Saúde

É isto que o ódio faz ao teu cérebro

Investigadores estudam a forma como ideologias extremas podem mudar a "programação" da mente das pessoas. Mas, será que há uma forma de as desprogramar?

Por Allie Conti; ilustração por Camilo Medina
24 Dezembro 2018, 7:00am

Este artigo foi originalmente publicado na Edição "Burnout and Escapism" da revista VICE.

Fui a Omaha, nos EUA, para tentar descobrir se a Internet me tinha fodido o cérebro. Depois de chegar a um laboratório da Universidade do Nebraska, levaram-me para uma sala com um computador ligado a um monitor de resposta galvânica da pele – aqueles clipes que metes nos dedos, geralmente associados a detectores de mentiras. Depois, vi uma apresentação de slides de imagens enquanto uma webcam rastreava os movimentos dos meus olhos e registava as minhas mudanças faciais. Os aparelhos deviam medir as minhas reações inconscientes, ou microemoções, usando cinco medidas: prazer, raiva, surpresa, medo e contentamento. Teriam os anos passados no Reddit e 4Chan feito com que perdesse a sensibilidade ou levado a que ficasse mais susceptível a mensagens da alt-right, a extrema-direita norte-americana? Estava com medo da resposta.

Eu não deveria estar naquela cadeira. Originalmente queria mandar o pai de um homem chamado Dave ao Midwest. Conheci Dave numa thread "Ask Me Anything" do Reddit, onde ele falava com um ex-membro do Ku Klux Klan sobre como tirar o seu pai do movimento. O homem de vinte e poucos anos andava a tentar afastar o seu pai do Klan desde os 14 anos. Segundo Dave, o progenitor tinha sido sugado pelas preces racistas do grupo, depois de se convencer a si próprio que a acção afirmativa lhe tinha custado um emprego.


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Mais tarde, o pai tornou-se um recrutador supremacista branco e só deixou o KKK quando discordou de algumas mensagens anti-semitas que os colegas começaram a espalhar durante a campanha de Donald Trump. Mas, Dave (que não me deu o seu nome real) tinha ouvido recentemente que o pai andava novamente a encontrar-se com os velhos amigos – uma revelação que o fez sentir que a sua família poderia nunca mais se reconciliar.

Pelo que contou, esta questão com o pai tinha sido o drama dominante da sua juventude. Depois do liceu, frequentou uma universidade jesuíta para estudar a forma como os racistas usam as escrituras e livros como Os Protocolos dos Sábios de Sião e até Mein Kampf, para justificarem as suas crenças. O objectivo era entender o homem que o levou a ver cruzes a arderem, mas nunca o deixou fazer a saudação nazi.

“Não era que eu quisesse, mas foi uma das coisas que me ficou na cabeça”, recorda Dave. E acrescenta: “Achei que talvez fosse um sinal de que ainda havia algo de bom nele”. Apesar de ter deixado a universidade, ainda se debatia com a questão de como um homem tão “doce”, que lhe deu a provar a sua primeira cerveja, também o proibia de andar com os primos mestiços. “Queria ajudá-lo”, diz-me. E salienta: “Mas, ao mesmo tempo, não queria desperdiçar a minha energia no que parecia uma causa perdida”.

Contactei Dave em Maio para escrever sobre a sua vida e lutas para tirar o pai do grupo de ódio. Pediu-me para provar que era jornalista e começámos a conversar. Mas, mesmo depois de expressar que estava empolgado por partilhar a sua história com alguém que poderia usá-la para ajudar outros, Dave deixou de me responder. É possível que tenha perdido o interesse na conversa, mas acho que ficou assustado com a ideia de que os seus avós – que segundo ele não faziam ideia de nada disto e eram conhecidos na sua cidade pequena – poderiam descobrir sobre o segredo tenebroso do pai (ele também não respondeu a um fact checking).


