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VRChat é uma sala de bate-papo de realidade virtual lotada de memes

E, obviamente, vários desses memes são muito ofensivos.
Imagem: VRChat/Reprodução.

Matéria originalmente publicada na Motherboard US.

Nas profundezas da masmorra do Mickey Mouse, com uma música do disco de rap do rato da Disney bombando nos meus fones, decido que VRChat é uma ideia brilhante. Passei dez minutos vagando pela paisagem infernal dos piores momentos do Mickey. Memes toscos do personagem alinhados nas paredes. O ritmo do rap mudando aleatoriamente. Era um ataque aos meus sentidos de todos os ângulos, diferente de tudo que eu tinha experimentado antes.

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Era horrível, mas meio que gostei. E esse é um bom resumo do que é o VRChat.

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VRChat é um novo aplicativo que está estourando no mercado digital do Steam. É um aplicativo de sala de bate-papo grátis, feito para pessoas que compraram óculos de realidade virtual nos últimos anos, como o Oculus Rift ou o HTV Vive. Os usuários entram num mundo virtual e, com alguns movimentos de pulso, podem explorar as expansões infinitas de salas geradas por usuários e interagir com milhares de outras pessoas. É um país das maravilhas de código aberto — o kit de criação do software está disponível no site dos desenvolvedores — onde os jogadores podem criar livremente avatares e salas tão high tech ou toscas quanto desejarem.

Desde o começo do ano, o VRChat foi de algumas centenas de usuários para mais de 15 mil, segundo o Steam Charts. Segundo o Steam Spy, na segunda-feira (15) o app tinha atingido 1,5 milhão de instalações. É uma mudança pequena para a maioria dos grandes lançamentos do Steam, mas uma baita conquista para um aplicativo meio feioso e que atende um mercado pequeno — donos de óculos de realidade virtual.

Você pode não ter usado o aplicativo, nem sequer ouvido falar dele, mas provavelmente viu seu primeiro meme explodir — o horrível Knuckles ugandense. Knuckles é uma equidna vermelha da franquia de videogames do Sonic. Alguns usuários do VRChat gostam de se vestir como uma versão deformada do Knuckles, sair correndo para avatares que parecem femininos, estalando a língua e perguntando para todo mundo em volta “você sabe o caminho?” com sotaque africano.

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Se encontram uma mulher, os Knuckles a cercam, a chamando de rainha e cuspindo em outros jogadores os chamando de falsas rainhas. É um meme racista pra caralho popularizado por YouTubers como PewDiePie. O Poligon chamou o meme de problemático, o que é dizer o mínimo. Mesmo se o meme não fosse racista, ele já seria insuportável. Toda sala que entrei no VRChat estava tomada pelas equidnas de olhos esbugalhados cuspindo e estalando a língua. Apesar desse bando de troll, gostei do meu tempo dentro do aplicativo.

O meme ter conseguido escapar dos confinamentos o VRChat para o Twitter (principalmente através dos clipes do Twitch de DrekTheWiz), é uma razão para o app ter se tornado tão popular, mas tem outras: ele traz nostalgia de uma era mais selvagem de interações na internet, é de código aberto e você não precisa de um óculos VR para jogar. Não tenho um óculo VR e não usei um para viajar pela paisagem surreal do VRChat, mas ainda tive uma experiência interessante.

Eu não diria que me diverti, apesar de ter visto algumas coisas divertidas. O caos que torna o aplicativo tão atraente também permite o abuso e as merdas clássicas que infestam a internet desde sempre. O Knuckles ugandense está por todo lado, claro, mas também vi um pinto ou outro por ali. Pessoas me pediram favores sexuais. É uma experiência surreal que desenterra todos os instintos básicos da internet.

Fazer o login no VRChat pela primeira vez parece o começo de todas as histórias de terror cyberpunks que li ou assisti nos anos 90, começando com os gráficos péssimos. É fácil abrir o menu e viajar por dezenas de ilhas, cafés, clubes de comédia, masmorras e florestas criadas por usuários.

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Passei por um portal que me levou para uma ilha cheia de Knuckles correndo entre minhas pernas, estalando a língua e me perguntando se eu sabia o caminho. Dali, tomei um portal para outra sala cheia de avatares grátis baseados em memes. Foi lá que adotei a persona que usei pelo resto da jornada — uma imagem 2D do meme de Kylo Ren usando uma calça enorme.

