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Entretenimento

Vivi durante uma semana como se estivesse em 1996

Só me senti um bocadinho isolada no Mundo.
27 November 2013, 10:00am
Fotografia por Michael Sedbon.
Fotografia por Michael Sedbon.

No ano passado, as revistas da moda bombardearam-nos com "o regresso aos 80". Mas alguém acredita nisto? Quem é que quer voltar a uma época em que a única cena positiva passa por recordar uma juventude perdida? Eu nasci em 1993, por isso, voltar aos 80 era cena que não me interessava de todo.

Nos anos 90, os miúdos jogavam com tazos, cartas de Pokémon e Tamagotchis. Os computadores eram menos capazes que os humanos e só existiam meia-dúzia de nerds da net e quanto os telemóveis eram praticamente inexistentes (à excepção de alguns sortudos que tinham um Alcatel One Touch Easy). Os jovens também não tinham muitas cenas com que se entreter: cassetes de vídeo, videojogos, podiam falar no telefone fixo depois das aulas ou ir ao cinema ao fim-de-semana.

Mas não me lixem. Era uma época em que não acontecia nada. Então, porque é que as pessoas continuam a sentir saudades dos anos 90? Queria descobrir por isso, durante uma semana, proibi-me a mim mesma de usar qualquer invenção tecnológica do pós-1996. Sete dias. Sem iPhone, sem computador, sem internet, DVD's, etc. Obriguei os meus ouvidos a ouvirem No Doubt e já não sabia o que fazer de tão aborrecida que estava.

Para me divertir um bocado, consegui que me emprestassem uma consola, uma televisão gigante e um leitor de vídeo. Apenas isso. Respirei fundo e mandei uma última mensagem aos meus amigos para lhes dizer que não estaria disponível durante toda a semana. Apaguei o meu iPhone e foi isto que aconteceu.

SEGUNDA-FEIRA

Primeira observação: como costumo perder o telemóvel muitas vezes, já estou mais ou menos habituada a viver desligada do mundo. A música foi a primeira coisa que me fez deprimir; andava com leitor de CDs gigante e as pessoas olhavam para mim quando mudava de faixa e metia Elastica.

O dia foi mais ou menos normal. Não senti nenhum desejo de escrever ou falar em chats com os meus amigos do Facebook. Enquanto jantava, tocou o telefone de casa. Como acto reflexo, ignorei porque sempre ouvi dizer que se alguém quiser falar comigo pode fazê-lo ligando para o telemóvel. Mas quando não tens telemóvel, tens de te adaptar.

Liguei a televisão (enorme) para jogar Mário Kart, mas não encontrei o comando. Tentei acalmar-me. Sobrava-me o leitor VHS. Mas depois dei conta que mo venderam sem o cabo. Por mementos desejei matar o cabrão que me vendeu um leitor de cassetes sem cabo. Estive a dizer mal do gajo durante cinco minutos e depois decidi que devia ir dormir.

TERÇA-FEIRA

Viver sem internet não é prático. Viver sem telemóvel também não. Por volta das três da tarde tive de voltar ao escritório, mas todos os metros estava parados por causa de uma caixa duvidosa. Quis puxar do telemóvel e procurar uma alternativa, ou usar o GPS. Quis ligar ao meu chefe para o avisar de que chegaria tarde, mas não, isso não se podia fazer em 1996.

Perguntei aos outros passageiros onde podia apanhar um autocarro para ir para o trabalho. Em 96, todos saberiam uma forma de chegar ao destino, hoje nem por isso. Segui os conselhos que me deram e perdi-me pelo caminho. Ao chegar ao escritório fartaram-se de berrar comigo, o normal — tanto em 96 como em 2013.

QUARTA-FEIRA

De manhã, antes de ir trabalhar, consegui fazer uma marcação para o meu dentista. O metro estava fechado outra vez por causa de outro caixote estranho. Tornou-se oficial: sou a tipa com mais azar neste mundo. Em 1996 havia cabines telefónicas por todo o lado. Isso ter-me-ia ajudado mas hoje em dia parece que todas as cabines desapareceram. Cansei-me de viver como uma prisioneira, por isso liguei a dois amigos que tinham telefone fixo para saber se queriam passar umas horas no mundo real.

QUINTA-FEIRA

Senti falta da internet. Sempre pensei que o Facebook era inútil mas só agora é que tive que viver sem ele. Sentia falta dos comentários às minhas fotos e queria dar likes a coisas estúpidas. Que saudades. Queria fazer amor com o Facebook. Em vez disso, estive com alguns amigos da vida real, como se fazia antes.

SEXTA-FEIRA

Na última noite esqueci-me do meu casaco num bar. Como não o pude procurar o número de telefone do bar na Internet, decidi ir lá buscá-lo. Era muito cedo e o bar estava fechado. Decidi ir buscá-lo mais tarde. Começava a temer pelo fim-de-semana. Sabia que tinha de ligar a muitas pessoas mas não tinha os seus números e não podia ver o que iam fazer no Facebook. Pensei, "já só faltam 48 horas". Era sexta-feira, o dia em que se fazem cenas fixes, em que bebemos por aí e dançamos música repetitiva. Estava perdida.

SÁBADO

Nada de especial aconteceu. Assim como os Sábado de há 17 anos. As pessoas ouviam Prodigy para passar o tempo. Estava com desejos de comida mexicana, mas não conhecia nenhum restaurante mexicano perto de onde vivo, por isso, sem internet, não havia fajitas para ninguém. Fechei-me em casa até domingo a ler cenas tristes.

DOMINGO PELA MANHÃ

Era o meu último dia no inferno. Tinha de devolver a televisão à dona. Não iria sentir falta dela. Quando a devolvi queixei-me de que não me tinha dado comando e ela disse-me que não era preciso porque podia mudar de canal à mesma. Senti-me estúpida e depois voltei a apanhar o metro com o meu leitor de CDs gigante.

DOMINGO PELA NOITE

Recuperei o meu telemóvel e depois pude voltar a usar a internet, mas num computador a cair de podre porque o meu foi confiscado pelo meu editor. Tinha uma porrada de notificações no Facebook, tantas que decidi deixá-las para depois. Mandei mensagens, mandei emoticons, Conversei sem parar. Estava de volta ao século XXI.

No final não tive nenhuma revelação que me abrisse os olhos sobre o vazio da tecnologia. A única coisa que ficou clara é que é fixe estar sozinho de vez em quando.

O que mais me chateia é que, hoje, ninguém consegue viver sem internet, sem facebook, sem telemóveis e isso tudo. Sim, é preciso haver um sítio onde o mundo possa partilhar as suas opiniões de merda e falar com outras pessoas por internet. Mas asseguro-vos que também me chateia não poder encontrar um restaurante mexicano quando estás a morrer de fome.


*As imagens originalmente incluídas neste artigo foram retiradas a 3 de Outubro de 2018, a pedido da autora.