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No final, não consegui atingir o meu objectivo original de contar toda a história de Dave. Todavia, não conseguia deixar de pensar sobre certos aspectos dessa mesma história; principalmente a ideia de uma figura paterna simpática, mas sem remorsos. Dave odiava as crenças do pai, mas ele ainda era a sua família. Tudo o que eu queria era uma explicação sobre o porquê de a principal figura masculina da vida dele se ter voltado para esse caminho. O pai era intrinsecamente racista, ou não tinha outras pessoas com quem socializar para além dos membros do KKK que o aceitaram? Ou será que não tinha começado por ser racista, mas tornou-se um depois da associação ao grupo? Onde estava a diferença funcional? “Há essa dúvida séria sobre se o homem que quero salvar realmente ainda existe”, conta-me Dave. E sublinha: “Sinto que perdi muito tempo e, honestamente, neste momento estou apenas a cruzar os dedos e a torcer para que alguém consiga fazer o que eu não pude”.

Pouco depois de supremacistas brancos marcharem na Universidade da Virgínia, em Charlottesville, no ano passado, a escritora Panama Jackson escreveu um ensaio sobre o custo emocional de se afastar de uma mãe simpatizante de Trump. Relatos de pessoas a tentarem deixar grupos de ódio tornaram-se um género popular no campo dos ensaios sob a administração Trump. Enquanto isso, pouco tem sido escrito sobre como a parte mental do racismo extremo – em vez das coisas rudimentares, quotidianas e sistémicas – podia ser identificada e tratada.

E foi assim que me vi em Omaha. Imaginei que, se não pudesse ajudar o homem que conheci online a encontrar as respostas que ele procura há uma década, pelo menos podia aprender mais sobre a investigação mais avançada relativamente ao que o ódio faz ao teu cérebro. Como uma jornalista que passa horas por semana a vaguear pelo 4Chan e pelo Reddit, muitas vezes fiquei a pensar se me teria envenenado com ironia, ou pelo menos ficado tão insensível com os buracos mais escuros da Internet que o meu cérebro tivesse mudado para abraçar a retórica que tanto abominava. Eu parecia uma proxy suficientemente boa por essa lógica.

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Ilustração: Camilo Medina

“Por enquanto estás segura”, brinca um investigador chamado Pete Simi enquanto verificamos os resultados do teste com uma professora de administração da Universidade de Nebraska Omaha, chamada Gina Ligon, e alguns outros estudantes. Juntos, vemos a minha gravação a olhar para uma marcha com bandeiras vermelhas e a medição que mostra a minha “raiva” a disparar quando aparecem as suásticas. Honestamente, fiquei muito aliviada.

Depois do célebre linchamento de Emmett Till, em 1955, o secretário-executivo do NAACP, Roy Wilkins, disse aos repórteres algo que agora pareceria uma afirmação nova: os assassinos do adolescente nasceram com uma característica imutável que os levava à violência racial. “Eles tinham que provar que eram superiores”, realçou sobre os acusados. E acrescentou: “Eles tiveram que o provar matando um miúdo de 14 anos. SabeS que isso está no vírus, está no sangue do Mississippi. Ele não podia fazer nada”.


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O discurso de Wilkins foi influenciado por um esforço da ciência social pós-Segunda Guerra Mundial para explicar a raiz do racismo como um problema psicopatológico. O trabalho mais influente sobre o tema, lançado logo depois do Terceiro Reich, o livro de 1950 The Authoritarian Personality, apontava traços de personalidade que permitiam o racismo extremo, o “síndrome f” – “f” sendo fascismo.

Um dos co-autores do livro, Nevitt Sanford, argumentava que a personalidade autoritária era “mais ou menos normalmente distribuída” na sociedade moderna, o que quer dizer possivelmente inevitável. Mas, a implementação da legislação de direitos civis nos anos 1960 inspirou as pessoas a pensar sobre o racismo como algo que pode ser extinto, ou pelo menos contido. Segundo um estudo de 2016 chamado “O Racista Doente: Racismo e Psicopatologia na Era que Não Vê Cor”, essa mentalidade culminou com um grupo de psiquiatras negros a defenderem que a intolerância era o contrário de normal – que pode realmente constituir-se como uma doença mental classificável. O chefe do estudo, Alvin Poussaint, argumentou que depois do assassinato de Martin Luther King Jr. em 1968, o racismo deveria ser acrescentado ao Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (o DSM), como um subconjunto do transtorno delirante.

