Drogas

A primeira viagem de ácido da história foi, na verdade, uma "bad trip"

Um mergulho inédito nos arquivos pessoais de Albert Hofmann lança uma nova luz sobre o momento primordial da era psicadélica.

Por Mike Jay
07 Dezembro 2018, 6:15am

Um retrato do falecido químico suíço, Albert Hoffman, numa colecção de papel de LSD na exposição 'LSD, the 75 Years of a Problem Child', na Biblioteca Nacional da Suíça, 21 de setembro de 2018, em Berna. (Foto por FABRICE COFFRINI/AFP/Getty Images). 

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

"Imagens caleidoscópicas fantásticas surgiram perante mim, alternando-se, matizando-se, abrindo-se e fechando-se em si em círculos e espirais, explodindo em fontes coloridas... Era como se o Mundo tivesse acabado de ser criado".

Esta é a famosa descrição de Albert Hofmann sobre o químico que tinha recentemente descoberto, o LSD, em Basileia, Suíça, 1943. Isto segundo a autobiografia, LSD My Problem Child (1979), que conta a sua jornada enquanto um bioquímico suíço obscuro que se transformou numa celebridade do psicadelismo.

A lendária viagem de ácido de Hofmann tornou-se o capítulo fundador da cultura psicadélica moderna e um momento-chave ao estilo "Eureka!" na história da ciência. Como a maçã que caiu na cabeça de Newton, o cientista puritano em plena epifania cósmica dava um meme do caraças. A imagem dele a tomar LSD antes de ir para casa de bicicleta, a pedalar com dificuldade num futuro em tecnicolor, é a cena da Natividade de toda uma geração.


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É um evento comemorado anualmente a 19 de abril como “O Dia da Bicicleta” – o precursor psicadélico das comemorações canábicas do 4/20 – com desfiles, espectáculos, festas e passeios de bicicleta de cores fluorescentes em várias cidades do Mundo. É uma imagem impressa em milhões de papéis de ácido.

A jornada de Hofmann está a ser celebrada numa exposição na Biblioteca Nacional da Suíça, em Berna: LSD: A Problem Child Turns 75. A mostra conta com documentos do arquivo pessoal de Hofmann, recentemente adquiridos pela Universidade de Berna. Entre eles, inédito até agora, há um relatório feito três dias depois da primeira viagem de ácido dirigido aos seus empregados na empresa farmacêutica Sandoz. E parece que a primeira viagem de ácido não foi, segundo Hofmann, uma paisagem de sonho extasiada, mas sim um pesadelo apavorante.

O relatório que escreveu três dias depois da viagem em 1943 é, na verdade, bastante diferente do que contou em 1979 e que se tornou uma parte tão significativa da história psicadélica. Aqui não há imagens fantásticas ou fontes coloridas. Em vez disso, foi uma "bad trip", mais parecida com um envenenamento, com sintomas que eram mais físicos e extremamente desagradáveis. Em vez de uma viagem psicadélica, ele e o médico que acompanhava o acto compararam-no a uma forte overdose de anfetaminas. Na verdade, a primeira verdadeira viagem psicadélica de ácido foi registada por outra pessoa: Werner Stoll, o filho do chefe de Hofmann.

Nesse documento de quatro páginas, Hofmann começa a história três dias antes, A 16 de Abril, quando começou a sentir-se tonto enquanto trabalhava no laboratório da Sandoz com alguns compostos químicos. Suspeitou que tinha inalado vapores de solvente e foi para casa deitar-se num quarto escuro. A dada altura “afundou-se numa condição não-desagradável de intoxicação, caracterizada por uma imaginação extremamente estimulada". “A natureza e curso desse transtorno fizeram-me suspeitar que isso tinha algum efeito tóxico”, continua o relatório original. Três dias depois, decidiu experimentar a substância que achava ser responsável pelo episódio anterior: dietilamida de ácido lisérgico, ou LSD.

Na manhã de 19 de Abril, sintetizou 0,5 mililitros do composto, dissolvido em 10 centímetros cúbicos de água e às 16h20 tomou 250 microgramas – 0,000025 de uma grama, a menor dose com que achava que seria possível notar algum efeito. Às 17h00, começou a sentir-se tonto, como antes, e decidiu voltar para casa de bicicleta. Naquela agora famosa voltinha de bike, os sintomas foram-se tornando mais fortes: “Tinha muita dificuldade para falar claramente e o meu campo de visão flutuava e nadava como uma imagem num espelho distorcido”, escreveu na época. Uma descrição parecida com a que escreveria no seu livro de 1979. "[Tinha a] sensação de que não estava a mover-me do lugar, apesar de o meu colega dizer que ia a uma velocidade alta”. Quando chegou a casa chamou o vizinho que, por sua vez, chamou o médico mais próximo.

