Cultura

Sete fotógrafos que estão a reescrever as rígidas leis da fotografia de rua

Há novas formas de fazer imagens em espaços públicos. Algumas encenadas, algumas alteradas digitalmente, todas impressionantes.

Por Jon Feinstein; Traduzido por Sérgio Felizardo
17 Abril 2019, 9:00am

Foto por Clarissa Bonet.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Nos quase dois séculos que passaram desde a clássica cena de uma rua parisiense de 1838 de Daguerre, exposta por vários minutos, milagrosamente captando dois homens que ficaram parados o tempo suficiente para aparecer no negativo, a atitude para com a fotografia de rua, fotografar em público e as possibilidades do meio – digital ou não – para alcançar qualquer sentido de verdade objetiva, tem vindo continuamente a mudar.

E os debates têm sido acalorados. Durante anos, muitos tradicionalistas trataram o género rigidamente pelas regras prescritas pelo pai da fotografia de rua, Henri Cartier-Bresson. Sem dupla exposição, sem técnicas de impressão que podiam obscurecer o conteúdo original do negativo, sem cortes que podiam alterar o que foi captado. Alguns até insistiam em incluir as bordas do negativo na impressão como “prova” de que a foto original não tinha sido alterada.

Depois, o Photoshop e a fotografia digital abriram esse mundo a várias novas polémicas.


Vê: "O Padrinho da fotografia erótica"


Os sete fotógrafos que destacamos a seguir marcam as muitas direcções contemporâneas da fotografia de rua e a sua capacidade de continuar variada e a crescer para além das restrições dos seus tiranos mais tradicionais.

Alguns usam ferramentas digitais para reformular a forma como entendemos espaços públicos, outros criaram graus variados de interferência encenada, enquanto outros ainda deixam as coisas acontecerem naturalmente, acrescentando todo o poder cru de um flash. Muitos destes fotógrafos partilham as suas imagens diariamente no Instagram – e recomendo fortemente que acompanhem o seu trabalho.

Pelle Cass

1554325084642-Field-Hockey-Game-BU
Field Hockey Game, Boston University
1554325105127-High-Line-IV
Highline, 2013. © Pelle Cass

Quando Henri Cartier-Bresson cunhou o seu famoso “momento decisivo”, a ideia de que uma foto de sucesso combinava elementos quase misticamente congelados, a fantástica tempestade perfeita digital de Pelle Cass não lhe passaria pela cabeça. Um fotógrafo e artista digital que os puristas adoram odiar, Cass combina centenas de momentos singulares registados nas ruas e outros lugares públicos. Nas suas fotos, feitas em lugares que vão de ruas aleatórias até recintos desportivos de universidades, corpos lutam por atenção, perfeitamente parados e coordenados. A série em desenvolvimento de Cass, Selected People, começou em 2008 em Brookline, Massachusetts, onde vive.

Fotografava durante a hora de almoço, colocando a sua câmara num tripé e fotografando continuamente, sobrepondo as imagens depois no escritório, quando não havia muito trabalho, deixando algumas figuras e omitindo o resto, mantendo o ambiente intocado. “Sentia que estava a roubar tempo à empresa”, diz Cass à VICE via e-mail, “mas também sinto que isso me salvou a vida”. O interesse de Cass está menos nas maravilhas e truques digitais e mais na capacidade histórica das câmaras para registarem e comprimirem a estranheza do tempo.

“Olho para um bocado da calçada e ponho-me a pensar no que aconteceu naquele ponto durante os dias, anos e séculos”, escreve Cass. E acrescenta: “Percebi que podia captar uma pequena parte disso com uma câmara”. O fotógrafo diz ainda que se sente atraído pelo ritmo complicado dos espaços públicos. Numa das primeiras fotos da série, “Football, Cypress Field, 2009”, centenas de adolescentes ocupam um relvado. Bolas de futebol voam para todo lado e corpos repetem-se sob o sol do meio-dia. Apesar daquilo que pode parecer caos, há um sentido de ordem na coisa toda, dezenas de universos a coexistirem num único contínuo.

