O recall do Galaxy Note 7 da Samsung é uma piada ambiental
Você sabia que smartphones não são reciclados de fato? E isso é só parte da história. Crédito: Shawn Minter/Associated Press

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O recall do Galaxy Note 7 da Samsung é uma piada ambiental

Você sabia que smartphones não são reciclados? E isso é só parte da história.
14.10.16

Na manhã de terça-feira, muitos de vocês devem ter acompanhado, a Samsung anunciou a descontinuação do explosivo Galaxy Note 7 e pediu, muito encarecidamente, que seus clientes devolvessem os aparelhos para receber o dinheiro de volta ou trocar por outro produto. Nas entrelinhas, também pudemos ler: independentemente do que a empresa fará com os 2,5 milhões de aparelhos fabricados, trata-se de uma tragédia ambiental.

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Um porta-voz da Samsung me disse que os aparelhos não serão consertados, recondicionados ou revendidos em momento algum: "Temos um processo em andamento para descartar os aparelhos de forma segura", afirmou.

Isso tudo soa bastante razoável, mas fato é que, além de ficar na sua cômoda por toda a eternidade ou irem parar no fundo de um rio, reciclagem é provavelmente a pior coisa que pode acontecer com um smartphone.

"Smartphones não são reciclados de fato."

Há dois fatores a serem considerados aqui: primeiro, por mais que smartphones sejam leves, o Instituto de Engenheiros de Elétrica e Eletrônica calculou em 2013 que são necessários pelo menos 75 quilos de matéria-prima para fabricar um celular comum – número certamente maior no caso do Note 7, um dos mais avançados e maiores smartphones já criados. Segundo: grande parte do material minerado se perde imediatamente. Isso porque somos péssimos em reciclar smartphones: dos cerca de 50 elementos presentes em um Galaxy Note 7, conseguimos recuperar apenas uma dúzia por meio de reciclagem. Perde-se a maior parte de elementos raros, em geral os que mais dão trabalho e causam mais danos ao meio ambiente na hora da extração.

Benjamin Sprecher, pós-doutor especialista na extração de metais raros em reciclagem na Universidade de Leiden, na Holanda, afirmou em e-mail que "smartphones não são reciclados de fato (os elementos raros, ao menos), e os materiais mais relevantes se perdem nesses aparelhos".

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Já Alex King, diretor do Departamento de Materiais de Energia Críticos do Ames Laboratory, nos EUA, disse que "a reciclagem de smartphones está dando seus primeiros passos".

Em meio ao processo de reciclagem há coisas como o irídio (usado em touchscreens), neodímio nos imãs dos falantes e microfone. "O cobalto na bateria vem do Congo", de acordo com Kyle Wiens, CEO do iFixit. "Toda esta matéria-prima é bastante cara em termos de impacto ambiental, além de ter grande impacto na vida dos mineradores", continuou Wiens. "Afirmar que tudo será reciclado sem nem mesmo ter sido usado é bastante triste."

A Samsung declarou recentemente ao Washington Post que sua cadeia de suprimentos usa cobalto congolês, mas afirmou ainda agir de forma a garantir que o material não seja proveniente de trabalho exploratório ou infantil.

A imagem acima foi retirada do relatório de sustentabilidade da Samsung deste ano. Não há menção ao Note 7, mas faz sentido presumir que uma grande porcentagem do impacto ambiental causado pelo aparelho vem da mineração de seus materiais. Crédito: Samsung.

A perda de material é o motivo pelo qual smartphones não são reciclados mesmo após diversos anos. Eles costumam ser recondicionados e revendidos a seguradoras e clientes em mercados em desenvolvimento, já que os elementos recuperáveis de um celular valem pouquíssimo; é muito mais sustentável, em termos de meio ambiente, estender a vida útil de um celular do que desmontá-lo e transformá-lo em qualquer outra coisa.

Mas pode haver algo de bom no meio disso tudo: assim como grandes derramamentos de petróleo dão aos cientistas a chance de testarem novas técnicas de limpeza, um recall de celular em grande escala pode nos permitir aprender mais sobre a reciclagem de smartphones.

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"Telefones no fim de vida útil percorrem grandes distâncias e continuam no mercado por um bom tempo, aumentando os custos de coleta e dificultando a obtenção de qualquer benefício no processamento a partir de economias de escala", disse King. "Paradoxalmente, reciclar toda uma geração de telefones de uma só vez pode nos ajudar a transpor tais obstáculos."

