Meu ano na sociedade secreta criada por uma startup de São Francisco
Crédito: Lydia Laurenson

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Meu ano na sociedade secreta criada por uma startup de São Francisco

A ascensão e queda da Latitude, uma sociedade exclusiva e alternativa fundada por um milionário do Vale do Silício.
11.3.16

"Você consegue guardar um segredo?"

Aquela pergunta me pegou de surpresa. Eu não conhecia o Justin muito bem; tudo o que eu sabia é que ele era um barbudo muito simpático que, assim como eu, morava na região da baía de São Francisco, na Califórnia, nos Estados Unidos. Na época ele comandava uma pequena agência de publicidade onde eu, por acaso, trabalhava como redatora e consultora de mídias digitais.

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"Acho que sim", respondi, meio desconfiada. "Acho que consigo guardar um segredo." Justin arqueou as sobrancelhas, descrente. "É claro que eu consigo", insisti.

"Eu ando pensando em te dar uma coisa", falou. Ele estava pensando no tal presente há algumas semanas, desde que leu uma matéria minha sobre o uso de pseudônimos na criação de uma identidade pessoal. "Mas você tem que me prometer que não vai contar para ninguém. Ninguém."

Quando concordei, Justin me entregou um cartão parecido com um cartão de crédito, completamente branco e cortado por uma fileira de zeros pretos. O cartão vinha dentro de uma capinha preta gravada com as palavras "DISCRIÇÃO ABSOLUTA" e um pequeno símbolo hexagonal.

Na parte de trás do cartão, lia-se, em fonte ornamentada, a seguinte uma frase: "Você está convidado a visitar a Casa da Latitude de São Francisco". Abaixo das letras havia o endereço de um site e um código.

O cartão da Sociedade da Latitude. Crédito: Lydia Laurenson

Virei o cartão algumas vezes.

"O que é isso?", perguntei. Sem responder, ele riu quando peguei meu celular, digitei o endereço e inseri o código impresso no cartão. O site era simples e elegante, com uma fonte serifada preta contra um fundo cinza. Depois que digitei o código, o site mostrou duas definições da palavra "discrição (substantivo)". A primeira definia a palavra como o poder de agir segundo os seus próprios critérios; a outra enfatizava as características da prudência e da reserva.

Depois de clicar nas definições, o site me redirecionou para um formulário de Termos & Condições muito intimidador. Assim que aceitei todas as condições, a página mudou para um calendário com horários disponíveis para "marcar um encontro".

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A oferta do Justin, o site bizarro, o encontro misterioso — aquilo tudo havia me deixado sem ar, rindo em descrença. Era como se eu estivesse em um conto de fadas ou como se eu houvesse sido escolhida para algo especial. Não pude deixar de me perguntar qual era o objetivo daquela Sociedade, qual era o segredo que eles tanto queriam proteger. Olhei mais uma vez para o cartão e pensei na quantidade de dinheiro que haviam gastado naquilo tudo.

Segundos depois, eu tinha um encontro marcado.

***

Depois que marquei o encontro, o site me mandou o seguinte email:

O convite vale para você, e apenas você.

Visitar a Casa da Latitude não é para fracos, tampouco para os de constituição delicada. É uma experiência reservada para aqueles dispostos a saltar rumo ao desconhecido.

O email continha um endereço; por fim, fui aconselhada a chegar no horário e, mais uma vez, a manter segredo. Algumas semanas depois, numa tarde de sábado, parei na frente de uma porta cinza no Mission District, bairro de São Francisco. A rua estava cheia de gente — gente normal vivendo mais um dia comum— e eu tentava ao máximo não chamar atenção. Ao lado da porta havia um leitor de cartão com o mesmo símbolo dourado do convite. Olhei para os lados e, em seguida, espetei meu cartão no leitor. A porta se abriu.

Dentro da casa havia um lareira de madeira polida — mas, para minha surpresa, no meio da lareira havia um escorregador de carvalho branco que sumia na escuridão. O escorregador era iluminado por duas lâmpadas escarlates que piscavam sem parar, e eu podia sentir um leve tremor ao seu redor. Não havia nada na sala além do escorregador e uma câmera pendurada acima da minha cabeça. A luzinha sobre as lentes indicava que eu estava sendo vigiada.

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O escorregador. Crédito: Lydia Laurenson

As luzes começaram a piscar mais rápido, e o leve tremor se transformou em um zumbido insistente. O chão começou a vibrar sob meus pés. Meu coração batia forte. Me lancei no escorregador e saí em uma sala mal iluminada, onde encontrei três portas.

Uma figura silenciosa e imóvel me encarava atrás de um guichê coberto por vidro fosco. Acima do guichê, um painel de neon exibia a palavra SHHHH. Suspeitei que a figura fosse um manequim, mas não tinha certeza. Enquanto eu encarava a silhueta, uma gaveta ao lado do guichê se abriu. Dentro dela havia um papel dizendo que eu deveria enchê-la com todos meus objetos pessoais.

Shhhh. Crédito: Lydia Laurenson

Dentro daquela sala silenciosa, lembrei do dia em que Justin me entregou o convite."Quanto tempo isso tudo demora? Vou ter tempo de encontrar meus clientes depois?", perguntei. Ele apenas sorriu e deu de ombros.

Naquele momento, em frente ao guichê, me perguntei se estava prestes a ser amordaçada e jogada dentro de uma van ou talvez levada para fora de São Francisco em um helicóptero. O quão bem eu conhecia o Justin? Não muito. E não fazia ideia de quem havia criado aquele lugar.

Eu me sentia ao mesmo tempo assustada e empolgada, como se estivesse caindo na toca do coelho. Respirei fundo uma, duas vezes, e entreguei meu celular e minha carteira. A figura atrás do vidro parecia estar me vigiando, ainda imóvel.

