Bradley Cooper e Lady Gaga em Assim Nasce uma Estrela. Foto: Warner Bros/Divulgação.

"Assim Nasce Uma Estrela" examina a relação destrutiva da pop com o abuso de drogas

O filme, que tem Lady Gaga como protagonista naquele que é o seu primeiro papel principal, lança um olhar duro sobre a realidade da fama.

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out 16 2018, 10:19am

Bradley Cooper e Lady Gaga em Assim Nasce uma Estrela. Foto: Warner Bros/Divulgação.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Noisey Canadá.

É uma experiência desorientadora ver Lady Gaga interpretar outro papel que não o de, bem, de Lady Gaga. Em Assim Nasce uma Estrela [já em exibição em Portugal], a sua primeira longa-metragem, Gaga interpreta Ally, uma empregada de mesa que por vezes se apresenta ao vivo num bar de drag queens a interpretar Edith Piaf, sendo assim descoberta por Jackson Maine, uma estrela do country-rock, de voz grave, interpretado por Bradley Cooper, que é também o realizador. Esta é a quarta versão de Assim Nasce uma Estrela, filme feito sobre outras perspectivas em 1937, 1954 (com Judy Garland) e 1976 - sendo esta última aquela que, tematicamente, está mais ligada à versão de 2018 -, com Kris Kristofferson e a inimitável Barbra Streisand.

Cooper, entretanto, relaciona esses arquétipos eternos na indústria da música de hoje. Não é difícil imaginar o sucesso de um músico de country-rock (o Jackson Maine de Cooper parece-se muito com Dan Auerbach dos The Black Keys, o que é óptimo!) ou a pop star envolvente em que Ally se torna. Também mostra os contornos delicados de celebridades que se apaixonam e navegam pelos mares dos ciúmes e pela toxicidade das relações entre famosos.

E o aspecto mais atraente em Nasce uma Estrela é como o filme aborda, de maneira precisa, a relação tóxica entre a fama e o vício em substâncias. O filme de Cooper não romantiza nem exorta a prática. Em vez disso, ele mostra tal como é, na linha dos filmes musicais como Quase Famosos e Johnny & June como aspectos que fazem parte daquele universo, o que revela que, apesar de todas as mudanças e dos anos entre as diferentes versões do filmes, a questão do abuso de substâncias parece estar sempre presente.

Numa conferência de imprensa no Festival Internacional de Cinema de Toronto, Lady Gaga afirmou: “Vejo a fama como uma coisa muito não natural”. Existem, objectivamente, somente um punhado de pessoas no Planeta que podem fazer essa afirmação e/ou confirmar isso como uma verdade absoluta. Gaga sabe o que a fama pode fazer às pessoas e, uma vez, chegou mesmo a dizer que sentia a necessidade de estar sempre mocada para ser criativa.

A pressão para ser uma máquina de dinheiro - e muito mais - é o que leva muitas estrelas pop, Gaga incluída, a lidar com tal situação através do consumo de substâncias - por vezes abusando delas pela simples necessidade de existir. Por debaixo da superfície da vida de uma estrela pop estão traumas e histórias exacerbadas por esse estilo de vida acelerado. A Ally de Gaga não é a única que se desintegra, mas ela é, de certo modo, um efeito colateral do alcoolismo e do abuso de drogas de Jackson; ela embarca no comboio da fama, enquanto Jackson está a conduzir em direcção ao choque.

Durante a maior parte do filme, é realmente fácil rotular Jackson como um misógino que diminui Ally por causa da sua falta de confiança; como, é óbvio, o único a ajudá-la a subir na carreira; e como, depois que ela descola, os seus ciúmes se infiltram no centro do relacionamento entre ambos, ameaçando envenená-lo. É uma história mais velha que o tempo: a inferioridade das mulheres na música, ao lado da superioridade arbitrária que os homens lhes transmitem. Mas isso, obviamente, não é do que trata Assim Nasce uma Estrela - Cooper examina essa velha narrativa, mas não para a reafirmar. É a trajectória de Jackson, a sua espiral sobre si próprio, que nos dá empatia e insights sobre como a indústria da música é brutal e ignorante a respeito da dor sob a superfície brilhante do universo do entretenimento.

Jackson passa a maior parte do tempo bêbado, ou a tomar comprimidos para aliviar a dor de ter perdido o rumo profissional, por não ser tão autêntico como costumava ser. Mas, mais do que tudo, é para desanuviar a sua própria existência. Essa é a maior batalha do personagem. É uma cena familiar ver um músico homem a valer-se de substâncias para lidar com a realidade e aqueles ao seu redor, como o irmão de Jackson, Bobby, interpretado por Sam Elliott, aceitarem essa realidade e fazerem vista grossa ao sofrimento com a bebida, em vez de proporcionarem uma ajuda mais substancial e duradoura. Ver Jackson enterrar-se a si mesmo musicalmente e com as drogas - abusando destas últimas e, assim, afectando a primeira - é um apelo mais urgente do que nunca.

Vi o filme no dia seguinte à morte de morte de Mac Miller, presumivelmente por overdose, o que fez o filme ser particularmente pesado para mim. E fez-me pensar que passou quase um ano da morte de Lil Peep. E que Demi Lovato foi recentemente hospitalizada devido a uma suposta overdose. Poderia voltar ainda mais no tempo em busca de diversos exemplos, mas a história é uma terra árida de talentos e vozes que sucumbem ao vício, numa indústria que o encoraja ao invés de o combater.

O vício e a fama têm uma relação tão íntima e complicada que a fricção causa fatalidades desnecessárias. Com cada talento que se vai, lamentamos o mal do abuso de substâncias e do tratamento inadequado e o respeito pela saúde mental. Não importa a idade, mas quanto mais novo é o indivíduo, mais ficamos embasbacados: como pudemos deixar esta indústria fazer isto aos nossos ídolos, a estes seres humanos? A indústria não é boa a resolver este dilema e muitas vezes nem se sente no papel de tentar resolvê-lo. O desempenho do cuidado é uma solução tipo penso rápido (o assessor de Ally em Assim Nasce uma Estrela faz um trabalho excelente ao interpretar um executivo sacana, que só vê dólares a serem desperdiçados e não uma vida a deteriorar-se). Contudo, o ciclo passa novamente, os protagonistas da indústria certamente seguem com as suas vidas, em salas de reuniões ou nos bastidores, fazendo cada vez mais acordos e alinhando as vendas com muito talento.

Assim Nasce uma Estrela olha seriamente não somente para a fama, mas para a forma como a fama vem imbuída de um preço. Não somente o romance entre Ally e Jackson é devastado pelo vício - as pessoas carregam a parte mais pesada dessas consequências. Cooper inseriu a realidade do estrelato ao selecionar Lady Gaga para o elenco, uma diva suprema da pop, mas também ao criar uma narrativa que a ela lhe é demasiado dolorosa e familiar e, talvez, a ele também. O óbvio da relação entre vício e fama enquanto arco narrativo não é nada rudimentar. Assim Nasce uma Estrela transmite a suavidade da empatia entre humanos, não uma persona numa posição nas tabelas de vendas. É devastador que ainda tenhamos de ver em tempo real as nossas estrelas, os nossos ídolos, passarem pelas mesmas coisas que Jackson Maine. O que será preciso fazer para que paremos de ver estas narrativas na vida real?


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