De acordo com “O Racista Doente”, a Associação de Psicologia Americana (APA) rejeitou o argumento dos psiquiatras para a inclusão, recorrendo a um estudo que mostrava níveis iguais de autoritarismo entre pessoas do sul e do norte dos EUA para dizer que o racismo era normal e, portanto, não contava como uma doença mental.


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Mas, o debate não morreu. Na reunião anual do APA em 1978, um psicólogo chamado Carl Bell argumentou que o racismo era, basicamente, apenas um transtorno de personalidade narcisista. Em 1980, o presidente da APA disse que era obrigação do sector decidir se racismo era um transtorno mental ou um problema social. Mas, não decidiram. Tentativas fracassadas para tomar uma decisão sobre o debate surgiram depois em 1987 e 1994.

A normalização do preconceito de Sanford – não como algo bom, mas como algo inevitável – permanece na vida americana. Em 2005, o Washington Post publicou um artigo sobre o debate actual, dizendo que profissionais da saúde eram contra a ideia de acrescentar o racismo ao DSM, porque isso levaria a uma “lavagem cerebral” de pessoas que exibem um “preconceito comum”.

Recentemente, Poussaint, agora com 84 anos e reitor associado de estudantes da Escola de Medicina de Harvard, disse-me ao telefone que essa ainda é a linha de pensamento predominante. “As pessoas que fazem o DSM não o vão aceitar. Sentem que iriam contribuir para desculpar pessoas que são racistas assassinos como mentalmente doentes”, justifica. E é verdade que pintar crimes de ódio como produto de insanidade podia teoricamente ser um tiro pela culatra no cenário legal – um juiz de Wyoming no julgamento do assassinato de Matthew Shepard teve que barrar uma defesa de “pânico gay” para um dos acusados, apesar de essa defesa ainda ser tecnicamente admissível em todos os estados norte-americanos menos três.

Mas, mesmo que grande parte da comunidade médica continue desconfortável em usar linguagem clínica para descrever a intolerância, pessoas comuns muitas vezes parecem ansiosas para abraçar isso como uma explicação para comportamentos hediondos. Quando o jogador de basebol John Rocker deu a sua infame entrevista de 1999 à Sports Illustrated cheia de comentários de ódio, o comissário da liga ordenou que ele fizesse terapia. Tanto Michael Richards como Paula Deen disseram ter procurado ajuda psicológica depois de usarem calões racistas. Mais recentemente, Roseanne Barr culpou a droga Ambien pelo seu tuíte racista sobre a ex-conselheira de Obama, Valerie Jarrett.

Claro que pessoas que passam por escrutínio público colhem benefícios quando dizem que o seu mau comportamento foi causado por forças além do seu controlo. Mas, especialistas como Poussaint ainda parecem pensar que, mesmo se química alterada no cérebro não possa sempre explicar o racismo, uma pessoa pode mudar para se tornar menos preconceituosa. “Os media não se focam nas pessoas que eram racistas e mudaram”, salienta. E acrescenta: “Não é algo comum, mas, à medida que a vida delas se torna mais equilibrada, têm menos ansiedade e depressão e essas crenças delirantes desaparecem. Aposto que acontece”. Figuras públicas famosas por procurarem ajuda depois de cuspirem coisas odiosas são, provavelmente racistas mais quotidianos que um recrutador do KKK. Mas, membros de grupos de ódio tornam-se menos extremos nas suas crenças quando se tornam mais felizes e centrados?

Foi isso que aconteceu a Tony McAleer, que começou a questionar o seu envolvimento com o movimento de supremacia branca quando se tornou pai em 1991 e decidiu deixar tudo para trás em 1998, depois de algo ter mudado dentro de si. Não é que tenha sido fácil. Na verdade, numa entrevista que lhe fiz - desde 2011 ele comanda uma organização sem fins lucrativos dedicada a ajudar pessoas a deixar grupos de ódio -, descreveu este processo prolongado como entrar num tipo de existência limítrofe, a que chamava de “o vácuo”.