Noutra imagem, “Highline, 2013”, fotografada de cima do cruzamento da Washington St e Little West 12th, em Nova Iorque, vários camiões, bicicletas, transeuntes e motociclistas entopem a rua. Se este fosse um único momento sem alteração, sentiríamos a frustração de um congestionamento mas, de alguma forma, tal como a imagem de Cass do Cypress Field em Brookline, há uma sensação de calma, de cooperação, de tudo a encaixar-se e a funcionar normalmente.

Em 2017, Cass começou a fotografar desportos organizados para uma série chamada Crowded Fields. Na foto “Water Polo Match, Harvard, 2018”, corpos submergem e emergem numa piscina, alguns encarando-se, outros olhando para direcções opostas. Braços surgem num equilíbrio entre um nadar casual, competição e luta para se manter à superfície. Como as fotos anteriores de Cass, apesar do caos, eles coexistem em uníssono. Há uma sensação de alinhamento, de trabalho colectivo, de toda a gente a dar-se bem.

1554325149591-HU-Mens-Water-Polo
Harvard University Mens Water Polo, © Pelle Cass

Com os anos, Cass recebeu diversas críticas, não só de tradicionalistas da fotografia de rua, mas também de gente como o tabloide britânico Daily Mail, que descreveu as suas imagens como simples “truques”, dependentes de ferramentas em vez de do espírito do tempo e emoção. Mas, Cass acredita que as suas imagens são mais verdadeiras, porque mostram muitos casos do que acontece num lugar em particular, não só uma pequena parte.

“Em todas essas críticas”, salienta, “o que me incomoda é como as pessoas parecem ter medo ou, pelo menos, uma aversão a algo novo. Talvez o meu trabalho seja um obstáculo numa ladeira escorregadia em direcção a tornar o fabrico de imagens numa arma. Se sim, então quero esclarecer que, pessoalmente e politicamente, defendo orgulhosamente factos e a verdade!”.

Clarissa Bonet

1554325220672-Gust_2018
Gust, 2018, © Clarissa Bonet

Em City Space, Clarissa Bonet utiliza actores e cria cenários simples para tirar sentido das suas próprias experiências e observações da paisagem urbana de Chicago. Em vez de tentar captar um momento decisivo enquanto ele acontece, ela dirige esses actores para recriar as suas memórias dentro da cidade.

Numa imagem, uma mulher aparece pequenina na parte de baixo do enquadramento, sob as janelas de um edifício comercial, com o cabelo branco soprado para a frente a cobrir-lhe o rosto. Noutra foto, três figuras entram e saem de um prédio igualmente imponente, sob uma luz fria, limpa e muda. Enquanto as suas roupas deixam implícito classe social e económica, todos os rostos menos um estão obstruídos, tornando-os nada mais que elementos da arquitectura. Em cada imagem, corpos, geralmente vestidos em sombras, desaparecem nas estruturas que os rodeiam.

Em contraste com os momentos tempestuosos e pessoas fundidas num mesmo plano de Pelle Cass, as fotos de Bonet raramente incluem mais de três ou quatro pessoas – e, geralmente, focam-se em apenas uma. São imagens extraídas lentamente do espaço psicológico que existe entre humanos e as estruturas de betão que construímos: silencioso, mas ainda cheio de uma luta para existir.

Bonet cria estas imagens com base em memórias dos seus próprios momentos fugazes dentro da cidade, usando actores contratados como duplos para processar a paisagem. Ela caminha pelas ruas de Chicago durante horas, tirando notas, rascunhos, fotografando com o seu telemóvel, depois volta para o estúdio e começa a planear as suas sessões. Depois, escolhe os participantes, e selecciona locais não só pela estética, mas por serem os menos arriscados para fotografar sem uma licença.

