Motherboard

Cientistas contam o que ocorre se a Coreia do Norte detonar a bomba subaquática

O que acontece após a detonação de uma bomba de hidrogênio no Pacífico?
27.9.17

Na última quinta-feira, o ministro das relações exteriores norte-coreano Ri Yong-ho contou à agencia de notícias Yonhap que Kim Jong-um está considerando testar uma bomba de hidrogênio no Oceano Pacífico como resposta à ameaça do presidente americano Donald Trump de "destruir completamente a Coreia do Norte".

"Essa poderia ser a detonação mais poderosa de uma bomba de hidrogênio já feita no Pacífico", Ri contou à Yonhap."Não temos ideia de quais ações serão tomadas, pois elas serão ordenadas pelo líder Kim Jong-un."

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Ao dizer "no Pacífico" em vez de "sobre o Pacífico", Ri sugere que a detonação aconteceria dentro d'água e não no ar.

Como você deve ter notado, a tensão entre a Coreia do Norte e os EUA aumentaram; bombardeiros norte-americanos estão sobrevoando perto do país como uma demonstração de força.

No último sábado de manhã, Ri afirmou que um ataque continental aos EUA é "inevitável" e, logo após a meia-noite de sábado, Trump ameaçou novamente a Coreia do Norte pelo Twitter.

que pode acontecer se a Coreia do Norte realmente detonar uma bomba de hidrogênio no Pacífico? Será que o Havaí, a Califórnia e o Japão devem esperar por tsunamis causados pela bomba ou tempestades radioativas? Será que a vida marinha será exterminada, ou se tornará radioativa?

Conversei com alguns especialistas para ter algumas ideias do que esperar no caso de uma detonação de bomba de hidrogênio subaquática e quais as suas implicações.

ONDAS

Oliver Bühler, professor de matemática aplicada na NYU e que estuda dinâmica de fluidos, me contou que podemos, definitivamente, esperar muitas ondas na detonação de bombas de hidrogênio subaquáticas.

"Tanto uma explosão subaquática quanto no solo claramente criam muitas ondas, ondas bastante fortes", ele contou.

Essas ondas já foram criadas em testes nucleares subaquáticos anteriores. Apesar de as armas conterem só uma fração do poder da bomba de hidrogênio da Coreia do Norte, ainda assim, os testes foram incrivelmente perigosos. Durante a Operação Crossroads, em 1946, uma distância de segurança mal calculada para a observação de uma explosão nuclear de 23 quilotoneladas encharcou soldados americanos com níveis tóxicos de radiação. Estima-se que a exposição diminuiu três meses de vida de cada testemunha.

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Contudo, análises matemáticas oferecem uma imagem mais segura e precisa do que acontece na água.

Uma das análises mais abrangentes é um relatório de 400 páginas do exército norte-americano, de 1996, de autoria de Bernard Le Mehaute e Shen Wang da Escola Náutica e de Ciências Atmosféricas Rosenstiel, nos EUA.

Após a detonação, é possível esperar uma onda de choque irradiando-se e levantando 140 quilotons de energia. De acordo com a inteligência dos EUA, o teste de bomba de hidrogênio mais recente realizado pela Coreia do Norte, em 3 de setembro, liberou aproximadamente esse total de energia. Como referência, as bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki transportavam 15 e 21 quilotons de energia, respectivamente.

Conforme a onda de choque se propaga, o plasma é liberado na água, enviando quantidades massivas de vapor de água e destroços de todo o tipo para o ar.

Imagem: representação de uma bolha se formando em "Ondas de água geradas por explosões subaquáticas", um relatório técnico de 1996 da Agência de Defesa Nuclear.

A água se expande radialmente, formando uma bolha sobre a superfície da água. Contudo, graças a seu tamanho colossal, uma fenda conhecida como "jato reentrante" se forma no meio da bolha causa o rompimento em si mesma. Conforme a bolha cai na superfície da água, uma coluna de água se ergue no ar e se desintegra em uma série de ondas.

A onda de choque e a energia radioativa matariam praticamente toda a vida marinha da área imediata. Após o teste da bomba nuclear em 1946, os cientistas conseguiram remover 38.000 peixes mortos da água.

Contudo, Bühler afirma que as ondas não seriam capazes de criar um tsunami.

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Ele me contou que as ondas desse documento têm somente uma fração da energia gerada por um tsunami, que necessita de um local de perturbação de centenas de quilômetros de distância.

"Uma bomba como essa se comportaria mais ou menos como uma tempestade" afirmou Buhler. "Ela criaria muitas ondas, mas essas ondas se dispersariam. A energia não chegaria toda em uma grande explosão, como um tsunami. Mas sim, chegaria ao longo de horas, dias, às vezes semanas."

CLIMA

Se as ondas e as tempestades se dispersarem do local da explosão, devemos nos preocupar com uma possível chuva radioativa nas ilhas do Pacífico como o Havaí?

De acordo com o oceanógrafo Matthew Charette, que estuda o efeito de radionucleotídeos na química marinha, não é provável que ocorra esse tipo de tempestade logo após um teste nuclear.

Ele me contou que, quando a energia nuclear se mistura a oligoelementos da água do mar, como sódio ou cloreto, os elementos se tornam radioativos. Contudo, os danos que esses elementos causam dependem de acordo com seu comportamento químico.

"Alguns [elementos] são muito insolúveis – eles se prendem aos elementos e partículas da coluna de água, se depõem nos sedimentos locais e não representam um problema imediato", afirmou Charette. "Outros elementos são mais solúveis na água do mar, como o césio 137 do desastre de Fukushima. Eles podem ser carregados com as correntes oceânicas."