Quando fechei a gaveta, uma das portas começou a tremer. Tentei abrir as outras duas portas — ambas fechadas — e em seguida abri a terceira, que levava a um túnel escuro. Comecei a engatinhar, e o túnel, cada vez menor, desembocou em uma biblioteca tão minúscula que eu mal podia me levantar. Sentei e admirei as prateleiras imponentes.

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Cada prateleira guardava uma série de livros de capa cinza; suas lombadas diziam A Latitude e eram marcadas com o mesmo símbolo hexagonal do cartão.

A biblioteca. Crédito: Lydia Laurenson

A pequena biblioteca era tão elegante quanto uma pintura renascentista e tão imaculada quanto a Disney. À minha frente, em cima de um pequeno atril, encontrava-se um dos livros cinzentos. Suas páginas estavam todas em branco. No instante seguinte, as páginas se iluminaram e uma voz feminina invadiu a sala.

"Era uma vez uma ilha", sussurrou a voz. "E no seu centro havia uma vila. E na sua costa havia um porto…"

As palavras surgiam nas páginas em branco. Ao lado delas, uma ilustração do mar. Em um lampejo, a perspectiva da ilustração mudou, desviando meu olhar até a base de uma pedra.

Eu nunca havia desvendado um mistério de verdade, e estava completamente obcecada.

Eu não havia sido sequestrada e não havia nenhum helicóptero à vista. Mas aquela aventura havia me feito andar até o Mission District, correndo atrás de mensagens enigmáticas e símbolos hexagonais. Após o fim da fábula, folheei alguns livros das minúsculas estantes. Todos estavam em branco; no entanto, depois das páginas vazias, cada livro continha um índice que começava assim:

Um Trem Fantasma … AZURE 5305

Abraxoids (ou Abraxas Stones) … AZURE 4280

Discrição Absoluta … INDIGO 1937

Zero Absoluto … ONYX 4887

Abydos … OPAL 0121

Administração de Ressonância Solidária … FERN 5457

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Aerodanação… ONYX 6062

Os minutos se arrastavam enquanto eu lia o índice, reconhecendo alguns nomes aqui e ali. Eu já tinha ouvido falar da Sequência de Fibonacci e da cidade mesopotâmica de Niveneh. Reconheci também o nome John Dee, o mago/medievalista que trabalhava como conselheiro da Rainha Elizabeth I. Na letra E, havia um verbete intitulado Estamos Sendo Observados.

Naquele momento, uma voz etérea encheu a biblioteca: "Lydia, siga em frente". Olhei para cima, vi outra câmera me vigiando e sorri.

Da biblioteca, segui para uma sala iluminada fracamente por uma luz alaranjada, mobiliada com sofás escuros e fotos em preto e branco. Em cima de uma mesa de centro havia um crânio de bronze. Um pequeno bar no canto da sala exibia uma garrafa sem rótulo e um copo de gelo muito tentador. Peguei o copo; o gelo era novo, cristalino. Alguém havia estado naquela sala segundos atrás.

Uma sensação perturbadora e excitante me preencheu quando senti que estava sendo observada, testada, avaliada — e também acolhida, esperada e compreendida.

No canto da sala, um telefone antigo repousava sobre uma mesinha. Coloquei o telefone no ouvido e ouvi uma gravação cheia de pistas misteriosas. Retirei meus pertences de um pequeno armário e sentei no sofá preto, sem ousar beber nada. Concluí que, já que eu havia sido expulsa da biblioteca, alguém deveria estar passando por lá naquele exato momento. Quando o homem entrou na sala, convenci-o a desvendar o mistério comigo. No caminho, encontramos outra desbravadora. Peguei o contato dos dois, perguntei quem os havia convidado para a Sociedade e comecei a construir um diagrama mental de seus membros.

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Não costumo gostar de charadas, mas aquilo era algo único. Eu estava louca para descobrir quem eram os outros membros da Sociedade da Latitude. Qual era sua hierarquia interna? Onde eu poderia encontrar seus fundadores?

Eu nunca havia desvendado um mistério de verdade; estava obcecada.

No fim do dia, nossa missão havia nos levado até uma sala cheia de fliperamas. Enquanto jogávamos um dos jogos, uma imagem pixelizada apareceu na tela e recitou uma mensagem misteriosa contendo uma palavra-chave. Essa palavra-chave nos permitiu entrar mais uma vez no site da Latitude, onde descobrimos um Fórum onde todos os participantes usavam nomes fictícios. Reconheci alguns dos nomes utilizados em projetos artísticos da região: o pseudônimo do Justin, por exemplo, era Dr. Professor. Escolhi o nome Noisemaker, um apelido adotado numa ida ao festival Burning Man.

Naquele momento, entrar em contato com os misteriosos criadores da Sociedade se tornou minha grande missão. Os poucos membros com quem eu tinha contato não sabiam muito sobre o funcionamento da Sociedade (ou agiam de forma estranha quando eu pedia mais detalhes). Com ajuda do Google, descobri que a Sociedade era um projeto criado pela Nonchalance, uma associação que já havia criado uma "seita" artística chamada Instituto Jejune.

Descobri muitas informações no Fórum e bombardeei Justin — sob a alcunha de Dr. Professor — com uma série de perguntas. O Dr. Professor me explicou que, no vocabulário da Sociedade, ele era meu ascendente, e eu, que havia sido convidada por ele, era sua descendente. Ele já havia descoberto muitas pistas sobre o mistério da Sociedade, o que fazia dele um membro muito mais importante que eu. Assim, toda vez que eu fazia perguntas mais complexas, ele respondia: "Você realmente quer saber a resposta? Ou você prefere descobrir sozinha?"

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Além do Fórum, o site tinha uma Loja onde podíamos comprar coisas como uma camiseta estampada com as palavras DISCRIÇÃO ABSOLUTA. A ironia da camiseta me rendeu boas risadas, e eu a comprei imediatamente. Por US$25, era possível comprar um convite — um dos cartões brancos que eu havia ganhado. Comprei vários convites, mas só usei um deles; o resto, guardei.

