Como torcer nas Olimpíadas sem ser um otário
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Como torcer nas Olimpíadas sem ser um otário

Acompanhamos um clássico entre Brasil e Argentina na Rio 2016 para entender qual o limite da babaquice na rivalidade.
17.8.16

O argentino Luis de Marchi confraterniza com brasileiros antes do jogo de basquete entre os dois países na Rio 2016. Foto: Marina Estarque

No último sábado, enquanto os brasileiros saíam cabisbaixos da Arena Carioca 1, no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro, muitos argentinos pediam, em coro, um minuto de silêncio. "Xiiiiiiiu", diziam. Quem não conhecesse a rivalidade entre os dois países poderia até pensar que se tratava de um gesto de respeito. Era, na verdade, o oposto – uma sádica tiração. O pedido era para afirmar que, depois da derrota para os argentinos no basquete, o Brasil estava morto.

"Perder para argentino é uma merda", concluiu o empresário Ramon Penchel, de 34 anos, que observava a comemoração, ao lado dos guardas da Força Nacional. O jogo teve a segurança reforçada após incidentes entre as torcidas durante as Olimpíadas. Dias antes houvera até uma troca de socos em uma partida de tênis.

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Os ânimos esquentaram tanto a ponto de representantes dos governos argentino e brasileiro, preocupados, marcarem reunião para acalmar ambos os lados. No dia do confronto no basquete, os capitães das duas seleções pediram paz e, ao que parece, foi suficiente para os torcedores se comportarem bem.

Quer dizer, quase. Após a derrota para a Argentina, um solitário torcedor gritava perto dos argentinos. "Os caras acham que vão vir para o Brasil e cantar contra nós?", entoava o engenheiro Mauricio Silva, de 27 anos. "Eles não podem fazer a festa aqui jamais! A gente faz festa aqui, perdendo ou ganhando." Com nove copos de cerveja empilhados na mão, Silva exclamava que, contra os argentinos, "vale tudo".

Hermanos respeitosamente comemorando o funeral brasileiro. Foto: Marina Estarque

Mas vale mesmo? Quando a rivalidade é positiva e quando ela se torna babaquice? Fomos perguntar isso a quem interessa – não sociólogos e teóricos da diplomacia, e sim a brasileiros e hermanos que estavam no meio do fervo olímpico.

A primeira constatação é que absolutamente ninguém considera a rivalidade negativa. "É a essência do esporte. Sem isso não tem graça", diz o argentino Daniel Salermo, de 60 anos. Já a publicitária brasileira Simone Conson, de 29, é mais sincera: "a rivalidade é boa quando o Brasil ganha, quando perde, não", diz, entre risos.

A primeira regra para não ser um torcedor babaca é quase unânime: o contato físico deve ser evitado a todo custo. Em resumo, você pode dizer praticamente qualquer coisa, desde que não encoste no outro – nem com a mão, nem com objetos ou bandeiras.

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"Não pode agarrar a camiseta. Também não gosto quando sacodem a bandeira do Brasil na minha cara", afirma a professora argentina Alejandra Incolla, de 31 anos.

No mesmo raciocínio, jogar coisas também tem grande potencial para dar merda. "Você lança uma bola de papel e o outro revida com uma pedra. Assim começam as guerras", filosofa o comerciante Maximiliano Ehe, de 40 anos.

Com uma camisa azul e branca e peruca, o argentino foi recebido no Parque Olímpico com vaias e a clássica música: "Mil gols, mil gols, mil gols, mil gols, só Pelé, só Pelé, Maradona cheirador".

Maximiliano, de peruca, recebeu o peculiar carinho da torcida brasileira. Foto: Marina Estarque

As canções, mesmo com palavrões, são vistas como patrimônio cultural. Parece que ninguém se ofende com isso. "É tradição. E nós sabemos que é verdade", confessa a argentina Florencia Delfino, sobre os problemas de Maradona com as drogas. A secretária é irmã do camisa 10 da seleção argentina de basquete e não cabia em si de felicidade ao fim do jogo.

Do lado tupiniquim, os torcedores também apoiam as musiquinhas. "Elas engradecem o esporte", afirma o brasileiro Renan Cellular, 26, gestor de TI. Ainda que agressivas, as canções são consideradas divertidas porque têm um alvo genérico.

Para os torcedores, as ofensas individuais são mais graves. "Se apontam para mim e dizem 'argentino, você é um filho da puta', eu acho sacanagem. Na música não me importa", diz o empresário Luis de Marchi, de 48 anos.

Há também um consenso de que a disputa deve ficar restrita ao local da competição. "Dentro do estádio pode xingar, porque está com o sangue quente. Mas aquilo tem que morrer ali", diz Cellular. O argentino De Marchi concorda. "Saiu do estádio, tem que poder se abraçar como amigos", defende.

Preconceito e política

Muitos brasileiros lembram que ofender por raça, opção sexual ou religião está fora de cogitação. "Chamam de preto, macaco ou bicha, não dá para zoar com isso", reclama a estudante Ingrid Campos, 25.

A técnica de enfermagem Luanda El Khalili, de 31 anos, diz que os brasileiros exageraram ao levar cartazes com a bandeira da Inglaterra no jogo contra a Argentina. "E se tiver alguém ali que perdeu um familiar na guerra das Malvinas?", protestou a brasileira.

Mais festa argentina na Rio 2016. Foto: Marina Estarque

América Latina

Já os argentinos ficam particularmente irritados quando os brasileiros torcem por uma equipe europeia ou americana só para ver a Argentina perder. "Na natação, nós torcemos para Brasil, porque somos latino-americanos. Não vou torcer por europeus jamais", diz o argentino Maximiliano.

A ideia não é muito partilhada pelos brasileiros. Na chegada ao jogo, um grupo de verde e amarelo gritava: "América Latina, menos Argentina!". Mesmo assim, há brasileiros que se incomodam com essa postura contra os hermanos. "Não gosto quando transferem a rivalidade do futebol para outros esportes, não faz sentido", diz a brasileira Simone.

A argentina Alejandra não se conforma com o comportamento dos brasileiros. "Acho que eles vão de propósito nas competições em que a Argentina está presente, só para torcer contra." Ao lado, o amigo argentino contemporiza: "A gente faria o mesmo se as Olimpíadas fossem lá", afirma Marcelo Marasco, de 23 anos.

Apesar da troca de farpas entre as torcidas, até agora, os babacas têm sido ofuscados pela simpatia. Nestes dias de convivência olímpica, sobram elogios entre argentinos e brasileiros: "Muito tranquilos" e "muy buena onda".