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Saúde

O que acontece ao teu corpo quando fazes um jejum de três dias

Analisámos os efeitos bons, maus e mal-cheirosos de ficar 72 horas sem comer.

Por Grant Stoddard; Traduzido por Madalena Maltez
16 Novembro 2018, 2:38pm

Malte Mueller / Getty

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

O pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia. Pelo menos é isso que toda a gente diz. No entanto, há um número cada vez maior de estudos a minar essa ideia. Jejuar, de uma forma ou de outra, é uma tendência em voga, como prova o monte de tipos saudáveis que encontras no YouTube, doidos para partilharem com o Mundo os segredos que os ajudaram a superar algum tipo de trauma no liceu.

Para muita gente, jejuar significa não tomar o pequeno-almoço. Outras pessoas escolhem saltar o jantar. Qualquer uma dessas táticas resulta num jejum 16/8. Significa que, num período de 24 horas, jejuas 16 horas e comes todas as tuas refeições numa janela de oito horas. Outra variante popular é o jejum em dias alternados, onde a pessoa tipicamente não consome as calorias de um dia e come o que quer no seguinte.


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Alguns dos supostos benefícios dos planos de jejum incluem a redução de inflamação, queda do nível de açúcar no sangue e até prolongamento de vida – apesar deste último só ter sido provado em ratos. Não demorou muito até que as pessoas começassem a imaginar se jejuns mais longos teriam resultados mais claros. Devo relembrar que, se estás a considerar fazer jejum, analisa as tuas motivações, já que períodos de qualquer extensão sem comer podem ser um sinal de transtorno alimentar.

Tentei conciliar todos os testemunhos sobre jejum com conversas que tive com médicos e nutricionistas, para entender o que pode acontecer com o meu corpo se tentar seguir a moda dentro da moda e não comer durante 72 horas completas.

Primeiro, vais ficar esfomeado. Depois, nem tanto

Para a maioria das pessoas, saltar o pequeno-almoço não é grande coisa, particularmente quando estás muito distraído e bebes um monte de bebida com cafeína. Mas, se saltares o almoço, a meio da tarde o teu cérebro vai estar a gritar para te reabasteceres. Não vai literalmente gritar, claro. Vai fazer que te comportes como uma criança irritada e chata, até alguém reconhecer os sinais claros de fome e te enfiar um donut goela abaixo.

Um estudo recente que analisou o porquê da fome, concluiu que uma interrupção na homeostase do cérebro pode provocar uma resposta emocional complicada, envolvendo uma mistura de biologia, personalidade e ambiente. Essa tempestade perfeita, além de níveis baixos de energia e uma barriga falante, dá fortes sinais na primeira parte de um jejum de 72 horas - bastante desafiador.

Mas, se conseguires passar esse período, as coisas começam a melhorar muito no segundo e terceiro dia. “A diminuição gradual da fome é bem documentada em estudos que mostram a diminuição gradual da hormona grelina com vários dias de jejum”, diz Jason Fung, nefrologista de Toronto, no Canadá, e co-autor de The Complete Guide to Fasting. A grelina, explica, é uma hormona que te faz sentir fome. É segregada em grandes quantidades quando o teu estômago está num estado não esticado. Fung explica que uma diminuição da fome nestas circunstâncias acontece com mais frequência que durante uma dieta mais estendida no tempo.

Devo mencionar aqui que, 72 horas, é uma duração muito menor do que levaria uma pessoa saudável a morrer de fome. Num artigo publicado pelo British Medical Journal, uma revisão da literatura sobre o tema descobriu que os humanos podem sobreviver sem comida entre 30 a 40 dias, desde que continuem adequadamente hidratados.

Como Alan D. Lieberson disse à Scientific American, quanto tempo uma pessoa consegue sobreviver sem comida depende, realmente, “de factores como peso corporal, variações genéticas, outras considerações de saúde e, mais importante, a presença ou ausência de hidratação”. Morrer de sede, no entanto, pode acontecer em algumas horas. Noutro artigo da Scientific American, o professor de biologia da Universidade George Washington Randall K. Packer revela que um adulto numa situação confortável pode aguentar uma semana sem líquidos.

