a principal crítica em relação à produção cinematográfica. Embora o filme tenha sido a oportunidade de um ponto de viragem, não o foi para todos. “Quando encontrei Renato Sousa, que fez o Marreco, fiquei muito mal. Estava a trabalhar numa oficina e achei-o muito talentoso. Ele assumiu que se deslumbrou, que foi difícil aceitar o sucesso. Também houve um dos actores, o Jeff Xander, que desapareceu, não sabemos se faleceu”, conta Vidigal.

Quanto a isso, não é possível dizer que o simples facto de ter participado num filme nomeado para os Óscares seja suficiente para melhorar e alicerçar a vida dessas pessoas. "Quando lidas com actores que têm uma estrutura social precária, como realizador, tens que pensar muito sobre isso", pondera Vidigal. E acrescenta: "Tens que criar uma certa estrutura para essa gente. O Fernando Meirelles e a Kátia Lund tinham essa preocupação, mas o elenco era muito grande. Portanto, torna-se difícil julgar. Eu aprendi muito com o filme, principalmente a lidar com esse tipo de pessoas e com o mercado, que não é fácil".

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Cena do filme "Cidade de Deus". Foto: Divulgação/Globo Filmes

Vidigal salienta ainda que foi difícil para o elenco compreender como tinham ganho tão pouco para participar num filme desta magnitude. “Eu também sou actor, já com 30 anos de carreira, mas até hoje discutir cachê é uma questão. O valor vai de acordo com a pessoa que és, com o empresário que tens, que vai lutar pelo valor e 90 por cento do elenco nunca tinha feito um alonga-metragem. Portanto, foi avaliado assim, foi o primeiro cachê deles. A tabela para actor iniciante no audiovisual brasileiro é uma coisa polémica”, explica.

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Cena do filme "Cidade de Deus". Foto: Divulgação/Globo Filmes

Representatividade versus racismo

Embora o elenco aporte representatividade à proposta do filme, não se pode ignorar que a ocupação do espaço audiovisual acaba, também, por ser um reflexo do racismo. “O audiovisual ainda é racista, não vês negros protagonistas de forma democrática. E isso afectou muito [os actores] na altura de conseguirem estabilidade. O mercado é muito difícil”, relata Luciano, que também é negro. Ou seja, esse é um factor agravante quando falamos da situação dos actores após Cidade de Deus.

“As portas nunca se abriram, nós é que as fomos abrindo. Fui fazendo as minhas coisas, de maneira bastante precária, com a ajuda de algumas pessoas. Inclusive, a longa-metragem que fiz com esforço", diz Eduardo BR. E sublinha: "Fomos abrindo as portas e estamos dispostos a abri-las cada vez mais, para que as pessoas possam vir e usufruir desses espaços conquistados".

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Cena do filme "Cidade de Deus'" Foto: Divulgação/Globo Filmes

Para Luciano Vidigal, o documentário é uma grande reflexão sobre o Brasil, 10 anos depois do lançamento de Cidade de Deus. “Ser artista é uma profissão muito mágica mas, ao mesmo tempo, é muito árdua e injusta, principalmente, para os artistas negros”, comenta. Durante uma entrevista ao Itaú Cultural em 2017, Paulos Lins revelou que o objectivo do seu livro era diminuir a violência e a matança da população negra e pobre por parte dos polícias. Ou seja, o motivo da escrita da obra é algo que ainda permeia os desdobramentos desta realidade: o racismo.


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