Os sintomas sobrecarregaram-no. Hofmann registou que, naquele momento, estes eram “tontura, distúrbio visual, as caras dos presentes pareciam muito vividamente coloridas e sorridentes; poderosos distúrbios de movimento, alternando-se com paralisia; a minha cabeça, corpo e membros pareciam pesados, como se estivessem cheios de metal; cãibras nos gémeos, mãos frias e sem sensação; um gosto metálico na língua; garganta seca e constrita; sensação de sufocamento; confusão alternando com momentos de reconhecimento claro da minha situação, em que me sentia fora de mim, como um observador neutro enquanto chorava ou murmurava indistintamente”. Tendo em conta que Hofmann tomou uma dose considerável de ácido sem saber o que estava a fazer, não é surpresa que tenha achado que estava a enlouquecer ou a morrer.


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Quando o médico, Walter Schilling, chegou, “o pico da crise já tinha passado”. As anotações de Schilling, preservadas em arquivo, registaram que ele ficou impressionado com os “distúrbios motores e humor ansioso” de Hofmann, mas que não conseguiu encontrar nada de errado com ele. “Objectivamente, o coração estava a funcionar regularmente... o pulso estava na média, a respiração era calma e profunda”.

É aqui que a autobiografia de Hofmann se desvia do relatório que ele escreveu na época. “Agora, aos poucos”, documentou 36 anos depois, “podia começar a desfrutar das cores sem precedentes e jogos com as formas que persistiam por detrás dos meus olhos fechados”. Depois vêm os caleidoscópios e fontes coloridas. Mas, há pouco disso no seu relatório original, com menções de “distorções sensoriais”, mas descrevendo as visões como “desagradáveis, predominantemente em tons tóxicos de verde e azul”.

O documento de 1943 conclui com a sugestão de Hofmann, que ele discutiu com Schilling na época, que “os sintomas eram muito semelhantes àqueles que podem ser observados numa overdose de estimulantes estilo anfetaminas, como o 'Pervitin' [uma marca alemã de metanfetamina disponível no mercado durante os anos 1930]”. Na manhã seguinte, Hofmann escreveu em 1979, “uma sensação de bem-estar e vida renovada inundou-me... Era como se o Mundo tivesse acabado de ser criado”. Mas, o relatório da época diz, simplesmente, que ele acordou a “sentir-se perfeitamente saudável novamente, embora um tanto cansado, mas fiquei de cama o resto do dia como aconselhado pelo médico”.

A primeira viagem de ácido foi uma experiência devastadora, mas Hofmann sabia que se tinha deparado com algo notável. Não conseguia pensar em nenhuma outra substância que pudesse produzir um efeito tão poderoso com uma dose tão minúscula. “A dose tóxica de Pervitin está em algum lugar nos décimos mais altos de um grama”, escreveu, o que tornava o LSD cerca de mil vezes mais forte.

O arquivo contém relatórios inéditos de uma série de viagens que Hofmann fez entre 1943 e 1946, mas sobre as quais nunca escreveu depois. Na verdade, durante o ano de 1943, ele tomou LSD mais três vezes, mas em doses bastante menores (nunca mais tomou nada perto das 250 microgramas da sua primeira viagem, que considerou durante o resto da vida como uma grande overdose). A 30 de Dezembro, submeteu um relatório sobre essas experiências a Arthur Stoll, que nunca foi republicado ou traduzido para outras línguas.

A Suíça era uma ilha de neutralidade durante a Segunda Guerra Mundial, mas Basileia era uma cidade de fronteira e, na época, Hofmann estava no serviço militar. Foi mobilizado para Claro, no cantão suíço de Ticino, entre montanhas com florestas perto da fronteira com a Itália de Mussolini. A 29 de Setembro, tomou uma pequena dose de 20 microgramas no seu quartel, depois tomou café e grappa com colegas soldados e jogou matraquilhos e snooker. Quando os efeitos surgiram, descreve: “Retirei-me quase completamente em mim mesmo, nos meus próprios pensamentos". E foi para a cama com imagens a aparecerem aos seus olhos fechados e “sensações mornas e confortáveis”.

Para a experiência seguinte, a 2 de Outubro, tomou 20 microgramas ao fim da noite, antes de ir para a cama. Dessa vez a experiência foi bem menos agradável. “Tive sonhos perturbadores”, registou, incluindo “uma mulher louca mutilada com os braços cortados e os olhos queimados. Os meus companheiros pensaram que eu estava louco e não conseguia convencê-los do contrário”. No Halloween, aventurou-se com uma dose maior de 30 microgramas, que tomou depois de uma sesta pós almoço (estava de folga, era domingo). Sentiu um “leve atordoamento, arrepios, náusea, um leve gosto metálico na boca” e voltou para a cama, sentindo a necessidade de se deitar, juntamente com um “estímulo da área genital”. Entrou “num estado sonolento”, onde “visões perturbadoras, fantasmas estranhos e parcialmente sensuais” passavam pela sua mente. Às 22h00, levantou-se para comer um biscoito e um pouco de chocolate.

