Todas as fotos por Gabi Perez.

Fotos dos últimos dias do meu pai bipolar

Ele sofreu muito com a instabilidade emocional e deu-me a oportunidade de observar de perto a vida de quem luta contra uma doença mental.

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mai 21 2018, 11:32am

Todas as fotos por Gabi Perez.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

O meu pai dizia constantemente que queria acabar com a própria vida. Sentia-se preso na Terra, no seu corpo e, acima de tudo, na sua mente. A minha relação com ele foi sempre difícil, mas estava determinada a entender a sua cruel batalha com o transtorno afectivo bipolar.

Desafiei-me a estudar o meu pai e a sua condição psíquica ao fotografar os seus desafios diários. A intimidade que transborda destas fotografias mostra a generosidade do meu pai em partilhar a sua vida com um público anónimo. Ele sofreu muito com a instabilidade emocional e deu-nos a oportunidade de observarmos de perto a vida de quem luta contra uma doença mental.

O meu pai descobriu e apresentou-me o Project Semicolon, um “movimento sem fins lucrativos dedicado a apresentar esperança e amor àqueles que lutam contra doenças mentais, suicídio, vício e auto-mutilação”. Juntámo-nos ao movimento e segurei a sua mão enquanto ele fazia a sua primeira tatuagem, um ponto-e-vírgula no antebraço esquerdo. Não tenho dúvidas que, mesmo nos seus momentos mais tensos, o meu pai lutou incansavelmente pela própria vida. Porém, o fim desta história foi traumático e inesperado.

Depois do Furacão Maria, a ilha de Porto Rico ficou paralisada durante meses. O governo perdeu a capacidade de ajudar as pessoas e o caos instaurou-se por muito mais tempo do que deveria. Durante esse momento, as ligações para o único serviço de prevenção de suicídio de Porto Rico, Linea PAS, subiram violentamente. Este facto lançou uma luz sobre a pesada crise de saúde mental que ocorre na ilha. Durante a mesma época, percebi a ruína do comportamento do meu pai devido à dificuldade de encontrar médicos e medicamentos, dos quais precisava desesperadamente para viver.

Quando fui informada que o meu pai estava num hospital devido a queimaduras, fiquei a pensar se os ferimentos não teriam sido causados por ele próprio. Mais tarde, descobri que foram causadas num acidente inesperado. Enquanto transportava uma bilha de gás propano no seu carro, o meu pai acendeu um cigarro e um pequeno vazamento de gás fez com que a viatura pegasse fogo. Testemunhas contam que o viram a saltar para fora do veículo a gritar por ajuda, mas naquela altura, 64 por cento do seu corpo já tinha queimaduras de terceiro grau. Sabia que o meu pai não aguentaria. Não porque não tivesse forças para superar o evento, mas porque esta era a chipótese perfeita para obter a paz de espírito que procurou durante toda a vida. De coração partido, disse-lhe para procurar a sua liberdade e ele permitiu-se ir embora.

Logo depois, com as suas cinzas na minha mala, viajei para o Equador, o seu país favorito. Carreguei o seu peso às minhas costas durante um caminho fisicamente extenuante até uma cratera vulcânica nos Andes equatorianos. Espalhei as suas cinzas no Lago Quilotoa e foi algo que me fez perder o fôlego. Nunca me senti tão realizada e em paz com o meu coração. Tive a oportunidade de conhecer o meu pai através da minha arte e esse foi o maior presente de todos.


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