Vais ficar com um "bafo" daqueles

Quando Fung fala sobre o seu corpo a usar a gordura como combustível, está a referir-se a cetose. Para entrar em cetose, não dás ao teu corpo o seu tipo de combustível preferido – glucose – e isso obriga-o a procurar alternativas. Quando não há nada a entrar na tua boca, o teu corpo vai começar a sacudir as células de gordura para conseguir energia. Por isso é que o pessoal saudável curte tanto jejuar, bem como o estado de cetose em que isso os deixa. Dizem que jejuar e cetose são o que faz cair a tua percentagem de gordura corporal para um único dígito e estudos mostram que podem muito bem estar certos. O que não dizem é que isso tem um preço alto.

Uma consequência de converter os pneuzinhos em energia disponível são os corpos cetónicos. “Uma das formas através da qual o corpo liberta corpos cetónicos é pela exalação, tornando o hálito doce e frutado”, diz a nutricionista de Nova Iorque Amy Shapiro, colocando esse odor de maneira mais positiva. Estudos mostram que "hálito de acetona" é um indicador confiável em como entraste no modo de queima de gordura. Libertas corpos cetónicos por meio da respiração – e o cheiro às vezes é suficientemente desagradável para fazer com que a pessoa que está a roubar os iogurtes fique com medo de que lhe derretas a cara com a tua boquinha de cemitério.

Vais perder peso

Tem em mente que Shapiro não considera um jejum de 72 horas uma forma de conseguir uma perda de peso significativa. “Provavelmente, vais perder mais peso em água do que em gordura, enquanto o teu corpo usa o seu stock de glicogénio antes de passar para a gordura”, justifica. E acrescenta: “Enquanto liberta glicogénio, perdes água e essa é, geralmente, a causa da perda de peso rápida. Perder gordura demora mais tempo”.

Defensor do jejum, Fung discorda e diz que podes perder quase 700 gramas num período de 72 horas. Por essa razão, ele recomenda que pessoas com um Índice de Massa Corporal (IMC) menor que 20 podem colocar-se em risco de desnutrição. “A maioria das pessoas tem muito mais gordura que isso”, diz.

O teu corpo começa a usar os seus poderes de emergência

Tradicionalmente, não comer durante três dias seria visto como uma decisão não muito inteligente. Na verdade, em termos de escassez de alimento, seria visto como uma total idiotice. Mas, tendo em conta que vais, de certeza, conseguir algo para comer na quinta-feira, trancar o teu armário da cozinha à segunda pode realmente melhorar as tuas funções cerebrais – pelo menos segundo mostram estudos com roedores.

Investigadores de Yale começaram a injectar grelina em ratos e descobriram que a sua performance em testes de memória e aprendizagem aumentava em 30 por cento. Outro estudo da Universidade Swansea, no País de Gales, acrescentou a hormona a células cerebrais de rato. A infusão ligou um gene conhecido por desencadear neurogénese, um processo em que as células cerebrais se dividem e multiplicam.

Como mencionado acima, a produção de grelina pára depois de alguns dias sem comer. Até lá, o estômago segrega muito da hormona. Shapiro diz que isso pode ser uma adaptação de um tempo em que a comida era muitas vezes escassa e conseguir alimentos tinha tanto a ver com a nossa habilidade cognitiva, como com o quão bem conseguíamos atirar uma lança. “Durante tempos de fome, o corpo preserva dois órgãos e encolhe o resto”, explica – os órgãos preservados são o cérebro e, nos homens, os testículos. E conclui: “Biologicamente, isso provavelmente liga a necessidade de clareza mental para sair dos tempos de fome e sobreviver a longos períodos sem comida para continuar a espécie”.

Pode ser uma oportunidade de praticar consciência plena

“Jejum deve ser um reset mental, físico e espiritual”, diz, por sua vez, o nutricionista de Virginia Beach, Jim White. Ele explica que pessoas que jejuaram durante três dias relatam, muitas vezes que a experiência as fez enfrentar emoções recalcadas e que se sentiram mais estáveis mentalmente depois de completarem o jejum.

“Além disso, essas pessoas aprenderam a apreciar as pequenas coisas que consideravam garantidas na vida, como beber um copo de água gelada, ou ter uma cama para dormir à noite. Focando-se em conexões espirituais e mentais durante o jejum, em vez de na comida e inconveniências da vida, uma clareza mental pode ser atingida”.


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