No ano seguinte, 1944, a Sandoz começou a testar LSD em animais e Hofmann sintetizou algumas variantes, que designou como “dihidro-LSD” e “d-Iso-LSD”. Foram distribuídas entre alguns dos seus colegas, incluindo a sua assistente, Susi Ramstein, mas mostraram-se menos psicoactivas que o original. A 17 de Janeiro de 1946, Hofmann relatou outra experiência em si mesmo com LSD, e relaxou muito mais na experiência do que nas ocasiões anteriores. Sentado em casa na sua poltrona, depois de uma dose de 20 microgramas, ficou “impressionado com a beleza das cores da toalha de mesa... maravilhosos tons que iam mudando de laranja para vermelho-sangue e roxo”, enquanto a lâmpada elétrica aumentava e diminuía o seu brilho. “Diverti-me muito com imagens Rorschach”, falou sobre os cartões com manchas de tinta para teste de personalidade, passando meia hora absorvido a estudar as formas abstratas. Estava, finalmente, a passar um merecido tempo de qualidade com a sua "criança-problema".

Mas, a verdadeira primeira descrição psicadélica de uma viagem de ácido só apareceria no ano seguinte e de outra fonte. O LSD começou a circular entre farmacêuticos da Sandoz, incluindo o director de Hofmann, Arthur Stoll, que procurou a opinião do seu filho Werner, um psiquiatra da Clínica Burghölzli, em Zurique. Werner tomou 60 microgramas, só um quarto da dose do desastre do "Dia da Bicicleta" de Hofmann, mas duas vezes mais que as suas experiências subsequentes. Acontece que era a dose certa.

Deitado num quarto escuro, Stoll ficou hipnotizado pelas formas abstratas e padrões que dançavam à sua frente: “Uma profusão de círculos, vórtices, faíscas, jactos, cruzes e espirais em fluxo constante”. Gradualmente “visões mais organizadas também apareceram: arcos, fileiras de arcos, um mar de telhados, paisagens desérticas, terraços, fogo cintilante, céus estrelados de esplendor inacreditável”. O seu estado mental era de “euforia consciente. Gostei da condição” e “conheci a euforia e exultação de uma visão artística”. Em conclusão, escreveu: “Termos como 'fogos de artifício' ou 'caleidoscópico' são pobres e inadequados”.

O relato de Werner Stoll, publicado em 1947 num jornal de psiquiatria suíço, era intitulado “Dietilamina de ácido lisérgico, um phantasticum do grupo de ferrugem”. Hofmann tinha a teoria de que o LSD era um estimulante do mesmo tipo que as anfetaminas, mas Stoll pensou numa categoria diferente: “phantasticum” é um termo cunhado nos anos 1920 pelo farmacêutico Louis Lewin para descrever drogas que produziam visões, como a canábis, datura, ayahuasca, cogumelo Amanita muscaria – e, particularmente, a mescalina, que tinha sido isolada do cacto de peiote em 1897 e sintetizada em laboratório em 1919.

Durante os anos 1920, a mescalina foi investigada por psicólogos alemães. Investigadores como Kurt Beringer e Heinrich Klüver publicaram longos estudos sobre a substância, focando-se particularmente em alucinações visuais com os olhos fechados. Rastrearam o modo como isso progredia de formas abstratas – espirais, redes, túneis – para objectos reconhecíveis, como Werner Stoll também testemunhou. A partir desse ponto, a mescalina tornou-se o modelo com que o recém-descoberto LSD foi comparado. Como Hofmann escreveu mais tarde na autobiografia: “A imagem da actividade do LSD dessas primeiras investigações não era nova. Ela combinava com as visões gerais da comunidade sobre a mescalina”.

A principal diferença estava na dose: um grama de mescalina correspondia a três ou quatro doses, um grama de LSD a milhares. Mas, a linguagem visual da viagem de ácido, como emergiu, era tirada dos modelos estabelecidos pela geração anterior. As comemorações do "Dia da Bicicleta" teriam sido incompreensíveis para Hofmann em 1943. A ideia de que o LSD poderia ser uma fonte de revelação pessoal ou transcendência espiritual ainda estava num futuro bastante longínquo.

O ácido ainda estava no começo de sua própria estranha viagem: de químico de pesquisa a droga psiquiátrica maravilhosa, ferramenta de lavagem cerebral de agentes do governo, visões cósmicas e revolução cultural. Como Hofmann escreveu em 1979: “A última coisa que poderia prever era que essa substância viria a ser usada como uma droga de prazer”.


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