Eu não sabia no que estava me metendo ou o que aconteceria com meus convidados. Mas eu estava doida para descobrir.

***

Comecei a usar minha camiseta em tudo quanto era lugar: ela me ajudava a identificar outros membros da Sociedade. Cheguei até a postar uma foto dela no meu Instagram, movida por um misto de empolgação e receio. Será que eu estava desrespeitando as regras? (Quais eram essas regras?)

Certo dia, saí para almoçar com um artista local. Ao ver minha camiseta, ele riu e falou uma das palavras-chave da Sociedade. Com muita cautela, pedi que ele contasse o que sabia. Ele deu de ombros. "Ah, a Sociedade da Latitude", disse. Naquele momento eu ouvi, pela primeira vez, os nomes dos possíveis fundadores da Sociedade. "Um projeto do Jeff Hull", continuou ele, "da Kat Meler. Essa galera." Agi como se soubesse do que ele estava falando, mas a verdade é que aqueles nomes eram o melhor presente que eu podia ganhar.

Nos meses que se seguiram, os membros da Sociedade começaram a marcar seus próprios encontros. A gente costumava se encontrar para comer ou beber, mas logo criamos nossas próprias tradições. Alguns membros começaram a explorar regularmente algumas áreas públicas privatizadas de São Francisco. Depois de alguns meses, a Sociedade começou a organizar seus próprios Eventos oficiais. O primeiro recebeu o nome de Práxis: uma reunião ritualística na sala que eu havia visitada no meu primeiro dia na Sociedade, aquela com uma caveira de bronze.

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A caveira de bronze. Crédito: Lydia Laurenson

As Práxis começavam sempre com um membro sênior narrando a Fábula:

Era uma vez uma ilha… E no seu centro havia uma vila. E na sua costa havia um porto….

Todos os mestres de cerimônia faziam parte da Affairs Guild, um grupo de voluntários que organizava os eventos da Sociedade. Cada membro da Affairs Guild tinha seu próprio jeito de contar a Fábula, que mudava de acordo com seu humor. Após a Fábula, cada Práxis seguia com diferentes atividades, sempre criativas e ritualísticas.

Minha primeira Práxis foi regida por uma ruiva de vinte e poucos anos, angelical e de voz mansa. Na época pensei que ela pudesse ser a tal Kat Meler.

Com o passar do tempo, entre encontros, festas e Práxis, formei meu próprio grupo de amigos da Sociedade. Eram artistas, gamers e gente estranha em geral. Trocávamos informações sobre a Sociedade e investigávamos seus mistérios. Um exemplo: o site possuía uma página secreta que permitia que os membros utilizassem os códigos presentes nos livros da biblioteca. Vários membros utilizaram essa página para criar uma planilha de termos como "abraxoids" e "abydos", em seguida procurando padrões na incidência de cada palavra.

"Eu me sentia parte de uma comunidade ampla, dinâmica e secreta".

"Os membros estavam sempre animados e focados", me disse Anthony Rocco, membro da Affairs Guild e organizador de várias Práxis. "Todos viam aquilo como prioridade; eles mergulhavam com tudo na proposta. Eu me sentia parte de uma comunidade ampla, dinâmica e secreta."

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Greg Gioia, que trabalhou como barman em vários eventos da Sociedade, disse o seguinte: "Era como se, ao entrar naquela sala, nós entrássemos em um mundo subterrâneo, independente do mundo acima".

Em pouco tempo, os membros criaram outros rituais relacionados à Sociedade. Alguns membros contavam a Fábula para seus filhos antes de dormir. Outros organizavam rituais para convidar novos membros. Lembro de ouvir rumores de que um ascendente levou todos seus descendentes para um túnel de pedra que desembocava numa praia, onde um círculo de pessoas encapuzadas entoando cânticos misteriosos entregou os convites.

Em pouco tempo já me sentia confiante o bastante para convidar outras pessoas. A Sociedade não dava instruções sobre como escolher descendentes — nós sabíamos que o objetivo era convidar "pessoas de mente e coração abertos", mas esse era o único critério fornecido. Resolvi ir com calma, já que não tinha certeza se meus convidados eram adequados para a Sociedade; além disso, os convites não eram gratuitos. Mesmo com essas limitações, comecei a convidar no mínimo duas pessoas por mês. O preço dos convites subiu para US$32, mas continuei a comprá-los. Aquilo estava se tornando um hobby bem caro.

Para ser sincera, distribuir convites era uma das minhas partes favoritas da Sociedade. Cada convidado reagia de forma diferente. Alguns dos meus descendentes se tornaram membros assíduos. Outros passavam pela porta misteriosa, viviam uma aventura e depois voltavam para suas vidas normais. E alguns sequer ativavam seus cartões, alegando, timidamente, que estavam "ocupados demais".

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Sou viciada em networking e, na época, achei que a Sociedade pudesse ser uma boa ferramenta de conexão. No entanto, convidar colegas de trabalho e clientes se revelou uma estratégia arriscada, mesmo quando tudo indicava que eles fossem amar a experiência. Um ex-colega, por exemplo, pareceu muito empolgado e lisonjeado ao receber o convite. "Parece que estou num filme", disse ele quando eu estendi o cartão. Algum tempo depois, ele me devolveu o cartão junto com um bilhete: "Eu comecei a marcar o encontro, mas… Embora o ar misterioso não me incomode (na verdade ele até me interessa), não gostei da assimetria de informação — o fato de dar informações pessoais sem saber para quem ou porquê".

A experiência acabou nos afastando.

Logo percebi que os membros da Sociedade sabiam que muitos convidados nunca usavam seus cartões. Um membro chegou a escrever sobre o assunto: "Fiquei chocado em saber que um número significativo de pessoas nem sequer entra no site. Um amigo senta com você, pede discrição absoluta, te dá um cartão que, quando ativado, abre literalmente uma porta para um novo mundo cheio de aventuras, e você NEM SEQUER ATIVA O CARTÃO? Por favor, galera: melhorem".