De lá viajei para uma recriação de um cruzamento de uma grande cidade japonesa típica. Os outros avatares lá se juntaram ao meu redor, tirando sarro do meu físico e me pedindo vários favores sexuais. Me virei e vi um estranho avatar quadrado com o pinto de fora e uma frase nazista escrita no peito.

Cercado por caras bizarros, saí do cruzamento e entrei numa recriação exata do Stone Flower Shrine de Nier Automata. Um avatar do Alphonse do animê Fullmetal Alchemist estava sentado lá em silêncio, olhando as flores. De lá pulei para a sala mencionada acima, do labirinto do Mickey Mouse, depois para um restaurante do Chuck E. Cheese onde avatares não-jogáveis dançavam na frente de uma tela passando vídeos do Chuck E. Cheese.

Uma hora depois, eu estava sentado num cinema com vários Ronald McDonalds e um tanque assistindo a versão de George Romero de Madrugada dos Mortos. O tanque não parava de falar em russo, então mandei ele calar a boca para poder assistir ao filme. Foi aí que eu soube que precisava sair. Eu tinha perdido horas da minha vida imerso num estranho mundo em realidade virtual, e eu nem estava usando os óculos VR. A experiência é viciante.

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“O VRChat parece estar decolando graças a três fatores que contribuem para uma tempestade viral perfeita”, me disse Wagner Jamus Au, autor de The Making of Second Life e do blog de VR social New World Notes, por e-mail.

“Ele permite aos usuários dar upload no seu próprio avatar através do Unity [uma ferramenta de criação de games popular e acessível], e tem um mecanismo de física básico”, disse. “Ele pode ser acessado sem usar um óculos VR, permitindo que mais jogadores se juntem à diversão. Usuários do YouTube e Twitch descobriram o potencial para anarquia liberada do app e piraram com vários vídeos do VRChat que viralizaram.”

Wagner apontou que é mais difícil desenvolver conteúdo para outras plataformas sociais de VR, que não têm mecanismos de física, e geralmente exigem os óculos. “Muitos deles colocaram a carroça na frente dos bois”, ele disse. “Estabelecendo cuidadosamente uma infraestrutura econômica com pouquíssima gente lá para usar.”

Ele apontou o jogo Sansar, do desenvolvedor do Second Life Linden Lab, como um exemplo de outro aplicativo de realidade virtual social. Ele desenvolve seguimentos de alta qualidade de filmes e softwares educativos corporativos, como a recriação de cenários do filme Jogador Nº1. Também tem o High Fidelity, um programa de realidade virtual focado em imagens de alta qualidade e tecnologia blockchain.

“A maioria dos jogadores não dá a mínima para isso”, disse Wagner. “Eles só querem mergulhar nesse mundo imediatamente, começar a brincar com o sistema, causar e desfrutar do caos, e se divertir uns com os outros.”

Caos é uma das melhores partes do VRChat, mas nem todo mundo está se divertindo. A abertura da plataforma permitiu um tipo peculiar de racismo nascido na internet e a misoginia floresce. Mulheres na plataforma relataram experimentar um nível de abuso infelizmente típico de videogames online e plataformas de redes sociais. A desenvolvedora de jogos VR Katie Chironis postou um vídeo de dois minutos no Twitter mostrando como ela foi cercada e assediadas por usuários depois de falar em voz alta numa área lotada do VRChat.

“As pessoas sabem 'em teoria' que abuso acontece com mais frequência com mulheres e pessoas não-brancas, mas aqui está um bom exemplo”, Chironis escreveu no Twitter. O VRChat trabalhou com ela depois do tuíte, e agora acrescentou a opção de bloquear automaticamente todo mundo que não é amigo do usuário. Não é uma medida que vai cortar pela raiz o abuso online, mas pelo menos o VRChat reconhece que isso é um problema e está fazendo algo sobre a questão.

Andar pelos vários McDonald’s, Cafe Leblanc de Persona 5 e Dalaran de World of Warcraft foi sensacional. Ter que me desviar de babacas vestidos de Knuckles me pedindo para levá-los até sua rainha e lançando portais para “Uganda” não foi. Como as salas de bate-papo do meio dos anos 90, o VRChat exemplifica uma época selvagem e caótica da internet, um tempo do qual as pessoas sentem saudade. No momento, as experiências em realidades virtuais sociais são o velho oeste da internet, um desses bizarros espaços sem lei onde ninguém sabe exatamente o que está acontecendo. Isso não vai durar muito, mas será divertido e escroto enquanto durar.

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