Cinco mulheres inspiradoras respondem a cinco perguntas

Para comemorar os direitos que temos conquistado ao longo dos anos pedi a cinco mulheres fortes e inspiradoras que me explicassem qual tem sido o seu percurso.

|
mar 8 2016, 10:08am

Estamos em pleno século XXI, e ser mulher, em princípio, deveria ser algo completamente natural e confortável. Mas nem sempre é assim. Nem aqui, nem noutras partes do Mundo, onde ainda há tanto por fazer em termos de igualdade de género. Para comemorar os direitos que temos conquistado ao longo dos anos pedi a cinco mulheres fortes e inspiradoras que me matassem a curiosidade e me explicassem qual tem sido o seu percurso.

Contamos com fazedoras natas, mulheres inquietas, fortes e talentosas que nunca renunciam à ternura, nem à sensibilidade, na hora de se apresentarem ao Mundo. Mulheres que não abdicam dos seus códigos femininos e os celebram nas coisas que fazem.

Fotografia de Pedro Cardigo

Sandra Barão Nobre • Autora do Blog 'Acordo Fotográfico'

Em cinco palavras, como é ser mulher em Portugal?

Nas muitas viagens que tenho feito, verifico que há países (demasiados, infelizmente...) onde a vida de uma mulher ainda vale muito pouco. Por isso, quando penso no que é ser mulher em Portugal — apesar do longo caminho que ainda temos de fazer, enquanto sociedade, para chegar à igualdade de género — a primeira palavra que me ocorre é: privilégio. Privilégio porque a minha experiência diz-me que ser mulher em Portugal é, de uma forma geral, ser livre, autónoma e respeitada. Mas também é, infelizmente, ser discriminada no trabalho — onde, em igualdade de circunstâncias, continua a ganhar substancialmente menos que um homem — e no acesso a lugares de chefia, ou poder.

Ser mulher, e não homem, ajudou-te ou prejudicou-te quando quiseste construir uma carreira, ou materializar um projecto?

Tenho de ser sincera: a construção de uma carreira nunca foi coisa que me preocupasse por aí além e, talvez por isso, não guarde memórias claras de momentos em que, por ser mulher e não homem, pudesse ter sido prejudicada, ou ajudada, na perseguição desse objectivo. Já no respeitante a projectos, há quem diga que o facto de ser mulher torna mais fácil o meu trabalho no Acordo Fotográfico (que passa por abordar estranhos na rua), ou no arranjar alojamento gratuito nos lugares para onde viajo. Mas não creio que seja assim... No fundo, acredito que, se sou prejudicada ou ajudada de alguma forma, é mais pela minha atitude perante as situações com que me deparo, do que pelo meu sexo.

Existe algum estereótipo relacionado com as mulheres com o qual te identifiques? Por exemplo, que somos umas choramingas ou que não sabemos conduzir.

Os estereótipos são preconceitos e eu procuro lutar conscientemente contra os preconceitos. Outra coisa são as diferenças biológicas que determinam uma parte da nossa personalidade. A socialização faz o resto. Isto para responder que não, não me identifico com qualquer estereótipo relacionado com mulheres. É curioso, esta pergunta faz-me lembrar que, ultimamente, uma das observações que mais ouço é que tenho "um grande par de tomates". Mulheres com tomates, será estereótipo?

O que é que te ensinaram as mulheres da tua vida? Mães, avós, tias, primas, madrinhas, vizinhas, etc.

As mulheres da minha vida (elas sabem quem são) ensinaram-me que eu podia fazer o que quisesse e ser o que quisesse, desde que a minha liberdade não interferisse na liberdade dos outros. As mulheres da minha vida ensinaram-me a sonhar, permitiram-me ganhar asas e respeitam até hoje a direcção do meu voo. Sem a confiança que todas têm em mim, desde que me conheço, seria uma décima parte do que sou hoje.

Hoje é Dia Internacional da Mulher. Como é que vais comemorar este dia?

Não planeei nada de especial. A pessoa com quem gostaria de comemorar este dia está longe. O mais provável é ficar em casa a trabalhar nos vários projectos que ando a semear. Mas irei com certeza ver o mar.

Frame de 'As escolhas dos críticos: Germaine Richier por Raquel Henriques da Silva | Museu Coleção Berardo'

Raquel Henriques da Silva • Historiadora de Arte e Professora

Em cinco palavras, como é ser mulher em Portugal?

Mais trabalho, uma forma peculiar de alegria, uma sabedoria antiquíssima, uma disponibilidade sempre reinventada de amar, uma resistência que nem se acredita. (Não consigo grande coisa só com palavras, mas tento: Combatividade, Potência, Resistência, Sabedoria, Disponibilidade.)

Ser mulher, e não homem, ajudou ou prejudicou quando quis construir uma carreira, ou materializar um projecto?

No meu modesto caso, não creio que ser mulher tenha sido vantagem ou desvantagem. Sempre consegui não ignorar constrangimentos que existem, talvez um pouco mais para as mulheres do que para os homens, mas eles nunca foram impedimento para 'materializar' projectos. Quanto a 'carreira', nunca foi prioridade para mim.

Existe algum estereótipo relacionado com as mulheres com o qual se identifique? Por exemplo, que somos umas choramingas ou que não sabemos conduzir.

Sinceramente não. Ou só os muito positivos: em geral, as mulheres (é a minha experiência) têm mais capacidade de trabalho, de divisão entre diversas tarefas e são mais generosas.

O que é que lhe ensinaram as mulheres da sua vida? Mães, avós, tias, primas, madrinhas, vizinhas, etc.