Muitas das imagens são fotografadas de uma certa distância para ajudar a transmitir a psicologia imponente dos prédios, portanto Bonet usa aparelho de ouvido para dirigir os actores ao longe. “Estou em sintonia não só com o que observo”, diz Bonet, “mas com a forma como me sinto em relação a estruturas físicas ou como interajo com o espaço físico em si. Estou constantemente a perguntar-me como posso usar o ambiente em relação com a linguagem da fotografia, para apresentar ao espectador uma imagem do meu ponto de vista”.

1554826643731-Stop_2014
Stop, 2014, © Clarissa Bonet

Se Bonet pode ser “oficialmente” considerada uma fotógrafa de rua é outra pergunta do tipo “quem é que quer saber”, mas o que fica claro é que o seu trabalho usa a linguagem visual do género para processar espaço público. “A principal diferença entre o que faço e o que um fotógrafo de rua tradicional faz”, explica Bonet à VICE, “é que escolho observar completamente e experimentar momentos passageiros, em vez de mediar essa experiência no momento com a câmara”. O processo de Bonet permite-lhe controlar a sua experiência interna e visualizá-la para o mundo exterior.

Haley Morris-Cafiero

1554325593602-01_AnonymityIsntforEveryone
Anonymity Isn't For Everyone, ©Haley Morris-Cafiero

Em 2010, Haley Morris-Cafiero estava a trabalhar numa série de auto-retratos e tirou um rolo inteiro a si própria em Times Square. Ao ver as folhas de contacto, depois de algumas imagens, reparou num homem a olhar para ela com desprezo. A situação repetia-se periodicamente nas imagens, o que levou Morris-Cafiero a começar Wait Watchers, uma série de imagens da fotógrafa em lugares públicos a ser ridicularizada, a receber olhares de desprezo e a ser humilhada por causa do seu peso.

Morris-Cafiero procurava áreas movimentadas – praias, pontos turísticos de Nova Iorque e outras cidades densamente povoadas, qualquer lugar onde alguém na multidão pudesse gozar com ela. Levava a cabo actos quotidianos: atravessar uma rua, sentar-se a olhar para o telemóvel, observar um mapa, tentar misturar-se, enquanto um assistente nas proximidades a fotografava. Fotografada em analógico para não fugir dos parâmetros da sua ideia original, cada sessão começava como um mistério – que olhar de desgosto se vai materializar quando as fotos forem reveladas? Que olhar doloroso vai aparecer? Depois disso, passou a fotografar principalmente com uma câmara digital, mas o processo de espera pelo olhar continuou. “Nunca sabia se tinha uma imagem até voltar para casa e ver as fotos num ecrã maior”, diz Morris-Cafiero à VICE.

1554325721955-03_Turtle
Turtle, ©Haley Morris-Cafiero

Os resultados foram consistentemente desanimadores, variando de olhares subtis de desaprovação até gozo aberto. Numa imagem, Morris-Cafiero, com um gelado na mão, espera que o semáforo de pedestres fique verde. À esquerda, uma adolescente magra olha para ela de lado com a mão sobre a barriga lisa. Noutra, faz alongamentos num passeio enquanto quatro pessoas a observam e riem. Esses momentos difíceis e perturbadores forçam os espectadores a confrontar o julgamento.

1554325670224-02_Gelato
Gelato, ©Haley Morris-Cafiero

Apesar de fotografar sem cortes, sem dirigir a cena ou fazer manipulações digitais, há um elemento teatral que pode levar a perguntas sobre a autenticidade das fotos. Quão visível a câmara estava? Como sabemos se a fotógrafa não fez alguma coisa para chamar a atenção para ela? Enquanto, geralmente, demora cinco minutos ou menos em cada sessão de fotos, tentando conseguir a imagem antes de as pessoas repararem na câmara, se as imagens são “a verdade” do momento não importa realmente. Parece – como com a foto original na Times Square – que Morris-Cafiero nos quer deixar dolorosamente conscientes.

