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O Jogador de Futebol que Foi Preso Por Ser Talentoso

No Ocidente, jogadores de futebol tendem a se enrolar com a polícia por dirigir bêbados, fazer sexo com prostitutas menores de idade ou arrumar brigas em boates. Mahmoud Sarsak, por outro lado, aparentemente, foi preso por ser um jogador de futebol...
Simon Childs
London, GB
5.9.13

Mahmoud Sarsak.

No Ocidente, jogadores de futebol tendem a se enrolar com a polícia por dirigir bêbados, fazer sexo com prostitutas menores de idade ou arrumar brigas em boates. Mahmoud Sarsak, por outro lado, aparentemente, foi preso por ser um jogador de futebol decente que, por acaso, era palestino. Ele foi detido pelas forças de segurança de Israel em julho de 2009, enquanto atravessava de Gaza para a Cisjordânia, e só foi liberado em julho de 2012, depois de 96 dias em greve de fome. Os israelenses o acusaram de ser membro de um grupo jihadista islâmico e disseram que ele havia plantado uma bomba que feriu um soldado israelense. Mas eles não tinham nenhuma prova e, depois de três anos de tortura e prisão, não conseguiram uma confissão. Os palestinos suspeitam que ele foi preso porque os israelenses tinham medo que Mahmoud — o jogador mais jovem a fazer parte da Liga Palestina, com apenas 14 anos — em breve estaria fazendo gols para algum time grande do mundo e tirando a camisa na comemoração para mostrar mensagens pró-Palestina, em vez de piadas medíocres e mensagens dos patrocinadores.

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A controvérsia reascendeu novamente quando o Campeonato Europeu Sub-21 foi realizado em Israel, para a consternação dos ativistas pró-Palestina. O torneio também fez uso de um estádio pertencente ao Beitar Jerusalém, um clube com uma base de torcedores abertamente racistas que se recusam a aceitar jogadores muçulmanos.

Mahmoud visitou o Reino Unido recentemente, então, eu me encontrei com ele e seu interprete Ayman Abuawwad para beber chá de menta, falar de futebol e ouvir sobre suas horríveis experiências na prisão em Israel.

VICE: Oi, Mahmoud. Você pode contar um pouco sobre sua carreira no futebol antes de ser preso?
Mahmoud Sarsak: Cresci num campo de refugiados na Faixa de Gaza. Havia um clube de futebol lá e eu treinava frequentemente com eles. Comecei ali e acabei entrando no time jovem nacional da Palestina, depois no time nacional palestino e no time olímpico. Eu era centroavante e ala direita.

Em quem você se inspirava?
Del Piero, Zidane e Mohamed Aboutrika, um dos jogadores mais populares do Egito.

Para ser honesto, tudo o que a gente sempre ouve sobre Gaza é que o lugar é uma grande prisão aberta bombardeada ocasionalmente. Quão grande era o papel do futebol em sua vida lá?
O futebol é uma parte crucial da cultura palestina, particularmente entre os refugiados. Viver num campo de refugiados não quer dizer que você não possa praticar esportes.

Há uma estrutura de liga? Como isso funciona lá?
Não sei de nenhum outro país que tenha duas estruturas de ligas separadas. Temos uma na Cisjordânia e outra na Faixa de Gaza por causa da separação geográfica. A da Cisjordânia é um pouco mais organizada e mais regular, já que há mais estabilidade por lá. Em Gaza, temos sorte se conseguimos fazer um campeonato a cada quatro anos. E sempre somos interrompidos por ataques, incursões, bombardeios e tudo mais.

Mahmoud com o London Gaza FC.

Já aconteceu de vocês não poderem jogar porque o campo tinha sido destruído?
Em 2009 e em 2012, quando Israel destruiu nossos estádios de futebol. Acho que eles querem impedir os palestinos de mostrar uma face mais positiva e de se integrar com a comunidade internacional.

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O futebol é um esporte com um público grande na Palestina?
Os recursos são escassos e, obviamente, é um tanto perigoso reunir uma grande multidão, principalmente em Gaza. Mas os palestinos são torcedores devotados — eles vão aos jogos não importa o que aconteça. Em Gaza, há um clube grande em Rafah, no campo de refugiados de al-Shati, e outro em Shejaia. E os palestinos são loucos pela Liga Espanhola. Metade das pessoas torce pelo Barcelona e metade para o Real Madrid.

Você acha que Israel tinha você na mira especificamente por ser um jogador de futebol?
A coisa toda foi bizarra, sabe. Consegui um contrato para jogar profissionalmente no time nacional da Cisjordânia. Pedi os documentos necessários para a viagem para Israel e eles foram aprovados. Eu estava no último posto de controle no norte de Gaza, Fort Erez, e, enquanto esperava para passar, fui chamado pela inteligência para uma reunião dentro de uma sala. Depois da reunião, eles decidiram me transferir para Ashkelon para mais investigações.

O que aconteceu lá?
Fui mantido lá por 45 dias sem nenhuma acusação, sendo humilhado e torturado. Eles não conseguiram tirar nada de mim. Por fim, eles apareceram com essa acusação de que eu era um “combatente ilegal”.