A Samsung já puxou a sardinha pros biomateriais utilizados em alguns de seus aparelhos, o que não muda o fato de que maioria do material utilizado é não-reciclável e tem impacto ambiental durante a extração. Crédito: Samsung

Depois de desmontar o telefone e analisar seus componentes, Wiens me disse crer que algo por volta de 226 quilos de matéria-prima foram necessários para a sua fabricação. Muita dessa quantidade se perdeu. Além disso, ressalta, as reservas de muitos dos minerais raros encontrados em eletrônicos tem diminuído rapidamente. Ou seja: é bem terrível isso de pegar um telefone novinho e reciclá-lo.

A Samsung não divulgou nenhum relatório ambiental ou de sustentabilidade desde o lançamento do Note 7, mas em linhas gerais a empresa adota práticas superiores às concorrentes. Seu relatório de sustentabilidade de 2016 menciona que a empresa "considera a degradação ambiental e violações de direitos humanos em áreas de conflito questões éticas sérias". Ela ainda se vangloria de ter criado biomateriais para o exterior de alguns de seus celulares mais antigos, empregando ainda alumínio 100% reciclável em seus celulares a partir do Galaxy S6.

"Obviamente é um grande desperdício de recursos"

Nenhuma destas práticas sustentáveis muda o fato de que, com o Note 7, a Samsung minerou a Terra, enviou a matéria-prima para suas fábricas, construiu o aparelho, enviou-o para seus clientes e quase que imediatamente transformou um produto de alto valor em materiais reciclados muito menos úteis.

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Isso tudo antes de levarmos em conta que a empresa tem que dar jeito de recuperar os celulares que chegaram ao consumidor final. Isso envolve toda uma cadeia de suprimentos que inclui caixas, luvas à prova de incêndio e transporte rodoviário.

Os efeitos colaterais de se fabricar eletrônicos menos "consertáveis"

Nenhuma empresa quer fazer o que a Samsung está fazendo agora. Analistas calculam que a companhia pode perder até 10 bilhões de dólares com todo o imbróglio. Sem contar a pancada na percepção dos consumidores. É claro que a empresa não planejava fabricar um smartphone defeituoso, mas o quanto deveríamos culpar a Samsung por tudo isso?

Bem, se analisarmos a situação em grande escala, é só mais uma gota no balde cada vez mais cheio de bosta que estamos fazendo para poluir o planeta. "Obviamente é um grande desperdício de recursos. Mas sempre devemos levar em conta a escala. Basicamente tudo que fazemos no mundo ocidental é um enorme desperdício de recursos, então deveríamos nos chatear tanto com isso?", questionou Sprecher. "Dois milhões e meio não é uma fatia muito grande do mercado de smartphones que, por sua vez, é só uma fração do mercado de metais em geral. Não é algo tão relevante do ponto de vista ambiental ou se tratando de recursos."

"Pense no quão mais simples seria lidar com os problemas do Note 7 se fosse possível remover sua bateria"

Então, em vez de classificar o ocorrido como uma catástrofe ambiental irremediável, vamos chamar de uma cagada ambiental evitável da qual todos os fabricantes de smartphones poderiam tirar uma lição.

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Digo evitável pois o fiasco do Note 7 não foi só um deslize de fabricação, mas também uma falha no design. Até o Galaxy Note 4, todas as versões do aparelho contavam com bateria removível. No Note 5 (não houve Note 6), com o intuito de fazer um telefone mais fininho com bateria de maior capacidade, a Samsung usou cola para manter a bateria dentro do celular, dificultando bastante sua remoção para fins de reparo e reciclagem. A empresa confirmou à CNET e demais veículos que a bateria é o problema, e um recall ou troca desta seria muito menos complicado e menos ambientalmente desastroso se as baterias pudessem ser trocadas pelo usuário.

"Se a Samsung tivesse dito que enviaria para todos uma bateria com 95% da capacidade da antiga, mas sem afetar a segurança como a outra, estaria tudo bem", comentou Wiens.

Já King, do Departamento de Energia, comentou ainda que o design do aparelho foi o principal problema.

"Pense no quão mais simples seria lidar com os problemas do Note 7 se fosse possível remover sua bateria", disse. "Lidar com questões de segurança ao fazer com que se possa remover as baterias em futuras gerações terão como benefício também facilitar a reciclagem de aparelhos também."

Os fabricantes argumentam que raramente consumidores trocam suas próprias baterias. Claro que a demanda por baterias de maior duração é constante, mas uma bagunça como essa mostra porque há diversos motivos para facilitar a troca destas baterias.

"Não será a última vez que veremos um aparelho com bateria superaquecendo ou explodindo. Cada aparelho eletrônico que uso é uma pequena bomba, há muito de química complicada no meio de tudo", disse Wiens. "As baterias nestes celulares estão operando em 90% da sua capacidade teórica máxima. Quando você tenta chegar em 91%, põe em risco a segurança. Estamos ultrapassando esses limites com cada nova geração de celulares."

Bum.

Tradução: Thiago "Índio" Silva