Heloisa Lodder

1554325744703-Lodder_Heloisa_VICE_03
©Heloisa Lodder

Uma regra tácita da fotografia de rua é “não fotografes os sem-abrigo". E há uma boa razão para isso. Que pessoa decente e em sã consciência faria imagens de alguém com o menor poder? É um truque sujo (e cliché) fotografar alguém num momento mau em nome da sua arte. As fotos de Heloisa Lodder caminham sobre essa linha, mas com uma nova visão, uma tentativa de consciencializar em relação ao sofrimento dessas pessoas e encorajar os espectadores a reconhecerem a sua humanidade.

A série Studies on the Dignity of the Human Person, de Lodder, mostra os sem-abrigo de São Paulo, individualmente isolados das ruas e sobrepostos em fundos negros, o que faz com que tenhamos a sensação de que estão a flutuar no espaço. Geralmente estão de costas para a câmara e para o nosso olhar, os rostos virados para o outro lado; humanos digitalizados em corpos-objectos. Lodder tirou muitas destas fotos a caminhar pelas ruas do centro de São Paulo, habitualmente com um telemóvel e seus temas estão quase sempre a dormir, inconscientes de que estão a ser fotografados. A fotógrafa começou a série em Janeiro de 2018, durante a crise financeira no Brasil, tentando destacar o contraste diário que via entre a crescente população de moradores de rua e executivos.

1554325767484-Lodder_Heloisa_VICE_04
©Heloisa Lodder

Ver estas fotos e conhecer o processo de Lodder levanta questões sobre as suas intenções e responsabilidade social e ela está ciente dessa carga controversa. “Sim, mas isso é intencional”, explica à VICE. E acrescenta: “Vemos cenas de pobreza e miséria todos os dias e, desde o começo, quis direccionar o meu trabalho para um ponto de vista diferente. Desenvolvi o projecto sob um cenário chamado 'vulnerabilidade social', a que pouca gente parece sensível”.

Enquanto fotografar a população vulnerável sem permissão pode parecer exploração, Lodder vê o seu trabalho como humanizador. A “vulnerabilidade social” que ela descreve desafia o espectador a repensar a sua relação com os sem-abrigo, enquanto chama a atenção para o nosso processo não verbalizado e desumanizador de desviar os olhos. “Conceptualmente, queria que o meu processo artístico os representasse com alguma dignidade humana, retirados das ruas. Tento aproximá-los da sua essência humana (que parece ter sido revogada) e também dos outros seres humanos”.

Michelle Groskopf

1554825952043-02_Street_Sony-37
©Michelle Groskopf

“Somos todos outsiders a observar, a tentar entender o nosso lugar no Mundo”, diz Michelle Groskopf à VICE. “Somos intérpretes a vaguear por aí e a testemunhar toda a beleza e fealdade humana que se desenrola à nossa volta”. As fotos de Groskopf são eloquentemente chocantes e confrontadoras, mas ainda assim empáticas com as pessoas e elementos ambientais de Los Angeles e outras cidades do Mundo; coisas que chamam a atenção enquanto ela anda pelas ruas. Mesmo a fotografar estranhos, as suas imagens são pessoais – ajudam-na a entender-se melhor a si própria; como ela vê, para o que olha e o que isso assinala sobre a sua própria psicologia.

Ao contrário do teatro de rua de Cafiero, Cass e Bonet, Groskpof aproxima-se para encontrar um poema num gesto simples, enquadrando-o com “pouca gordura”. As suas fotos mostram esse ponto e, enquanto há pouco espaço para os olhos vaguearem e explorarem, há camadas e mais camadas de carne por onde cortar. Um braço suspenso num casaco de veludo com franjas. Como mãos – uma delas pressionada firmemente numas costas bronzeadas com unhas vermelhas, ou quatro, ao redor de um copo partilhado e uma banana – podem ser densas em história, inércia e metáfora. “Eu oblitero sombras...”, diz, “elas são o meu inimigo”. Mesmo que o flash sempre destrua as sombras, ocasionalmente, quando o sol compete pelo maior brilho, a silhueta do seu flash e mãos acaba por se infiltrar nas fotos que tira a alguém, deixando-nos saber que ela está ali.