Por que alguns de nós sentiam uma atração mórbida pelo mistério, enquanto outros não demonstravam o mínimo interesse?

"Nós estávamos buscando alguma resposta, e a Sociedade era, mais do que uma performance, um lugar onde todos se juntavam nessa busca", disse Thomas Lotze, membro da Sociedade. No dia a dia, Thomas trabalha na área de estatística da Square, uma empresa que lida com processamento de pagamentos. "Um dos objetivos era refletir sobre ideias com calma e atenção. Sinto como se eu gastasse grande parte da minha vida apenas seguindo o fluxo, sem momentos como esses. A sensação de euforia e o calor humano eram muito fortes, e me fizeram entender por que aquele grupo era tão importante".

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Lena Strayhorn, uma compositora experimental e mãe em tempo integral que já trabalhou como diretora de uma ONG, diz que "eu fiquei um pouco confusa, porém fascinada, pelas Práxis. Elas eram um misto de performance artística e reunião de sociedade secreta. A partir de então resolvi me dedicar à Sociedade, construindo esse projeto artístico junto dos outros membros. A cada novo evento, eu me sentia mais imersa naquele arco narrativo comunitário".

Embora eu não soubesse porquê, eu estava completamente obcecada pela Sociedade. Naquele último ano eu havia me apaixonado perdidamente pelo meu novo namorado — e mesmo me sentindo culpada, eu ia a todos os eventos da Sociedade. Eu me esforcei para abrir minha empresa de consultoria, o que me rendeu um emprego maravilhoso numa startup. Minha rotina estava cada vez mais caótica, mas eu sempre tinha tempo para a Sociedade.

Eventualmente, após meses de charadas e distribuição de convites, recebi uma proposta de Kat Meler em pessoa. Ela me ofereceu uma vaga na Affairs Guild, o que me dava a oportunidade de organizar a próxima Práxis com ninguém menos que Jeff Hull, o fundador da Nonchalance.

***

O que é uma rede social? Uma comunidade, um zeitgeist, uma obra de arte?

A internet criou novas formas de compreender, utilizar e monetizar as relações humanas. Quanto mais as mídias sociais crescem, mais padronizadas elas se tornam. Eis um exemplo: quando se cria uma rede social, a etiqueta manda que ela seja exclusiva, mesmo que o objetivo seja expandir o público no futuro.

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Esse é um dos motivos pelos quais as startups limitam seu número inicial de usuários; afinal, é sempre bom testar um produto num pequeno grupo antes de tentar atender milhões de membros. O segundo motivo é o foco: é mais fácil agradar um mercado específico do que a população mundial. O terceiro motivo é fazer com que os usuários se sintam especiais. Uma rede social exclusiva é, afinal, muito mais empolgante.

Isso é relevante, visto que a Sociedade da Latitude era, na verdade, financiada por uma startup, a Nonchalance.

O fundador da empresa, Jeff Hull, abriu a Nonchalance no começo dos anos 2000. Entre seus funcionários estavam Kat Meler e muitos outros artistas, community-builders e engenheiros. O capital veio da herança de Jeff; seu pai, Blair Hull, vendeu uma empresa de trading automatizado para a Goldman Sachs em 1999 por US$531 milhões.

Dentro da Sociedade, Jeff se apresentava como "O Benfeitor Anônimo", participando esporadicamente de discussões online e eventos. A estratégia de crescimento da empresa era discutida apenas dentro da Nonchalance, onde Jeff teria anunciado a ideia de monetizar a Sociedade e torná-la auto-suficiente. Isso não seria muito fácil, uma vez que a Sociedade era um empreendimento caro que contava com designers especializados, dezenas de funcionários e espaços elaborados, incluindo vários imóveis alugados por toda São Francisco. A sede da Sociedade levou três anos para ser construída, e um dos membros da equipe me disse que Jeff havia investido, no total, dois milhões de dólares na Sociedade da Latitude (Jeff não confirmou nem negou essa cifra). Era óbvio que se a empresa dependesse da venda de convites e camisetas, eles nunca recuperariam o dinheiro investido por Jeff.

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Se o plano de crescimento da Nonchalance imitava as estratégias utilizadas nas mídias sociais, seus problemas também. A semelhança mais óbvia é o uso da estratégia "crescer, depois lucrar", adotada por muitas startups.

Para completar, a empresa enfrentava seus próprios problemas, como questões pertinentes à Experiência do Usuário de Primeira Viagem (muitas startups usam a sigla FTUE, vinda do termo original). O aspecto exclusivo da Sociedade seguia à risca a cartilha das mídias sociais; entretanto, sua FTUE era extremamente difícil de controlar, considerando que muito dela acontecia em locais que estavam fora do controle da Nonchalance.

A aventura inicial da Sociedade, por exemplo, estava sujeita à complicações extremamente mundanas. Quando comecei a distribuir convites, me acostumei a receber mensagens dos meus descendentes sobre problemas técnicos ("Cheguei à terceira fase, mas a porta não abre!") ou pura confusão ("O bartender me deu uma moeda especial da Sociedade, mas quando tentei usar ela na jukebox do outro lado da rua ela parou de funcionar… acho que fiz besteira. Como eu consigo outra moeda?"). Alguns dos meus descendentes só chegaram à metade de suas FTUE, nunca concluindo a aventura. Em outras palavras, todos essas falhas eram resultado de um produto defeituoso.

Outro fator difícil de controlar era o processo de convocação. Alguns membros, eu inclusa, pensavam cuidadosamente antes de convidar alguém. Outros não tinham o mesmo cuidado. Muitos levavam seus cartões para todos os lugares, dando-os para estranhos interessantes sem nem mesmo deixar um telefone para contato. Para resolver esse problema, a Nonchalance criou um guia que ensinava o que os ascendentes deveriam dizer a seus descendentes. Eventualmente, a empresa passou a imprimir essas instruções na capa do cartão, onde os compradores seriam obrigados a lê-las.

