arte de rua

A cultura do graffiti em Nova Iorque nos dourados anos 70

Martha Cooper fotografou os nova-iorquinos pioneiros que usavam as carruagens do metro como telas.

Por Emily Manning
05 Maio 2017, 10:02am

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma i-D.

Se tiveste oportunidade de ver o incrível documentário de Cheryl Dunn, Everybody Street, uma história oral sobre a fotografia de rua de Nova Iorque, contada por 13 dos seus nomes mais idolatrados, certamente já conheces Martha Cooper. A fotojornalista de 74 anos construiu a sua carreira a documentar a cultura do graffiti que emergia no Bronx no final dos anos 70.

É um tempo, um lugar e uma comunidade particularmente inspiradores para os dias de hoje. Basta, por exemplo, olhar para a série do Netflix, The Get Down, de Baz Luhrmann, ou para a mais recente colecção de Marc Jacobs (recentemente, a loja BookMarc acolheu uma noite de autógrafos da estrela de Everybody Street, Jamel Shabazz).

Portanto, que melhor momento para levar a cabo uma exposição das imagens mais icónicas de Cooper?

Shy 147 pendurado num comboio abatido, 1981, copyright Martha Cooper/Cortesia Steven Kasher Gallery, New York.

Esta nova exposição, actualmente patente na Steven Kasher Gallery, de Nova Iorque, reúne 30 das fotografias mais conhecidas de Cooper.

Os retratos de cores vibrantes que Cooper fez dos artistas de rua misturam-se com imagens a preto-e-branco que mostram a vida em Nova Iorque na época, originalmente publicadas no seu livro Street Play. Estes corpos de trabalho são distintos, mas estão profundamente interligados.

Plataforma 180th Street, Bronx, Nova Iorque, 1980, copyright Martha Cooper/Cortesia Steven Kasher Gallery, New York.

Cooper, que nasceu em Baltimore, trabalhou como fotógrafa da redação do New York Post, de 1977 a 1980. Começou a fotografar as crianças que brincavam entre o entulho dos bairros que visitava no âmbito das suas funções.

Colchões velhos transformavam-se em trampolins, bocas de incêndio tornavam-se fontes, cercas de arame eram usadas como um qualquer equipamento de parque infantil. Enquanto fazia essas fotos, conheceu HE3, um jovem graffiter que morava no Bronx. Foi ele que apresentou Cooper à lenda da arte de rua, Dondi, que a introduziu na sua pioneira comunidade criativa.

Rapaz a correr sobre um comboio, 1982, copyright Martha Cooper/Cortesia Steven Kasher Gallery, New York.

Cooper acompanhou o grupo nas suas jornadas nocturnas pelas estações ferroviárias, documentando a forma como criavam obras de tão grande dimensão. Muitas vezes avisavam a fotógrafa quando novas obras estavam terminadas e ela corria para o Bronx à procura do sítio ideal para as captar à passagem das composições.

Por vezes Cooper ficava sentada em cima do seu carro num terreno baldio durante cinco horas, a examinar cada vagão, à espera daquele que levasse consigo aquela explosão de cores.

Lady Pink num comboio, 1982, copyright Martha Cooper/Cortesia Steven Kasher Gallery, New York.

Muitas das fotografias de Cooper preservam algo que, entretanto, se foi. As pinturas nas carruagens do metro, muitas vezes sobreviviam apenas durante alguns dias, ou até mesmo umas poucas horas.

E já há décadas que o interior de uma qualquer carruagem deixou de se parecer com a casa-de-banho de um bar punk (ainda assim, mesmo em 2017, os passageiros do metro de NYC ainda necessitam de campanhas publicitárias que explicam que não devem cortar as unhas nas carruagens em horas de ponta).

Dondi a pintar na Estação New Lots, 1980, copyright Martha Cooper/Cortesia Steven Kasher Gallery, New York.

Numa das imagens a preto-e-branco, duas meninas brincam numa doca decrépita de Nova Jérsia, com as Torres Gémeas em fundo. Mas há muitas outras fotos presentes na exposição mostram momentos de Nova Iorque que transcendem o tempo.

Numa delas, um homem salta sobre um monte de neve numa sarjeta, em Upper East Side (um movimento que todo o nova-iorquino que se preza tenta aperfeiçoar no Inverno). Noutra ainda, Cooper capta Coney Island, com – o que mais poderia ser? – demasiada gente por metro quadrado. As fotos de Cooper celebram o espírito da cidade. São evidências da criatividade, improviso e resistência que emanam dos nova-iorquinos, mesmo nas circunstâncias mais adversas.

Martha Cooper está em exposição na Steven Kasher Gallery até 3 de Junho. Sabe mais aqui .

Sem Título (Homem e pássaro na janela da esquerda, duas raparigas na janela da direita), copyright Martha Cooper/Cortesia Steven Kasher Gallery, New York.

Rapaz a desenhar OWL com giz na rua, 1978, copyright Martha Cooper/Cortesia Steven Kasher Gallery, New York.

Sem Título (Coney Island), copyright Martha Cooper/Cortesia Steven Kasher Gallery, New York.

As torres do World Trade Center vistas de Nova Jérsia, 1981, copyright Martha Cooper/Cortesia Steven Kasher Gallery, New York.