Charette afirma que, em razão do volume tremendo do oceano, os elementos radioativos estariam concentrados muito fracamente na água.

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"Eu não ficaria muito preocupado com um teste subaquático", afirmou. "Os fatores de diluição são imensos."

Contudo, Ken Buesseler, cientista sênior do Instituto Oceanográfico Woods Hole, me contou que se preocupa—mesmo se a detonação subaquática ocorrer longe do continente.

Buesseler afirma que a água radioativa proveniente de uma detonação definitivamente entrará nas ondas do Oceano Pacífico, porém, depois disso, será extremamente difícil prever para onde a água correrá.

"[A radiação] não ficará restrita a um único lugar, como em um acidente com reator – ela se moverá com as correntes oceânicas. Você pode detonar uma coisa perto de uma ilha, e as correntes a transportarão rapidamente para a costa. Ou então você pode detonar uma coisa muito mais longe, mas as correntes também a levarão para a costa. É muito difícil prever como isso afetará uma ilha desabitada."

Contudo, correntes diferentes circulam em escalas de tempo que variam de semanas a milênios, por isso Buesseler afirma que é praticamente impossível predizer quando essa água chegará ao continente.

Basicamente, não fazemos ideia de quais lugares poderiam ser afetados, e o quanto levaria para a radiação chegar lá.

VIDA

Charette e Buesseler me contaram que, ainda este ano, eles foram ao Atol de Bikini – um subconjunto de ilhas dentro das Ilhas Marshall, local de 23 testes de detonação nuclear entre 1946 e 1958.

Mais de 70 anos mais tarde, o Atol ainda não se recuperou totalmente. Os níveis de radiação em uma das ilhas do Atol de Bikini ainda excedem os padrões seguros de radiação determinados pelos EUA e as Ilhas Marshall.

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Quando Charette e Buesseler visitaram o atol, eles se concentraram na medição da radioatividade encontrada na água do mar e nas águas subterrâneas, e também em amostras do fundo do mar. Seus resultados ainda não foram publicados, mas Charette afirma que ele ficou positivamente surpreso com o que encontrou.

"Fiquei impressionado com a recuperação das ilhas", afirmou. "Ao menos em termos de flora e fauna e flora."

Outros cientistas também descobriram que a vida marinha recuperou-se muito desde a precipitação radioativa. Stephen Palumbi, professor da Universidade de Stanford, nos EUA, e a aluna de pós-graduação Elora López descobriram que os corais se adaptaram aos grandes níveis de radiação.

Uma pesquisa de biodiversidade conduzida em 2008 no Atol de Bikini descobriu que 70% das espécies de corais se recuperaram desde os testes nucleares. Contudo, levou décadas para que essa recuperação acontecesse e, sob as condições atuais, a mesma taxa não seria possível.

"Se o evento de distúrbio se repetisse nos dias atuais, não se esperaria uma recuperação tão grande por causa da combinação entre os estressores adicionais associados às mudanças climáticas, e a possibilidade de o ambiente do atol estar muito alterado pelos 50 anos de ocupação humana", afirma o estudo.

Charette diz que, embora a vida marinha tenha se recuperado no Atol de Bikini, os efeitos biológicos de uma detonação nuclear não devem ser ignorados – e lembre-se, aproximadamente 70 anos após esses testes, a área ainda não se recuperou totalmente.

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"Você deverá se preocupar com os produtos radioativos no suprimento de alimentos provenientes do mar", ele afirmou. "Especialmente nos peixes e frutos do mar pescados em uma região próxima a qualquer teste em potencial."

Suas afirmações foram apoiadas por Buesseler.

"Como consumidores humanos de peixes e frutos do mar, nós internalizaremos os isótopos [radioativos]", ele contou. "Nesse caso, você deveria se preocupar com a localização [da detonação]. Uma zona de pesca poderá ser fechada em razão da contaminação local."

Entretanto, Buesseler acredita que o maior risco dos testes nucleares para os humanos ainda é psicológico.

"Se você colocar radiação em tudo, as pessoas mudarão imediatamente seus hábitos – desde o peixe que comem aos lugares onde vão nadar", ele afirma. "Essas coisas podem até não ser um consenso na ciência, mas causam pânico. E então, é claro, haverá a ansiedade de que o próximo ataque seja em uma área populosa."

Em suas conversas comigo, Bühler, Charette e Buesseler reforçaram a dificuldade em prever as consequências no longo prazo dos testes de detonação nuclear.

Quando conversei com Bühler sobre o documento "Ondas de água geradas por explosões subaquáticas", de 400 páginas, ele afirmou que relatórios como esse costumavam ser muito comuns.

"No ápice dos testes de bombas americanas, ficávamos preocupados com todo tipo de problema", afirmou. "Quando explodirmos a bomba, ela causará um tsunami ou colocará fogo na atmosfera? Basicamente, todos esses estudos mostraram que isso talvez não aconteça. Mas também encorajou as pessoas a não pensarem simplesmente 'ah, vamos jogar uma bomba aí e ver o que acontece'."

Bühler afirma que, após a ciência sugerir não haver risco de uma violência imediata ou catástrofe, as pessoas adotaram um tom mais blasé em relação aos testes nucleares. Os EUA somente baniram o teste de armas nucleares em 1992 – muitas décadas depois do início das negociações.

"Percebeu-se lentamente que aquilo que não controlamos é o que acontece muitos anos mais tarde", ele afirmou. "Este é o principal motivo por que não é nem um pouco responsável realizar esses testes. As pessoas podem compreender as consequências no curto prazo, contudo, ninguém é absolutamente capaz de controlar o que acontecerá no ano seguinte e nem nos próximos."