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Depois de renunciar ao grupo neo-nazi Resistência Ariana Branca, cujo slogan é “Revolução branca é a única solução”, deixou de ser bem-vindo nas festas em casas de outros membros que faziam parte da sua vida social no oeste do Canadá. E, por outro lado, os seus amigos e família – que ele trocou por um grupo de racistas violentos – também não estavam muito empolgados em tê-lo de volta às suas vidas. Solitário, sem ter para onde ir, McAlerr frequentava um bar irlandês sozinho, embebedava-se, ficava melancólico e voltava para casa para ouvir discos antigos dos Skrewdriver. Apesar do seu desejo de mudar, deu por si a recordar a diversão que tinha com os antigos colegas skinheads. Essa diversão era às custas de outras pessoas, claro, mas mesmo nos cenários mais horríveis, ele conseguia encontrar experiências positivas se colocasse uns óculos cor-de-rosa.

Num artigo de 1995 chamado “Bowling Alone: America's Declining Social Capital”, o sociólogo de Harvard, Robert Putnam, argumentava que a democracia norte-americana estava a enfraquecer, porque as pessoas já não participavam em organizações ou clubes sociais. O nome do trabalho, que depois se tornou um popular livro e levou o seu autor a ser convidado para Camp David e entrevistado pela revista People, vinha do facto que, de 1980 a 1993, a participação na liga de bowling dos EUA caiu 40 por cento, enquanto o número de jogadores aumentou em 10 por cento. Além desse detalhe, Putnam destacava que poucos pais se estavam a juntar ao Jaycees, menos esposas participavam em associações de pais e menos crianças iam para os escuteiros, em parte por causa do influxo de mulheres na força de trabalho e da maior mobilidade geográfica. Ele argumentava que a nossa sociedade – antes “invejável”, mas agora povoada por pessoas sem um propósito – já não se envolvia em discussões cívicas, porque os seus membros preferiam passar o tempo livre à frente da televisão do que com outras pessoas.

No ano passado, o sociólogo Michael Kimmel disse no seu livro Healing from Hate que a mesma falta de acesso a capital social era o que, geralmente, empurrava os jovens para o extremismo. Quando o entrevistei sobre o livro, Kimmel explicou-me que a camaradagem que ele encontrou nesses grupos também era responsável por manter os recrutas muito tempo depois de eles começarem a questionar as conclusões tóxicas da supremacia branca. Como McAleer descreveu: quando ostracizas o resto da sociedade com visões abomináveis, é solitário para essas pessoas abandonarem os únicos amigos que as aceitam.

E mais, o tormento pelo qual McAleer passou, soava muito ao que Dave relembrava sobre as suas experiências com o pai. “De uma forma estranha, o Klan é parecido com um grupo de apoio, tipo Alcoólicos Anónimos”, sublinha Dave, sugerindo-me que parte da história do racismo intratável tem pelo menos algo a ver com um desejo de pertença.

É óbvio que algumas pessoas que se juntam a estes grupos estão numa busca por identidade. Portanto, como é que podes cortar o crescimento dos movimentos supremacistas brancos quando, como Putnam argumentou em “Bowling Alone”, alternativas viáveis de socialização estão em decadência há décadas? Não há dúvida que a tendência de passar tempo sozinho aumentou desde meados dos anos 90. Os noticiários que os mais velhos vêem são partidários e servem para reforçar preconceitos. Millennials preferem ficar em casa a sair. Os mais jovens estão a passar a maioria das horas acordados nas redes sociais, que funcionam como a sua própria bolha. Pode-se argumentar que o aumento da participação em grupos de ódio é uma resposta ao isolamento da vida moderna, ou que esses norte-americanos solitários incubaram formas mais banais de racismo e transformaram-nas em algo mais extremo.

