“Não falar de política é um privilégio que eu não tenho”, diz Elysia Crampton
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“Não falar de política é um privilégio que eu não tenho”, diz Elysia Crampton

Parte do line up do festival Novas Frequências, a compositora norte-americana fala ao THUMP sobre a apropriação do mercado sobre sua transgeneridade e seu fazer musical e teórico.

Elysia Crampton poderia ser a persona peculiar perfeita a ofuscar sua própria música. A mulher trans norte-americana de ascendência aymara — um povo indígena dos Andes — descreve seu trabalho em termos complexos e palavras polissilábicas; muitas das quais não couberam nessa (já longa) entrevista feita por e-mail com a compositora, que se apresenta nessa sexta (2) em São Paulo e no sábado (3) no Rio de Janeiro, como parte do lineup do festival Novas Frequências.

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Elysia poderia ser, mas não é. Isso porque sua composição — iniciada em seu projeto de samples e colagens E+E, expandida em suas colaborações no teatro e com coletivos como NON e N.A.A.F.I e registrada oficialmente em Demon City, lançado em julho de 2016 pela Break World Records —, uma mistura calmamente costurada das muitas influências e inspirações (musicais e não-musicais) de Elysia (a cumbia, os sons industriais, o bass do Reino Unido, o folclore de seu povo, a violência sofrida pelas pessoas transgênero, a academia) a coloca no mapa das experimentações musicais globais.

Feito como um álbum coletivo, Demon City tem participações de Why Be, Rabit, Chino Amobi e Lexxi, e cunhou do termo severo, definido por Crampton como uma "acumulação ou acréscimo", para explicar sua estética. Poucos meses após o lançamento do álbum, quando conversamos, Elysia parece estar muito menos preocupada com o rótulo carregado por sua música e sua persona, e mais em como "lidar" ou "sobreviver" em um mercado por ela definido como "maculino, branco e cis/hétero."

Sua música é considerada pela mídia como muito política. Como você evita seguir caminhos clichê ao fazer "música política", uma vez que tem-se falado muito sobre isso recentemente?
Elysia Crampton: Nunca houve um momento decisivo para tornar a minha música política. Por alguma razão, nas primeiras vezes em que fui entrevistada — por causa do que eu estava vivendo na época, ou talvez pela minha experiência em geral — eu incorporei o que eu acredito que as pessoas chamariam de "linguagem política" na discussão. O político tem um longo relacionamento com músicos, então eu não acho que isso seja algo novo.

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Pra mim, sempre foi sobre sobrevivência — normalmente, eu não tenho escolha senão incorporar essa linguagem na minha vida como uma maneira de tentar entendê-la e lidar com a violência e os problemas que eu tenho que confrontar todos os dias. Não falar de política é um privilégio que eu não tenho no momento!

Você descreveu a estética de Demon City com a palavra "severo". Pode explicar esse conceito um pouco melhor?
Não fui eu que inventei o termo "severo". A Lexxi começou a usar o termo anos atrás, como uma maneira casual de descrever a música que estávamos fazendo dentro do nosso grupo de amigos. Nós ressuscitamos o termo porque — sendo Demon City um lançamento oficial de selo — pediram que criássemos definições, então eu tentei obedecer.

Como você deve suspeitar, eu não sou alguém que particularmente aprecia gêneros. Mas eu acho que estamos indo pra cada vez mais longe de uma cultura que valoriza essa forma de categorização como necessária para entender trabalhos ou estilos musicais que estão florescendo. A coisa mais prejudicial sobre a marcação de gênero é que ela, muitas vezes, pode levar a diminuir o potencial de um grupo de artistas ainda aprendendo a se comunicar musicalmente — especialmente numa economia de mercado que exige objetos de consumo sólidos, legíveis e claramente definidos.

Você estabelece contato com muitos coletivos diferentes ao redor do mundo, como a NON e o NAAFI. Quão enriquecedor é isso para você e sua música?
Eu não penso muito nisso — os relacionamentos que formei são ou como velhos familiares de lugares em que eu morei ou frequentei (como Virginia ou Londres) ou apenas formados organicamente pelas diversas viagens que fiz para ganhar dinheiro e permanecer uma cidadã americana.

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Tendo o privilégio de trabalhar com agentes esse ano, a quantidade de música a que eu fui exposta nas minhas viagens provavelmente passou de tudo que eu ouvi nos últimos quinze anos da minha vida juntos! Ainda tenho muito a processar mas, pra ser sincera, eu sou uma garota antiquada que ainda vê valor em música clássica e jazz, que é o que eu ouço a maior parte do tempo. Eu tenho escutado muito Weather Report e música barroca, por exemplo.

Você trabalhou com composições para o teatro. Como essa experiência foi incorporada em Demon City?
Eu amo a ideia do teatro — tem tanto que ainda não foi feito naquele contexto. Tendo uma experiência muito pequena nesse campo, eu queria explorar isso um pouco mais, e já que o álbum foi produzido com o trabalho dos meus amigos, eu contrapus isso com uma apresentação que nasceu principalmente de meu próprio trabalho e esforços.

Eu vejo o álbum como um limbo que saiu de um corpo de trabalho maior, que é muito cru mas altamente conceitual ao mesmo tempo. Terminando uma turnê extensa na Europa, eu estou aprendendo quais são os melhores espaços para exibir tais performances e, ao mesmo tempo, fazer com que seja divertido tanto pra mim quanto para o público. Galerias podem ser espaços muito neutralizadores, mas há um tipo de participação diferente que pode acontecer numa galeria mas não é tolerado num espaço como um bar ou uma balada.

