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Entrevistámos a terapeuta que ensina mulheres a terem orgasmos

Frustrada com os clichés sobre o “difícil orgasmo feminino”, Vanessa Marin fundou a Finishing School, para desmistificar a arte de te vires.

Por Suzannah Weiss
31 Outubro 2017, 1:39pm

Foto cortesia de Vanessa Marin, com tratamento de Lia Kantrowics.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Broadly.

Enquanto terapeuta sexual há mais de uma década, Vanessa Marin deparou-se com mulher atrás de mulher com uma reclamação em comum: sentiam que tinham alguma coisa de errado, porque nunca tinham tido um orgasmo. Não demorou muito tempo até perceber que o problema não era delas, mas sim da falta de educação das mulheres e dos seus parceiros sobre a anatomia feminina.

Um estudo publicado no início deste ano pelo Archives of Sexual Behavior descobriu que mulheres hetero têm menos orgasmos que qualquer outro grupo abordado na investigação. Sessenta e cinco por cento das mulheres ouvidas disseram que, geralmente, ou sempre, tinham tido orgasmos durante a intimidade sexual nos meses anteriores, comparado com 95 por cento dos homens hetero. Enquanto isso, a diferença entre homens gay e lésbicas parecia mínima: 89 por cento versus 86 por cento, respectivamente.

Frustrada com essa distribuição desigual de orgasmos, Marin fundou a Finishing School, um curso online dedicado a educar mulheres sobre os detalhes da sua anatomia. As estudantes recebem instruções sobre técnicas de masturbação, dicas de oral e manual e ajuda para superar a vergonha em torno do sexo e da insegurança com os seus corpos. Perguntámos a Marin o que é que a sua carreira lhe ensinou sobre o orgasmo e sobre a vida sexual das mulheres no geral.

A entrevista foi editada para maior clareza.

VICE: O que te motivou a começares a Finishing School?
Vanessa Marin: Criei a Finishing School, porque vi como muitas das minhas pacientes estavam a ser sabotadas por mitos e desinformação sobre o orgasmo feminino. Fico realmente chateada quando ouço as pessoas dizerem que o orgasmo feminino é "complicado" e "misterioso". E partia-me o coração sempre que uma paciente dizia que sentia que o seu corpo tinha alguma coisa "errada". Naquela altura, eu já há anos que ensinava mulheres a virem-se e tinha testado um sistema que estava a mudar a vida das minhas pacientes. Percebi que tinha de partilhar a minha mensagem com um público maior, para tentar mudar a maneira como falamos sobre orgasmo feminino.

Li que entre cinco a 10 por cento das mulheres nunca se vieram, o que me parece muita gente. Isto, tendo em conta a tua experiência, é verdade?
Até me parece é pouco! Há por aí muitas mulheres com medo até de tentarem ter um orgasmo. Algumas sentem-se desconfortáveis com o próprio corpo. Muitas mulheres nunca tocaram a sua genitália. Algumas ficam desencorajadas por tentativas iniciais de se masturbarem e simplesmente desistem. Muitas mulheres acham que já deveriam ter tido um orgasmo, por isso têm medo de continuar a tentar. Há muitas razões para uma mulher nunca se ter vindo, mas isso geralmente acontece por causa de mitos e desinformação.

Quais são as principais queixas que ouves das pacientes em relação a esta questão?
Ninguém está feliz com a forma como o seu próprio corpo funciona: já vi mulheres que fazem squirt e querem parar de fazer; já vi mulheres que querem fazer squirt mas não conseguem; mulheres que se vêm com estimulação do clítoris e que querem orgasmos de estimulação interna; mulheres que se vêm com estimulação interna que querem ter orgasmos com o clitóris. Muitas de nós acham que o corpo tem de experimentar prazer de uma forma diferente daquela com que já o sente.

Às vezes parece que não é possível ler um artigo sobre sexo sem encontrar a frase "o elusivo orgasmo feminino". É assim tão difícil, ou somos apenas ignorantes sobre o assunto?
Concordo! Não acho que o orgasmo feminino seja mais difícil, complicado ou elusivo que o orgasmo masculino. O problema é que abordamos o orgasmo feminino da mesma forma que abordamos o masculino. Ou seja, achamos que as mulheres deveriam vir-se com o coito, porque os homens podem vir-se com o coito. Fazemos com que as mulheres se sintam envergonhadas por precisarem de estimulação clitoriana.

Há quem diga que damos muita importância aos orgasmos. Porque é que achas que a capacidade de ter orgasmos é importante?
Mesmo que ensinar mulheres a virem-se seja a minha profissão, concordo que colocamos muita ênfase no tema. As pessoas esquecem-se que a forma de ter um orgasmo é experimentando prazer. Mesmo se um orgasmo dura 10-20 segundos, podes experimentar prazer por horas. Sim, o orgasmo geralmente é o pico da experiência de prazer, mas isso não significa que os outros momentos não sejam saborosos! Apesar de o meu curso ser sobre orgasmos, tento realmente focar-me no prazer em si. Também passo mensagens sobre a necessidade de um maior desenvolvimento da confiança no teu corpo, no aprender a comunicar sobre sexo e a divertires-te mais no quarto.

Dito isto, acredito que aprender como ter orgasmos é a experiência mais empoderadora que uma mulher pode ter. Especialmente tendo em conta que o jogo está contra nós, pela forma como falamos sobre orgasmo feminino enquanto sociedade. Há algo de poderoso em ter a propriedade do nosso corpo; no facto de uma pessoa se declarar merecedora de prazer; e poder dar ao seu corpo todo o tempo, atenção e amor de que ele necessita. Ainda fico arrepiada quando uma das minhas pacientes conta que teve o seu primeiro orgasmo.

Quais são os maiores mitos com que te deparaste sobre orgasmo feminino, além daquele que faz crer que isso deveria acontecer através da penetração?
Um mito com que tenho trabalhado muito ultimamente é o de que, se ainda não aprendeste a vires-te, é porque estás emocionalmente "bloqueada". Muitas mulheres acham que têm um medo profundamente enraizado de intimidade e vulnerabilidade. Ou acham que têm algum problema com a perca do controlo. É verdade que o orgasmo pode ser uma experiência emocional, mas, na maioria das vezes, aprender a ter orgasmos é só uma questão de técnica. Abordo o orgasmo de um ponto de vista bastante técnico, porque há estratégias específicas que tens de aprender. Este é um exemplo meio idiota, mas é tipo "Ainda não sei tocar piano. Devo ser emocionalmente bloqueada". Talvez fosse bom começares primeiro com alguns acordes e escalas.

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