Simi, o investigador do laboratório no Nebraska, tem arquivos de ex e actuais supremacistas brancos vindos três gerações. Enquanto jovem académico, ele costumava contactar extremistas através de cartas e convidá-los para visitar as suas instalações. Em 2012, começou a coleccionar histórias dessas pessoas para estudar as dificuldades de deixar a extrema-direita.

Um padrão emergiu rapidamente – muitos dos “ex-membros” descreviam respostas involuntárias ou indesejadas que continuavam a ter a certos gatilhos. Falou, por exemplo, com uma mulher chamada Bonnie, que descreveu a forma como entrou numa discussão com uma empregada latina de um restaurante de fast food e, num surto de raiva porque achou o seu hambúrguer muito pequeno, cuspir uma coisa racista e dizer “poder branco” enquanto fazia a saudação nazi. Depois, como contou a Simi, ficou “cheia de vergonha e descrença”. No total, um terço dos 89 participantes com quem ele falou ao longo de cinco anos usavam a palavra “vício” quando descreviam a sua luta para expurgar crenças tóxicas.

Simi explica-me que é difícil dizer exactamente porque é que os entrevistados escolheram essa palavra. Uma teoria que desenvolveu é que vício pode ser apenas uma narrativa familiar no nosso discurso – a epidemia de opiáceos nos EUA é a pior crise de drogas dos EUA e a sociedade evoluiu para ser mais empática sobre o abuso de substâncias. E alguns deles podiam estar a tentar absolver-se da responsabilidade. Mas, enquanto Simi conduzia as entrevistas, começou a pensar que as pessoas poderiam realmente ter um problema.

“Uma das coisas que se foi tornando bastante clara desde 2012, era que os indivíduos relatavam sentirem-se como se tivessem prejudicado permanentemente o seu cérebro por causa do seu envolvimento, descrevendo coisas como serem involuntárias e indesejadas, mais ou menos como um efeito duradouro”, realça Simi. E acrescenta: “As pessoas descreviam aquilo a que chamamos em sociologia de 'identidade residual', que quer dizer que quando deixas uma identidade, podes ainda sentir efeitos duradouros ou recaídas periódicas. Portanto, há esse potencial residual para qualquer tipo de identidade, especialmente uma que tinha um papel tão central na vida da pessoa”.

Simi está entre um grupo de investigadores que investigam como o ódio pode deixar traços duradouros no cérebro. Num estudo-piloto conduzido pela Universidade do Nebraska em Lincoln, no último Verão, ele e Ligon ligaram ex-supremacistas brancos a máquinas de eletroencefalograma e aparelhos para rastrear movimentos dos olhos e mostraram-lhes uma série de imagens como as que eu vi. Algumas eram violentas, outras mostravam casais inter-raciais e outras mostravam símbolos da ideologia supremacista branca, como suásticas. Num laboratório separado, o Centro de Cérebro, Biologia e Comportamento, participantes passavam pelo mesmo processo enquanto os investigadores usavam ressonância magnética para mapear a actividade do cérebro.

O estudo comparava cinco ex-membros com cinco lutadores de MMA; estes últimos escolhidos como grupo de controlo, porque eram homens brancos que também se envolviam em comportamentos agressivos. Apesar da amostra pequena, os dados forneceram um começo intrigante. Por exemplo, ao se tratar do grupo de ex-membros, várias regiões do cérebro acendiam-se quando o mesmo não acontecia com o grupo de controlo. Divergência notável emergiu em testes de áreas como o processamento de rostos, linguagens, símbolos e caracteres, além de repressão emocional, cerca de 100 milissegundos depois de os participantes verem as imagens provocadoras.

Isto vem com algumas ressalvas. Por exemplo, é possível que, devido ao facto de as pessoas estudadas terem renunciado conscientemente à supremacia branca, regiões mais sofisticadas do cérebro como o giro frontal médio, que está envolvido em repressão emocional, activar-se para reagir à diferença inicial em processar, ou para reprimir emoções associadas a isso. Por outras palavras, talvez eles soubessem como não deviam reagir. Ainda assim, as descobertas preliminares do estudo sugeriam que as pessoas com um histórico de supremacia branca percebiam fundamentalmente esses estímulos de maneira diferente da do grupo de controlo – e suficientemente rápido para sugerir que isso acontece a um nível inconsciente.