Como, na sua opinião, a relação do clube e da música eletrônica com as pessoas LGBT mudou ao longo dos anos?
Eu não tenho certeza se essa relação mudou muito. É aí que o conhecimento e a conservação das nossas próprias histórias torna-se crucial. Parte da minha apresentação envolvia trabalhar com arquivos do Colectivo TLGB da Bolívia, e meu amigo David, que graciosamente me deixou usar essas imagens (que foram digitalizadas).

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Parece que nós [população LGBT] só somos úteis quando podem tirar algo de nós. Mas essa redução acontece a tantos dentro desse sistema de capitalismo racial, não só aos LGBT. Nesse ano, eu experienciei tentativas de inclusão das empresas nos Estados Unidos e na Europa, mas é de quebrar o coração quando você percebe que está sendo usada como uma 'face da diversidade' para uma instituição completamente masculina, branca e cis/hétero, que está simplesmente tentando tirar o deles da reta e não mudando nada estruturalmente.

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Você fala de um ponto de vista muito específico — o de uma mulher transgênero latina. O quão importante é, pra você, que as pessoas se identifiquem com a sua música — especialmente pessoas marginalizadas?
A maioria dos termos em que sou categorizada são, na verdade, jogados a mim; coisas que me impedem a chance de corrigir ou editar em matérias, por exemplo. Termos como "mestiça", "latina" e "marginalizada" entram nessa categoria, e são rótulos que eu não gosto até certo ponto. Sobre "latinidade", eu não tenho uma grama de sangue espanhol em mim — apesar de sempre ser rotulada latina na rua, assim como me rotulam indígena, mas ninguém perguntará sobre meu sotaque irlandês. Eu tenho ascendência aymara e irlandesa. Os aymara são um povo da região dos Andes. Em último lugar, sobre o termo "marginalizada" — eu não gostaria de me definir pela violência e opressão que eu vivo; prefiro muito mais focar nos privilégios que já tenho.

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Desde o começo, escrever música me manteve em contato com a minha comunidade — minha comunidade LGBT e indígena, por exemplo. Isso me deixa muito grata e provoca em mim um desejo de ser o quão honesta quanto possível no que faço — com composição, com música, com essas entrevistas difíceis, pelo amor de Deus! — não particularmente por causa de dilemas éticos, mas porque ter qualquer noção da experiência de alguém e a capacidade de explicar a realidade de uma maneira sensata e inteligível não é uma tarefa simples!

Você utiliza de uma linguagem muita acadêmica e complexa pra falar da sua música. Você acredita que isso pode fazer com que o seu trabalho não seja tão inclusivo quanto você gostaria que fosse?
Essa é uma ótima pergunta, mas eu não gosto da lógica binária por trás dela, porque alguém não precisa necessariamente sempre se conectar ao outro do mesmo jeito. Minha família aymara me ensinou a valorizar a existência da inconsistência e contradição juntas, já que essas coisas coexistem no nosso dia-a-dia. A teoria é secundária no meu fazer musical. Se eu pudesse colocar ideias em uma linguagem burguesa facilmente, eu provavelmente não teria a ansiedade, necessidade ou desejo de escrever música em primeiro lugar.

Minha música carrega um valor e significado diferente para pessoas e grupos diferentes — para alguns, nem conta como música! Usar uma linguagem acadêmica foi, parcialmente, uma ferramenta de sobrevivência — uma tentativa de ser levada a sério por um público com quem eu sentia não ter mérito algum. Eu admiro o mundo da teoria, [mas] é trágico que o conhecimento esteja se tornando cada vez mais mercantilizado, privatizado e policiado — isso é algo que precisa mudar.

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Eu só posso falar da minha própria experiência, mas a música em si (os dados, os sons gravados, a mídia em que ela é tocada, etc) também tem uma experiência que vai além de mim, já que ela pode encontrar muitas pessoas diferentes com quem eu posso nunca ter a chance de conversar ou conhecer nessa vida. Esse é um fato bem simples, mas que ainda me impressiona.

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Você sabia que o Brasil é o país que mais mata transgêneros no mundo? Você está planejando algo que tenha a ver com violência contra pessoas transgênero nas suas apresentações aqui?
Eu tenho cuidado para não viver a minha vida baseada em rumores que ouvi sobre outros países, porque minha experiência muitas vezes me conta outra história. Minha mãe nasceu no Brasil, eu tenho família lá mas não visito o país desde que era adolescente. Ser uma cidadã dos EUA me garante muitos privilégios quando visito outros países — o que significa que fico fechada em uma bolha de classe que me protege de perigos que eu teria que lidar se estivesse sozinha.

Obrigada por me fazer esta pergunta porque você me lembrou a importância dos direitos trans, agora. Eu fico presa em tentar ser vista como uma pessoa comum nesse mercado cruel, em ser reconhecida pelo meu próprio mérito num sistema em que mulheres trans como eu são essencializadas, ou em que a palavra "trans" é colocada em tudo o que fazemos. Aí, as pessoas nos criticam por usar políticas de identidade que, como eu mencionei antes, muitas de nós nem tivemos voz em determinar, e somos forçadas a usar como ferramentas políticas e de sobrevivência.

Resumindo, eu ainda estou decidindo o que vou tocar na minha visita, mas eu farei com que seja especial. O show que eu estava fazendo envolvia a história trans e indígena/latina bem explicitamente, como eu mencionei anteriormente com o arquivo TLGB.

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