1554826145648-05__DSCF0329G-copy-2
©Michelle Groskopf

As fotos de Groskopf são reveladoras, mas não julgam. Podemos imaginar os seus temas a sentirem-se apanhados desprevenidos, inconscientes de que estão prestes a serem fotografados. Todavia, de alguma maneira – podemos ver nos olhos daqueles que apanham em flagrante – não se estão a sentir violados. “Nem toda a gente partilha esse desejo estranho de vaguear pelas ruas e fotografar estranhos”, assegura. Para Groskopf, a câmara, que ela carrega quase sempre, deixa-a mais confortável na própria pele, pronta para conquistar e abraçar o desconhecido.

O trabalho de Groskopf está mais próximo da “fotografia de rua” tradicional que os outros fotógrafos deste artigo, agarrando a vida em questão de segundos, no entanto ela vê esses rótulos como limitadores e absurdos. O seu olhar único, cores fortes e uma abordagem quase de natureza morta para captar a vida enquanto ela acontece, já lhe valeram trabalhos com publicações como Refinery29, Bloomberg Businessweek e Wired e, recentemente, fizeram com que fosse seleccionada para um dos cobiçados postos do PDN30 de 2019.

1554923932409-VICE_Groskopf_Street_Sony-81
©Michelle Groskopf

“Qualquer pessoa que trabalhe nas ruas está a participar no passado, presente e futuro do género”, considera. Groskopf faz as imagens que quer sem “ser esmagada” pela história rígida do género. “Experimenta e diverte-te”, aconselha Groskopf. E conclui: “Quero a liberdade de dizer o que quero, da forma que quero e ninguém neste Planeta me vai ditar isso. Especialmente não as hordas que infestam os fóruns de fotografia de rua da Internet”.

Girma Berta

1554826212274-06_Moving-Shadows-IX-2016
Moving Shadows IX, 2016, ©Girma Berta

Girma Berta chegou à fotografia de rua através do design gráfico. No trabalho, era exposto a um oceano de imagens, muitas vezes tendo que remover textos, números e manipulando-as de várias maneiras para fazer o que o projecto exigia.Esta proximidade com a fotografia impulsionou-o para começar a fazer as suas próprias imagens das ruas de Addis Ababa, a cidade da Etiópia onde vive e trabalha.

As origens de Bertaligadas ao design não só influenciaram a forma como ele organiza o espaço visual e as pessoas dentro do enquadramento, como o inspiraram a experimentar tratamentos gráficos na pós-produção. Na série Moving Shadows, que lhe valeu o prémio 2016 Getty Images Instagram, Berta separou indivíduos ou duplas dos seus ambientes, equilibrando-os contra cores vibrantes que parecem fundos de estúdio. O sol da cidade cria sombras que se estendem pelos fundos saturados e permitem que os temas retenham a sua profundidade espacial.

1554826266764-01_Moving-Shadows-ii-Xii-2017
Moving Shadows ii, Xii, 2017, ©Girma Berta

O processo de Berta, como o de Eloisa Lodder, remove as pessoas do anonimato caótico da vida urbana e aumenta a sua humanidade. Quando ele escolhe cores fortes e saturadas, certifica-se de que não vai remover o poder das pessoas. “Sinto que há mais na vida dos 'homens e mulheres comuns' da minha cidade”, diz à VICE, “sinto como se estivesse a recortá-los do fundo da cidade movimentada. Posso ilustrar as suas capacidades captando momentos marcantes do quotidiano e oferecendo uma interpretação imaginada de situações do dia-a-dia”.

Mas, serão estas fotos de rua “legítimas”, ou só exercícios de design gráfico que incorporam fotografia? O que diria Henri Cartier-Bresson e porque é que ele se importaria com essa diferença? “Para mim”, diz Berta, “fotografia de rua significa histórias cruas que interpretamos na nossa vida uns com os outros, durante as nossas jornadas para os lugares onde tems de estar”.