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O novo cartão. Crédito: Lydia Laurenson

Quanto mais eu conhecia o funcionamento da empresa, mais curiosa eu ficava. Era estranho saber que minha tão amada Sociedade — a quem eu dedicava cada vez mais tempo e energia — era "só mais uma startup de São Francisco". Mas será que isso fazia dela uma iniciativa vazia? Algo sem significado?

Muitas pessoas saíam da Sociedade logo após serem convidados, dizendo que sua mitologia elaborada não passava de uma estratégia de marketing. Outras acreditavam que o projeto era realmente perigoso. Uma das críticas mais articuladas à Sociedade veio de Rebecca Power, diretora-executiva do estúdio experimental Quixote Games; hoje ela trabalha como artista residente da área de design de jogos do Museu de Arte Moderna de São Francisco. Rebecca, que assim como eu foi umas das primeiras convidadas da Sociedade, cancelou sua conta logo após se inscrever.

Rebecca me enviou um email com uma lista de críticas ao projeto.

Quando falo sobre a Sociedade da Latitude, acabo sempre batendo na tecla da responsabilidade corporativa. Todos os membros concordaram com os Termos de Serviço — mas o que muitos não notaram é que esses termos não incluíam um procedimento formal para sair da Sociedade. Eu sabia que os funcionários estavam nos vigiando, mas quem estava vigiando eles?

O uso das experiências imersivas no entretenimento comercial é algo muito novo, e que como tal, possui pouca legitimidade. Caso algum acidente ocorresse na Latitude, como isso afetaria o trabalho de artistas como eu? Pior ainda: o que significaria para nós, artistas, caso a Sociedade da Latitude tivessse sido um sucesso?

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Recebi meu convite de um conhecido. Após minha primeira visita à sede da Sociedade, ele me mandou uma mensagem no Facebook dizendo que tinha me visto nas câmeras de segurança. Na época aquilo não me incomodou tanto. É claro que ele havia estragado parte da graça da experiência, mas existiam várias outras formas de participar do projeto sem interagir com ele. Em seguida outro funcionário deu um cartão para meu namorado, dizendo que eu já estava na Sociedade há várias semanas. Isso não foi muito bom para nosso relacionamento. Por fim, na minha primeira e última Práxis, outro funcionário contou ao grupo onde eu trabalhava, revelando minha identidade.

Pedi que desativassem minha conta no mesmo dia. A partir daquele momento, me tornei um risco de segurança. Conhecidos me ameaçavam, dizendo que eu me arrependeria caso falasse sobre a Sociedade. Um dos meus colegas de casa parou de me dizer aonde ele ia toda vez que saía. Amigos em quem eu confiava começaram a entrar em contato para descobrir o que eu sabia sobre a Sociedade. Não posso afirmar que a Nonchalance encorajava esse tipo de comportamento, mas eles deveriam tê-lo previsto. O fato da Nonchalance não ter nenhum procedimento destinado a identificar, repreender e corrigir o comportamento antagônico resultante de seu produto, e a falta de interesse em criar tal procedimento uma vez que esse comportamento tornou-se óbvio, demonstra uma falta de preocupação em relação a seus consumidores que, caso adotada por outras indústrias, resultaria em multas ou processos.

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Sei que a vida de algumas pessoas mudou para melhor graças à Sociedade da Latitude. Não é de meu interesse denegrir essas experiências, tampouco culpar todos os membros da Sociedade pela ação de poucos. Mas a minha experiência — cheia de paranóia, intimidação e pessoas inexperientes usando um poder inventado para me aterrorizar — é igualmente real, igualmente produto do projeto desenvolvido pela Nonchalance. Como eu posso elogiar a beleza de um projeto, se seus criadores não assumem responsabilidade pelo seu lado feio?

As questões levantadas por Rebecca se assemelham às críticas direcionadas à empresas de mídias sociais, que muitas vezes têm que lidar com problemas como assédio e omissão (a questão do assédio no Twitter, por exemplo, é lendária).

Entretanto, mesmo ouvindo histórias como a de Rebecca, a Sociedade continuava a me oferecer experiências maravilhosas. Eu acreditava que a Nonchalance tinha capacidade de agir de forma correta — e estava disposta a fazer de tudo para ajudar.

***

Jeff Hull é um homem de quarenta e poucos anos. Sua cabeça é raspada, e ele ostenta uma barba muito bem cuidada. Sentado num dos sofás da sala do crânio de bronze, Jeff parecia à vontade. Durante nossas primeiras conversas, evitei falar demais para não parecer uma fã desesperada. Na época, eu me sentia feliz e honrada por ter a oportunidade de organizar uma nova Práxis com o criador da Sociedade.

Naquele dia havia um outro membro da Sociedade conosco, Anthony Rocco. Juntos, nós três organizamos uma Práxis chamada "Fable Exquisite Cropse". O nome era uma homenagem ao jogo surrealista Exquisite Corpse, no qual os participantes criam uma história ou desenho juntos.

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Subi no sofá à frente de Jeff e perguntei: "Eu posso ler uma cópia da Fábula antes de começar? Acho que não lembro dela muito bem".

"Ela nunca foi escrita", disse Jeff. "A Fábula nunca é registrada", acrescentou ele enfaticamente. "Mas você já a ouviu várias vezes — você sabe ela de cor. Lembra? A ilha, a vila, o porto…" Ele repetiu a Fábula, e eu memorizei cada detalhe.

Acendemos velas e arrumamos a mesa de lanche. Quando os doze convidados entraram na sala, pedimos que eles se sentassem nos sofás. Iniciamos a Práxis com nosso ritual de abertura e em seguida explicamos como o jogo funcionava.