Para o projecto, Simi fez uma parceria com Ligon, que estuda porque é que as pessoas respondem a certas mensagens de consumo. Ela decidiu voltar os seus conhecimentos para o radicalismo – ou o que chama de “marcas terroristas” – depois de participar numa conferência em que aprendeu que pessoas com um certo estilo de apego tinham mais probabilidades de se lembrarem de um produto inserido propositadamente num filme, se estivessem num estado aumentado de medo.

“Teoricamente, ficas com medo a ver um filme de terror, portanto concentras-te numa garrafa de água que aparece numa cena que tenha essas características em particular”, explica. E conclui: “É incrível as coisas que eles conseguem medir. E, se podes fazer isso com um filme de terror e uma garrafa de água, podes fazer com um vídeo do Estado Islâmico”.

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Ilustração: Camilo Medina

Apesar de não parecer óbvio que uma escola de administração seja o lugar para investigar radicalização, a coisa até faz sentido. Afinal de contas, o líder do auto-proclamado Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, está tecnicamente a vender alguma coisa, seja a promessa de uma vida imbuída de sentido, ou meramente um sentimento de pertença. O que os dois académicos descobriram em ex-membros de grupos de ódio foi uma verdadeira dissonância cognitiva: apesar de essas pessoas terem publicamente rejeitado a ideologia supremacista branca, elas ainda exibiam picos de “prazer” ao verem imagens de uma manifestação nazi. A implicação era que o extremismo é algo que nunca pode ser realmente desligado, não importa quanto o queiras.

Embora o teste que fiz não sugerisse que eu tenha estragado o meu cérebro a ler fóruns e threads racistas para o trabalho, deu-me uma visão melhor de como “marcas terroristas” ainda podem afectar uma pessoa fora dos círculos extremistas. A minha resposta de prazer teve um pico quando vi uma família de refugiados, uma família neo-nazi e um grupo de crianças a descerem num escorrega, parte de uma propaganda do auto-proclamado Estado Islâmico. A minha personalidade era, aparentemente, extremamente susceptível a essas imagens de orientação familiar.

Mas, este tipo de ciência só vai até um ponto para nos oferecer esperanças de criar uma ponte sobre divisões como as que se abriram entre Dave e o seu pai. Durante as nossas conversas, ele disse que se foi distanciando da própria família – incluindo o homem que esperava salvar. “Quero deixar claro que não faço apologia do racismo, nem defendo o meu pai de qualquer maneira”, esclarece. E acrescenta: "Mas, entendo como ele lá chegou e acho que as pessoas são rápidas em demonizar os racistas, sem realmente saberem como é que eles ficaram assim. Ninguém nasce racista, mas milhões de homens e mulheres como o meu pai voltaram-se para essa mentalidade e, tendo por base o que vi e ouvi, eles chegaram a isso através das mesmas - ou muito parecidas - experiências”.

As pessoas podem mesmo demonizar racistas, como Dave diz, mas ainda não concordamos, pelo menos a um nível oficial, que a condição deles é mental e está além do seu controlo. E Simi diz que precisa de saber muito mais sobre a arquitectura neuropsicológica da questão para poder sugerir qualquer tratamento ou intervenção. “Mas, em termos de terapia comportamental cognitiva, isso dá-nos um entendimento muito melhor daquilo com que estamos a lidar em termos de quão profundamente entrincheirada parte dessa mentalidade pode ser”, sublinha. E conclui: “Portanto, no nível mais básico, isso diz-nos que, quando deixas um grupo, não é o fim da história. Acho que há implicações substanciais”.

Por outras outras palavras, as últimas evidências sugerem que abraçar uma ideologia de ódio pode reprogramar o teu cérebro. Isso quer dizer que, depois de entrares, como chegaste lá pode deixar de ter importância.


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