É hora de começarmos a falar sobre edição genética de humanos na mesa de almoço

É hora de começarmos a falar sobre edição genética de humanos na mesa de almoço

Técnica foi utilizada em embriões humanos na semana passada e, agora, precisamos debater suas aplicações e limites.
20.3.17

Na semana passada, cientistas chineses anunciaram a edição bem-sucedida de genes de embriões humanos fertilizados. Segundo eles, houve cura total de uma mutação genética em um dos embriõezinhos. É um marco incrível na história da ciência. Com o anúncio, porém, uma questão se apresentou: até que ponto é aceitável usar a tecnologia — chamada CRISPR — para salvar vidas? E como fazer com que nenhum pesquisador passe dos limites?

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Essa decisão não deve ficar nos bastidores. O CRISPR é, possivelmente, o experimento científico maior e mais importante dos últimos anos. Ele nos oferece a possibilidade de curar problemas genéticos, de tornar as plantas resistentes à doenças para alimentar cada vez mais indivíduos e de mudar a forma como vemos o corpo humano de uma forma geral. A genética não será mais somente um ponto de chegada se essa ferramenta se tornar aceitável. A maneira de planejar uma família pode ser completamente alterada.

Com apostas tão altas em jogo, a forma como as pessoas se relacionam com o CRISPR vai determinar o futuro da humanidade. Felizmente, estamos no momento certo para começar esse diálogo.

Há uma grande divergência a respeito do limite a ser imposto. Por um lado, indivíduos favoráveis à técnica afirmam que o CRISPR ajudará a rastrear problemas genéticos e a eliminar doenças horríveis, como a anemia falciforme e a fibrose cística. Enquanto isso, os mais céticos se preocupam que, com a alteração das linhas germinativas, os genes que herdamos e transmitimos a nossos filhos estão em perigo. Ter acesso à genética que constitui a nossa espécie é uma forma perigosa de "brincar de Deus" e adulterar a natureza.

Cientistas e legisladores estão lutando para conseguir meios de regulamentar o CRISPR. Se isso for possível, essas perspectivas continuam mudando junto do pensamento das pessoas. A Organização das Nações Unidas se pronunciou contra a edição de embriões humanos em 2015. Mas parece que essas regras estão se flexibilizando em nível global conforme os cientistas ultrapassam barreiras e mais pessoas compreendem a tecnologia.

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A maioria dos norte-americanos teme o chamado biohacking, mesmo para fins benéficos, e, no resto do mundo, as pessoas estão analisando suas áreas cinzentas. A bioeticista Silvia Camporesi e seus colegas realizaram uma pesquisa no ano passado a fim de dimensionar as opiniões das pessoas acerca da tecnologia. "Não acredito que seja possível reverter esse quadro – e que a regulamentação não se torne universal. Todavia, será bem difícil de executá-la em âmbito global", afirmou um participante anônimo.

Células-tronco embrionárias humanas. Crédito: Ryddragyn/Wikimedia.

Os cientistas que estão à frente da técnica não fogem do debate. Eles compreendem que a questão do CRISPR é de interesse público. Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna trabalharam conjuntamente para fazer do mecanismo do CRISPR uma tecnologia e afirmam que chamar as pessoas para o debate é crucial.

"É possível utilizar essa técnica para desenvolver curas terapêuticas", ela afirmou na conferência da Associação Americana para o Avanço da Ciência, em fevereiro. Porém, isso só será possível, continuou, se soubermos o que as pessoas vão aceitar primeiro.

George Church, geneticista da Universidade de Harvard, cujo laboratório desenvolve aplicações para o CRISPR, afirma que a tecnologia se tornou muito mais precisa do que há alguns anos. Ele afirma que mais pessoas seriam favoráveis à edição genética se soubessem que a técnica é segura. "A precaução não é uma moratória", disse na conferência de Boston.

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Os cientistas precisam estar totalmente comprometidos no diálogo com as pessoas a fim de alcançar mais adeptos. Eles se opõem ao tipo de cultura pop que representa humanos criados em laboratórios como coisas a serem temidas, por meio de certos filmes e séries, como aquele em que Jennifer Lopez luta contra o bioterrorismo causado pelo CRISPR.

E ainda existem barreiras legais e de regulamentação envolvidos na edição de embriões humanos em países como os EUA, que ainda lutam com a influência da ideologia antiaborto (que também molda a pesquisa com as células-tronco), sem falar das grandes empresas que veem lucros de bilhões de dólares à frente e com suas agendas próprias. "Confiamos mais em nossos ancestrais do que em nossos modelos computacionais", brincou Church.

Há muito a ser feito se quisermos que as pessoas sejam os reais protagonistas da utilização da tecnologia CRISPR. Se não formos cautelosos, o diálogo seguirá o mesmo caminho de assuntos como as mudanças climática, ou mesmo a pesquisa com células-tronco – isto é, continuarão sendo mal compreendidas.

Se formos capazes de promover um diálogo com base na educação, esse trabalho poderá preparar o caminho para um processo científico totalmente novo, que coloque o indivíduo em primeiro lugar. Isso impactará a sociedade tanto quanto o próprio CRISPR.

Tradução: Amanda Guizzo Zampieri