Era uma vez uma ilha…

"Uma ilha tropical, com uma linda praia", completou uma pessoa.

E no seu centro havia uma vila, e na sua costa, um porto…

"O porto recebia especiarias do mundo inteiro", disse outra.

"Na vila, os telhados eram quase todos azuis", disse uma terceira.

"Mas alguns telhados eram amarelos e verdes", disse uma quarta.

"Haviam leis que diziam quais cores eram permitidas", disse outra.

"E batalhas políticas para decidir quem usaria qual cor", acrescentei.

O jogo durou uma hora. Nós inventamos detalhes sobre a vila, elaboramos sua cultura e exploramos as motivações de seus heróis. No final do evento, quando os membros foram embora e organizávamos a sala, Jeff disse a Práxis tinha sido "ótima".

Anthony e eu ficamos radiantes.

***

Muitos membros eram obcecados — ou até mesmo apaixonados — pela Sociedade da Latitude. Mas qual era o plano da Nonchalance?

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Uma série de slides recentemente postados no Slideshare mostram como a Nonchalance tentou vender seu projeto. O slide nº 6 coloca a Sociedade no centro de três círculos de um diagrama: "Comunidade Par-a-Par", "Social Gaming" e "Eventos Culturais".

No slide nº 7 lê-se: "Um Serviço Multimídia e Dinâmico, com Múltiplos Fluxos de Receita". Entre os fluxos, o slide menciona "propagandas" e "serviços de assinatura".

Na metade de 2015, a Nonchalance inaugurou seu serviço de assinatura, adotando o que chamamos de paywall. Sem a menor cerimônia, a Sociedade anunciou que muitos benefícios oferecidos aos membros — como as Práxis e outros eventos oficiais — só funcionariam para membros pagantes. Não é de se surpreender que essa decisão tenha causado um rebuliço; qualquer um que se lembre de quando o New York Times institui seu sistema de assinatura digital concluiria que os membros da Sociedade também ficariam revoltados.

De início, assim como São Francisco, a Sociedade não parecia criada para pessoas ricas — até o momento em que ela passou a ser.

Havia outros motivos para revolta. Muitos de nós havíamos dedicado horas de trabalho voluntário para a Sociedade, o que tornava essa mudança ainda mais injusta. Além disso, a maior parte dos membros não tinha dinheiro suficiente para pagar a assinatura anual, que custava centenas de dólares. A Sociedade tinha sua cota de "aristocratas da tecnologia", mas se a assinatura era cara demais até para esses engenheiros, ela era exorbitante para nós, artistas e assistentes sociais. Por esses e outros motivos, o serviço pago não agradou a comunidade, criando, ainda por cima, uma hierarquia monetária onde antes havia uma hierarquia de criatividade e disposição. Aquela era uma nova — e nada bem vinda — forma de exclusividade.

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O anúncio foi um choque para aqueles membros que se esforçavam para sobreviver numa cidade que estava se tornando a mais cara do país. De ínicio, assim como São Francisco, a Sociedade não parecia algo criado para pessoas ricas — até o momento em que ela passou a ser. Quando se vive em São Francisco, é comum se sentir preso em um parquinho de crianças ricas — e ninguém gosta de ser tratado como um brinquedo.

E por último: por que continuaríamos a trazer novos membros para a Sociedade, quando sabíamos que nossos descendentes seriam obrigados a pagar? Enquanto isso, no Fórum, um tópico intitulado "Quando um presente vem com nota fiscal" crescia a cada dia.

Hoje há uma lista de todos que trabalharam na Sociedade da Latitude (é possível ter uma noção da escala da operação lendo o Epílogo escrito por Jeff e publicado no site da Sociedade. Nele, apareço sob o codinome Noisemaker. Como o site está constantemente fora do ar, aqui vai uma screenshot do Epílogo.) Quando eu entrei na Sociedade, entretanto, era difícil determinar quem realmente trabalhava lá, já que não havia nenhum lista de funcionários, e ninguém citava a empresa em seus perfis no LinkedIn. A funcionária mais proeminente era Kat Meler. Ela organizava todos os eventos — quando a biblioteca foi construída, ela passou horas esfregando o carpete com óleo de vetiver — e por consequência, ela recebeu grande parte das críticas ao novo sistema.

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Embora Kat estivesse obviamente triste por ter que dar aquela notícia, ela permaneceu firme. A Nonchalance precisava ganhar dinheiro, ela dizia. Outros funcionários da Nonchalance, incluindo Jeff, frequentavam os eventos e postavam no Fórum para demonstrar apoio. Os membros da comunidade começaram a pensar em novas formas de dar dinheiro para a Sociedade. Centenas de pessoas assinaram a versão paga.

Outros detalhes, alguns deles condenáveis, também vieram à tona na mesma época. Descobri que Uriah Findley, o mais antigo funcionário da Sociedade, havia abandonado o projeto. Uriah estava na Nonchalance desde antes da Latitude, e sua saída inaugurou um período de grandes mudanças (algum tempo depois, Uriah me disse que "eu fui, para todos os efeitos, a mão-direita de Jeff por anos, mas a empresa estava mudando demais").

Logo vieram os rumores de que Jeff planejava abandonar todos os eventos físicos, transferindo a Sociedade para o mundo digital. Soube por outro funcionário da Nonchalance que Jeff nos achava "mimados", e que ele estava irritado por ter comprado um presente de US$2 milhões que ninguém sabia apreciar. Uma outra pessoa me disse que a Nonchalance não tinha uma tabela de perdas e ganhos, o método mais básico de monitorar transações fincanceiras — o que significa que a empresa não tinha um plano de monetização aplicável. Isso gerou várias dúvidas entre os membros: considerando que Jeff era estupidamente rico, será que ele entendia que ela quantia era alta demais? Ou: será que ele quer expulsar todos os membros pobres da Sociedade?

