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Tudo o que sabemos sobre o incêndio que destruiu parte do acervo da Cinemateca Nacional

A entidade contém o maior acervo de cinema da América Latina: são 200 mil rolos de filmes. Acredita-se que aproximadamente mil foram perdidos.
3.2.16

Às 5h da madrugada desta quarta-feira (3) um incêndio consumiu um dos locais onde é estocado parte do acervo da Cinemateca Nacional, em São Paulo. A entidade cultural contém o maior acervo de cinema da América Latina: são 200 mil rolos de filmes, que correspondem a 30 mil títulos. "Estamos consternados com a perda. Ainda não temos informações precisas, mas a câmera de armazenamento atingida pelo fogo continha cerca de mil rolos originais de filmes, feitos de nitrato de celulose, um material altamente inflamável", disse Pola Ribeiro, o secretário de Audiovisual do Ministério da Cultura.

A estrutura que armazenava parte do acervo da Cinemateca era isolada do resto das edificações ao redor. Foto: Guilherme Santana/VICE

Pola e Olga Futemma, coordenadora geral da Cinemateca, convocaram uma coletiva de imprensa às 14h e permitiram que jornalistas tivessem acesso ao local do incêndio, que foi extinguido em meia hora por uma equipe de dois bombeiros que atuam 24 horas no lugar. "Tenho trinta anos de trabalho pela Cinemateca e sempre que possível nós provemos a duplicação das matrizes originais. Reconhecemos a perda, mas se Deus quiser, grande parte desse material foi duplicado em suportes mais modernos", disse Olga, visivelmente abalada no início da coletiva.

Pola Ribeiro, secretário do Audiovisual e Olga Futemma, coordenadora da Cinemateca, durante coletiva de imprensa. Foto: Guilherme Santana/VICE

De acordo com os dois, o patrimônio cultural atingido pelas chamas era constituído principalmente por exemplares de cinejornais brasileiros produzidos até a década de 40 e também havia um longa-metragem ainda não identificado. A coordenadora da Cinemateca disse ainda que sua equipe disponibilizará em aproximadamente dez dias uma relação das obras perdidas e daquelas que foram replicadas antes do incidente. A perícia ainda não identificou a origem da incêndio, mas Olga apontou que os filmes antigos, rodados em nitrato de celulose, têm como característica a capacidade de entrar em combustão espontânea em condições climáticas de muito calor como a dos últimos dias.

A Perícia chegou aproximadamente às 13h. Foto: Guilherme Santana/VICE

"A Cinemateca passa por um período de recuperação das dificuldades de gestão que passou nos últimos tempos. A entidade é o foco dos principais projetos atuais da Secretária de Audiovisual", disse o secretário Pola, que também declarou que nesta terça-feira (2) estava com Olga em Brasília durante os tramites da contratação de novos funcionários para a Cinemateca.

Uma pequena equipe de bombeiros circulava pelo fachada, que não foi danificada. Foto: Guilherme Santana/VICE

Ao longo do último ano, uma crise financeira e administrativa que atinge a Cinemateca Nacional tornou-se pública em diversos veículos de comunicação. Entre as queixas vindas de diversas partes, foram apontados problemas de estrutura, falta de equipe e de condições ideais para a preservação do acervo. Após o incêndio, um ex-funcionário que não quis se identificar disse à VICE que "a Cinemateca está desmantelada. Quando trabalhei lá, houveram muitas demissões e vários departamentos estavam sem grana e com filmes podres misturados com filmes bons. Eram feitas gambiarras administrativas para conseguir verba. Acredito que tudo esteja pior do que antes."

Caminhão dos bombeiros estacionado próximo ao foco do incêndio. Foto: Guilherme Santana/VICE

O cineasta Luiz Gonzaga dos Santos, de 76 anos, estava acordado de madrugada quando ouviu a notícia do incêndio na rádio. Ele correu para a Cinemateca com o receio de que dois longas dirigidos por ele, Anúncio de Jornal (1984) e Mustang Cor de Sangue - Patty, A Mulher Proíbida (1979), ambos armazenados no local, estivessem destruídos. "Vim pra cá o mais rápido que pude, pois sou uma das partes envolvidas e ainda estou com o coração batendo. A Cinemateca ficou muitos anos sem recursos. A situação daqui ainda não está boa. Está péssima. Está perigosa. Conversando com alguns funcionários, sei que eles ainda estão insatisfeitos com as condições de conservação das obras. O que aconteceu hoje é um mau prenúncio", disse Luiz, referindo-se mais tarde ao recente incêndio do Museu da Língua Portuguesa, na região da Luz, e aos cuidados que as autoridades governamentais dispensam ao patrimônio cultural brasileiro.

O cineasta Luiz Gonzaga dos Santos foi até a Cinemateca para saber se os originais de seus filmes estavam destruídos. Foto: Guilherme Santana/VICE