O que isso significa?
O mais estranho em tudo isso é que a lei do combatente ilegal é uma lei israelense que só se aplica a não palestinos. Por exemplo, libaneses pegos dentro de Israel ou na fronteira podem ser chamados de combatentes ilegais.

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Bizarro mesmo. De onde isso veio?
É estranho. Acho que eles não conseguiram pensar em mais nada.

Logo da Associação de Futebol Palestina. (Foto via)

Por que você acha que eles fizeram isso então?
Não sei. Na prisão, fiquei chocado em ver muitos doutores com PhD e jogadores profissionais de futebol – o lugar estava cheio de palestinos talentosos. Acho que é uma política de Israel para evitar que palestinos talentosos brilhem e mostrem seu lado civilizado para o mundo.

Acho que um Pirlo palestino seria bom para a causa. Desculpe por pedir isso a você, mas você poderia contar como eles o torturaram?
Eles usam técnicas de tortura diferentes para pessoas diferentes. Eles costumavam me interrogar por vários dias e não me deixavam dormir. Uma sessão chegou a durar 14 horas contínuas, então, eles me amarravam numa cadeira por mais algumas horas com música alta para que eu não conseguisse dormir e depois as perguntas recomeçavam.

Caramba.
Às vezes, eles me amarravam na cadeira e transformavam o lugar numa geladeira. Aí a sala ficava numa temperatura de -12º ou -15ºC por cerca de meia hora. Quando eu já estava quase desmaiando, eles me levavam para o hospital para que os médicos me reanimassem e começavam o interrogatório de novo.

Que tipo de pergunta eles faziam?
Eles queriam que eu admitisse algo que não tinha feito, isso justificaria a coisa toda, nacional e internacionalmente.

Ouvi dizer que essa acusação tem sido feita inúmeras vezes desde que você foi libertado e que você está cansado de refutar isso.
[Mahmoud parece visivelmente frustrado] Fui preso sem nenhuma acusação. Também não havia nenhuma acusação quando saí, nada. O lobby sionista sempre tenta retratar Israel como um país civilizado que age de acordo com as leis de direitos humanos – que eles são amantes da paz e tudo mais. Israel chegou a pedir a alguns países europeus para que não me deixassem entrar, disseram que eu era um “terrorista”. Eles tentam desacreditar e silenciar qualquer palestino que surja na mídia ocidental.

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Como as coisas progrediram durante seus três anos de prisão?
Os primeiros 45 dias foram os mais difíceis, pois fui torturado física, mental e verbalmente. Então, eles me transferiram para uma cela com outros prisioneiros por oito meses. Depois disso, eles me chamaram de volta por outros 12 dias e me torturaram e interrogaram. Isso aconteceu três ou quatro vezes durante minha prisão.

Mahmoud relembra as 96 vítimas do desastre de Hillsborough, coincidentemente, o mesmo número de dias em que ele ficou em greve de fome.

Quando você começou a pensar num jeito efetivo de sair de lá?
Havia esse cara chamado Zakariya Issa. Ele estava numa das celas e tinha câncer, mas eles nunca o ajudaram. Ele morreu naquela cela. Isso mexeu comigo. Comecei a pensar: “Preciso me ajudar porque ninguém mais vai”. Por exemplo, a FIFA não estava me ajudando naquela época.

E o que você fez?
Fiz uma greve de fome por 96 dias para mostrar ao mundo que as pessoas naquelas celas tinham sido esquecidas.

Como atleta, isso não deve ter sido nada bom para seu corpo.
Perdi metade de meu peso e meus músculos foram prejudicados.

E depois desses 96 dias você foi libertado. Parece um pouco aleatório que eles, de repente, tenham soltado você, levando-se em consideração que sua determinação foi bastante arbitrária em primeiro lugar.
A greve de fome conseguiu atenção nacional e internacional. A FIFA e a UEFA começaram a pressionar. Grandes personalidades do futebol como Eric Cantona, Abou Diaby, Frédéric Kanouté e Lilian Thuram também se envolveram numa campanha internacional para coletar assinaturas numa petição para me liberar.

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Como você se sentiu ao ser libertado?
Durante minha greve de fome, cheguei perto da morte. Quando saí, eu me senti como se tivesse nascido de novo. Fiquei muito feliz em ter minha liberdade e ver minha família outra vez. Ao mesmo tempo, eu me senti triste por deixar meus irmãos sofrendo na prisão.

Sua carreira ficou suspensa por todos esses anos. Você acha que ele está arruinada para sempre?
Três anos de minha vida foram tirados de mim. Fiquei na prisão dos 21 aos 24 anos — alguns dos melhores anos na vida de um jogador de futebol. Fui prejudicado em termos de saúde e psicologicamente. Depois que saí, demorei oito meses para ser fisicamente capaz de tentar jogar bola novamente. Mas não perdi a esperança. Vou voltar a treinar e seguir com minha carreira se puder.

Ótimo. Boa sorte, Mahmoud. Obrigado por seu tempo.

E obrigado a Ayman Abuawwad pela tradução.

Siga o Simon no Twitter: @SimonChilds13

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