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Alguns meses depois, fiquei sabendo que, após o anúncio do novo sistema de assinatura, Kat e outros funcionários entregaram seus avisos prévios. Em seguida, fomos pegos de surpresa pela publicação de uma matéria sobre a Sociedade, aprovada pelo próprio Jeff. A quebra de sigilo já era chocante por si só, e, para completar, a matéria trazia muitas opiniões maldosas da parte de Jeff.

"Eu odeio isso, acho uma estupidez", teria dito Jeff em relação a uma iniciativa da comunidade. Ele também disse que "gostaria de expulsar algumas pessoas. Minha equipe é um pouco mais compreensiva do que eu, mas tem muita gente que eu adoraria expulsar. A Sociedade não é para todo mundo. Nem mesmo para todo mundo que acha que tem direito de estar lá".

É claro que os membros ficaram confusos e machucados, e o Fórum se encheu, mais uma vez, de mensagens exaltadas.

Menos de uma semana após a publicação da matéria, Jeff tirou o site do ar. A página exibia apenas uma notificação dizendo que a Casa da Latitude de São Francisco havia chegado ao fim. O cancelamento foi tão repentino que eu tive que entrar em contato com duas pessoas para dizer que seus compromissos misteriosos, marcados para o final da semana, nunca iriam acontecer.

***

A Sociedade fechou suas portas no dia 28 de setembro de 2015. Eu havia conseguido um novo emprego, e era lá que estava quando recebi uma ligação do Dr. Professor.

Meu ascendente — sempre alguns passos à minha frente — havia se tornado diretor da Affairs Guild, trabalhando em muitos outros projetos internos da Sociedade. Meu coração acelerou quando atendi a ligação — e congelou quando ouvi suas palavras.

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"A gente ia organizar a Práxis de hoje" disse o Dr. Professor. "Mas eu acabei de saber que o Jeff vai fechar a Sociedade".

Meu estômago se revirou, mas eu não estava surpresa. "Ah…", respondi. Levantei da minha cadeira e saí do escritório para que nenhum dos meus colegas me ouvisse.

"O que a gente vai fazer?", perguntei ao sair da sala.

"Não sei".

"Quem mais sabe?"

"Quase ninguém, por enquanto. Acho que só eu, você e os funcionários. Pra ser sincero, eu só estou te falando isso por causa da Práxis de hoje à noite".

"Quando ela vai fechar? A gente ainda pode entrar na sede para fazer a Práxis?"

"Eu não tenho nenhum detalhe. Estou mais preocupado com o que a gente vai dizer para os novos membros", disse o Dr. Professor. "Quer dizer, será que a gente deveria fazer essa Práxis com os novatos mesmo sabendo que a Sociedade vai acabar?"

Mordi meu lábio. Essa é minha última chance de conduzir uma Práxis, pensei. "Sim", respondi.

"Nesse caso", disse ele, "eu vou conferir se a gente ainda pode entrar na sede. Mas a gente não pode fazer o ritual de entrada na Sociedade, tá? A gente só vai dizer o que ela significa para a gente".

***

Logo após o fim da Sociedade da Latitude, Jeff publicou um comunicado em seu Facebook. Alguns membros da Sociedade copiaram o texto e o enviaram para o resto da comunidade. Uns reagiram com raiva; outros, com empatia.

"Tenho carregado uma pedra montanha acima há quatro anos e ela estava cada vez mais pesada. A Sociedade foi meu empreendimento mais audacioso (além da paternidade), e chegar ao topo significava 'sucesso'. Recentemente, à medida em que meus ombros começaram a fraquejar sob tanto peso, olhei para os lados e, sem ver nenhuma possibilidade de salvação, decidi tomar a decisão mais razoável: desistir"."

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Após fechar a Sociedade, Jeff escreveu uma espécie de ensaio sobre sua história: "Sempre me perguntarei como um jogo criado para oferecer encanto, inspiração e diversão trouxe tantos traumas para os envolvidos".

Tentei entrar em contato com Jeff por meio do Facebook para saber um pouco mais sobre o que ele sentia, mas descobri que ele havia me excluído da sua lista de amigos (junto de outros membros da Sociedade). Na época, ouvi rumores de que Jeff não estava presente no desmonte da sede; ele teria organizado tudo remotamente. Eventualmente, Jeff concordou em dar uma entrevista, durante a qual ele se recusou a responder qualquer pergunta sobre o fechamento da Sociedade, alegando que ele já havia escrito tudo que queria dizer.

A Sociedade nasceu de um sonho, mas agora ela precisava de atenção. Todo produto começa com um protótipo que vai sendo modificado e aperfeiçoado com a ajuda de seus usuários. Kat Meler afirma que "quase 1.200 pessoas entraram na Sociedade, e nós tínhamos entre 200 e 250 membros pagantes" (outra estimativa sugere que o número de membros chegava aos 2.000)".

Alterar um produto utilizado por dois mil usuários (dentro dos quais 200 pagantes) exige muita habilidade. Mudanças exigem paciência, calma, empatia e humildade. A história da Sociedade da Latitude é uma metáfora sobre a inventividade e as falhas da cultura tecnológica de São Francisco.

Eu sempre me perguntarei por que Jeff sentiu o impulso de se afastar de grande parte dos membros e funcionários da Sociedade, muitos dos quais ele havia treinado. Talvez ele se sentisse rejeitado. Talvez ele se sentisse fracassado como empresário — ou como artista.

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Mas embora muitos membros da Sociedade se considerem abandonados, muitos ainda se sentem gratos.

"Para mim, aquilo foi o começo de algo incrível", conta Naomi Rifkin, 46, coordenadora de uma escola autônoma de Oakland. "Por mais horrível que o fim da Sociedade tenha sido, acho que no final foi bom entender que ela não dependia só de seu criador. Jeff criou algo que não o pertencia — uma mentalidade criada e espalhada por nós. As amizades que fiz são a coisa mais valiosa que já tive na vida".