1554826276738-03_Moving-Shadows-II-V-2017
Moving Shadows II, V, 2017, ©Girma Berta

Enquanto os lacaios da “fotografia de rua hardcore” de Cartier-Bresson podem ver problemas nesse processo, para Berta, isolar as pessoas dentro da cidade corta o ruído, ou, como Michelle Groskopf, remove a “gordura” do momento para salientar o que é importante. “Esses momentos”, acrescenta, “são, geralmente, ignorados, mas há muita coisa a acontecer diariamente que tem de ser captada e mostrada”.

Adam Magyar

1554826292931-Urban-Flow-1807-New-York-2015
Urban Flow 1807, New York, 2015, ©Adam Magyar

Adam Magyar sempre se considerou um fotógrafo de rua. Desde o começo, foi atraído pela capacidade da câmara de representar tempo em espaços públicos. O fluxo de pessoa, os corpos a navegarem pelas ruas, nas carruagens do metro, as complexidades visuais e emocionais da paisagem urbana. Apesar de ter trabalhado brevemente em meios mais tradicionais a tirar fotos com uma câmara analógica de formato médio, não tardou a percebeu que queria testar a capacidade da fotografia de representar o espaço público.

“Queria captar algo mais expansivo, algo que uma câmara normal não poderia ver”, diz Magyar à VICE. E realça: “Simplificando, estava interessado em captar o 'ser' em si, sem falar muito sobre elementos como condições ou histórias humanas”. Para conseguir isso, revisitou um fascínio de infância por equipamentos electrónicos e tecnologia digital e começou a fazer câmaras e aparelhos digitais “Frankenstein”, criando algo que pudesse registar as ruas e a passagem do tempo como ele imaginava.

Magyar começou Urban Flow usando uma máquina que construiu combinando componentes de um scanner de mesa e uma câmara digital, colocando os seus sensores directamente atrás das lentes da máquina. Esse híbrido ficava fixo enquanto capturava uma linha de pixels várias vezes por segundo, repetindo a mesma linha. As imagens resultantes são espaços públicos esticados e as pessoas que nele habitam e se movem, rodeadas por linhas de glitch imaculadas renderizadas pela tecnologia do scanner. Qualquer coisa ou qualquer um que passe é alvo do scanner. As linhas parecem um acidente, manipulação pós-produção ou um navegador dos anos 1990 a tentar abrir uma imagem no ecrã, mas são feitas inteiramente na câmara e, como no trabalho de Pelle Cass, estão mais perto de “fotografias propriamente ditas” do que o que pode à primeira vista parecer.

1554826310647-Urban-Flow-1837-New-York-2015
Urban Flow 1837, New York, 2015, ©Adam Magyar

À superfície, Urban Flow pode parecer uma questão de tentativa de surpreender. Punctum imediato. Como as fotos de flash de Michelle Groskopf, as imagens de Magyar não exigem uma longa explicação para serem apreciadas imediatamente. E podem, como com os críticos de Pelle Cass, fazer com que os snobs, puristas e trolls da Internet gritem “truque”. Mas, há nelas muito mais que isso.

Como Cass, as fotos de Magyar vêm de um desejo de retirar sentido do fluxo infinito do tempo dentro das maiores cidades do Mundo e de captar partes fragmentadas de pessoas e grupos num mesmo plano visual. As suas fotos e vídeos são sobre pessoas a moverem-se em uníssono em direcção a alguma coisa – por mais ambígua, abstracta ou indefinida que seja – colectiva. “A cidade é uma maquinaria complexa”, diz, “mas fornece poucas conexões reais. Nessas multidões, sinto que estamos meio perdidos, entre desejos, medos, ambições, instintos, impulsos, esperança e inércia”.


Segue o Jon Feinstein no Instagram .

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.