Ao contrário de Jeff, seus funcionários foram muito sinceros quanto ao fim da Sociedade. Nem mesmo os funcionários mais importantes sabiam que a Sociedade iria ser fechada. Muitos sentiram um misto de tristeza, raiva e vergonha — além, é claro, do medo de ficar desempregado.

Parte desse medo estava ligado ao fato de que Jeff era dono de toda a propriedade intelectual criada dentro da Sociedade. Os funcionários haviam assinado um acordo de não-divulgação, o que proibia que eles incluíssem o projeto em seus currículos (Uriah me contou, por exemplo, que meses após sua saída da Nonchalance, Jeff pediu que ele retirasse uma frase muito usada por ambos de seu portfólio).

Enquanto isso, no Facebook, muitos funcionários postavam o seguinte texto:

"Se você recebeu um convite misterioso para Algo, sinto informar que esse Algo não existe mais. Lamento que você tenha perdido a oportunidade de conhecê-lo, pois ele era fruto do trabalho de muita gente talentosa.

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Se eu não te convidei, me desculpe. Meu plano era distribuir vários convites ainda essa semana. Tento não ter arrependimentos, mas minha falta de timing ainda me dói.

Outras coisas virão.

Mas se você tem um desses cartões, você está segurando um fóssil.

Me desculpe".

"Uma das qualidades da Sociedade era o fato dela ser um refúgio, um lugar onde todos podiam interagir e se aproximar de forma muita íntima", disse Kat por email. "Mas eu não me interesso mais por projetos 'secretos'. Meu objetivo agora é focar na palavra 'surpresa'. Uma surpresa é um segredo que dura por um período limitado, e que é sempre compartilhado. Eu não quero mais ter esse tipo de expectativa".

***

No dia em que a Sociedade da Latitude chegou ao fim, cerca de cem membros se encontraram no Sycamore, um bar muito frequentado durante o início do projeto. Uma tempestade de mensagens atingiu ascendentes, descendentes e grupos internos da falecida Latitude. As mensagens vinham aos poucos; afinal, nós tínhamos perdido o Fórum, nosso principal meio de comunicação. Muitos não sabiam os nomes "reais" dos outros membros.

"O que aconteceu?"

"Eu não acredito!"

"Será que isso é uma brincadeira do Jeff?"

"Calma, quem é Jeff?"

"Jeff é o nome verdadeiro do 'benfeitor anônimo'. Eu não acho que seja uma brincadeira… Você viu o que ele postou no Facebook?"

"Ei, eu soube que a galera vai se encontrar no Sycamore…."

No final da noite, esbarrei com uma amiga da Sociedade no caminho para casa. Ela segurou meu braço e, em silêncio, me deu um hexágono feito de arame. No seu braço, ela carregava uma cesta cheia de hexágonos. Eu havia perdido o encontro no Sycamore; eu e o Dr. Professor estávamos chefiando nossa última Práxis. O ritual foi estranho; seu objetivo original era apresentar novos membros à Sociedade, mas ele acabou virando um velório.

Após a Práxis, entrei na pequena biblioteca e abri o livro para ouvir a Fábula pela última vez. Comecei a filmar. Dois minutos depois, ouvi a voz do Dr. Professor.

"Lydia! Lydia!" Ele estava usando meu nome verdadeiro.

"Só um minuto! Estou gravando", gritei de volta.

"Não!" ele gritou, entrando na pequena biblioteca. "A Fábula nunca é escrita. Ela nunca é gravada. Essa é uma das nossas tradições!"

"Nada disso existe mais", respondi. "Se eu não fizer isso, a gente nunca mais vai ver a Fábula!"

"Estou muito decepcionado com você", disse ele, visivelmente alterado. "A Sociedade pode ter acabado, mas suas tradições ainda importam". Depois de dizer isso ele se acalmou um pouco. "Por favor", sussurrou. "Eu não quero ficar com raiva de você. Por favor, não faz isso."

Brigamos por cinco minutos, e no final eu desisti. Ao me arrastar para fora da biblioteca, senti vontade de chorar. Uma hora depois, quando meu ascendente estava distraído, entrei de novo na biblioteca e gravei a Fábula.

"Nossa ideia era criar uma sociedade secreta que fosse importante e que tratasse bem os seus membros".

Enquanto escrevia essa matéria, me perguntei se deveria ou não publicar a gravação. Pedi a opinião de três pessoas, entra elas Kat Meler e Jeff Hull. Em seu pequeno email, Jeff respondeu o seguinte: "Não acho que nenhum dos materiais deveria ser mantido em segredo. Todo mundo já conhece a Sociedade". Kat, a narradora da Fábula, escreveu: "Eu adoraria que o vídeo da Fábula fosse publicado".

A terceira pessoa foi Uriah Findley, o designer que criou a Fábula. "A Fábula é o trabalho do qual eu mais me orgulho", disse. "Eu respeito o desejo de tratar nossas tradições inventadas como reais; muita gente quer acreditar nelas. Mas a Fábula é uma das coisas mais bonitas que criamos, e eu adoraria que outras pessoas a admirassem".

"Eu espero que as pessoas entendam que nosso objetivo era criar algo especial", acrescentou Uriah. "Muita gente acha que a gente só queria dinheiro. Mas nós acreditávamos que a Latitude só sobreviveria caso ela conseguisse se manter sozinha. Nossa ideia era criar uma sociedade secreta que fosse importante e que tratasse bem os seus membros.

"Nós acreditávamos que a Sociedade da Latitude poderia oferecer algo que não existe no mundo moderno, e nós queríamos compartilhar isso com outros".

Aqui está o vídeo. Eu queria fazer mais um ritual, distribuir mais cartões misteriosos, oferecer a todos vocês a oportunidade de conhecer a Sociedade da Latitude. Mas como nada disso é possível, teremos que nos contentar com uma fábula.

Tradução: Ananda Pieratti