A tal resistência que, no meu caso, é muito pro-activa. Mas não alinho com a ideia de que as mulheres mandam sempre, mesmo que sejam submissas. Em caso extremo, tal conduz à 'superioridade' que algumas mulheres muçulmanas acham que possuem sobre as 'ocidentais'... Igualdade na diferença para que cada pessoa, homem ou mulher, possa ser o mais possível o que gosta de ser!

Hoje é Dia Internacional da Mulher. Como é que pensa comemorar este dia?

Sinceramente não comemoro, nem nunca comemorei. Costumo dizer aos meus alunos que o estatuto da mulher é a mais importante conquista da cultura ocidental. Exijo-o e pratico-o desde que me conheço! Mas nada tenho contra as comemorações simbólicas!

Fotografia via Flickr

Rosa Pomar • Autora do Blog 'A Ervilha Cor de Rosa'

Em cinco palavras, como é ser mulher em Portugal?

É semelhante a ser mulher na Suécia, mas com mais idas à depilação. A resposta tem mais de cinco palavras (em português não é fácil ser assim tão sucinta) e deve parecer uma parvoíce, mas, como mãe de duas portuguesas bem morenas que estão a atravessar a puberdade, tenho pensado muito nesta questão do que é e não é socialmente aceite neste departamento dos pêlos e na mensagem e imagem que, como mulher e mãe, lhes quero passar. Parecendo que não, tal como a menstruação, a questão ainda tem alguma coisa de tabu e muitas miúdas não têm grande à-vontade para lidar com ela.

Ser mulher, e não homem, ajudou-te ou prejudicou-te quando quiseste construir uma carreira, ou materializar um projecto?

Nunca me ocorreu pensar que alguma coisa me seria mais simples se fosse um homem - isso seria abrir a porta ao preconceito. No entanto em algumas situações relacionadas com a minha vida de "empresária" senti na pele que chegar a uma fábrica com uma criança pela mão e outra à ilharga não é de todo o melhor cartão de visita. O nosso tecido empresarial tradicional é ainda um mundo de homens, onde uma mulher de fora do meio, sobretudo se não vier vestida e penteada da maneira "certa", arrisca-se a ser olhada de cima a baixo e tomada como tonta até mostrar o que vale. Aliás talvez tão importante como discutir a questão da discriminação entre homens e mulheres, seja questionar a pressão da sociedade para se ser um determinado tipo de mulher, com um determinado tipo de aparência, de corpo, de atitude, etc.

Existe algum estereótipo relacionado com as mulheres com o qual te identifiques? Por exemplo, que somos umas choramingas ou que não sabemos conduzir.

O politicamente correcto seria dizer que não, mas acho que é mesmo verdade que somos melhores a fazer várias coisas ao mesmo tempo do que eles.

O que é que te ensinaram as mulheres da tua vida? Mães, avós, tias, primas, madrinhas, vizinhas, etc.

Lembro-me de ser muito pequenina e acompanhar a minha mãe a reuniões do MLM (Movimento de Libertação das Mulheres) e de uma vez no Dia da Mãe ter ido com o meu pai comprar um berbequim para lhe oferecer, por isso já se vê que não cresci numa família muito convencional (a minha mãe também fazia street art). Entre muitas outras coisas, as mulheres da minha família ensinaram-me, pelo exemplo, que ter carreira profissional, participação cívica e política, ou ser intelectual, não são de todo incompatíveis com ter prazer e jeito para bordar, coser, ou fazer malha. Parece uma verdade muito óbvia, mas não é assim tanto: por muitos artigos que se escrevam sobre a moda do tricot, lá no fundo muito boa gente continua a achar que não são coisas assim muito apropriadas a uma mulher moderna (seja lá o que isso quer dizer), até porque as gerações mais velhas ainda associam esses saberes a uma época em que eles eram praticados apenas por necessidade e não por prazer e, também, porque estavam associados a um ensino discriminatório: os lavores da escola eram femininos e obrigatórios só para elas.

Hoje é Dia Internacional da Mulher. Como é que vais comemorar este dia?

Lembro-me de a minha avó nos telefonar no Dia da Mulher a dar os parabéns à minha mãe e a mim, mas a verdade é que nunca senti necessidade de comemorar a data (certamente por ter nascido a dar como adquirida uma igualdade pela qual outras mulheres tiveram de lutar). De qualquer maneira, posso dizer que nesse dia (bem, hoje e ontem e depois de amanhã também) vou celebrar o poder de fazer uma coisa que só as mulheres podem: dar de mamar ao meu bebé pequenino.

Fotografia de Sal Nunkachov, via

Antónia Rosa • Make-up Artist

Em cinco palavras, como é ser mulher em Portugal?

As mulheres são poderosas.

Ser mulher, e não homem, ajudou-te ou prejudicou-te quando quiseste construir uma carreira, ou materializar um projecto?

Nem me ajudou, nem me prejudicou... penso que os artistas são unissexo.

Existe algum estereótipo relacionado com as mulheres com o qual te identifiques? Por exemplo, que somos umas choramingas ou que não sabemos conduzir.

Sou uma Maria-rapaz :)

O que é que te ensinaram as mulheres da tua vida? Mães, avós, tias, primas, madrinhas, vizinhas, etc.

Tudo... devo-lhes o que sou... são a minha inspiração. Aliá, aos sete anos já sabia o que queria fazer só de olhar para a minha mãe a arranjar-se.

Hoje é Dia Internacional da Mulher. Como é que vais comemorar este dia?

Oooooh, com a Moda Lisboa à porta vai ser difícil comemorar, mas de certeza que vou receber flores e vou lembrar-me de como é bom ser Mulher.

Fotografia de Marcelo Camelo, via Flickr

Mallu Magalhães • Cantora e compositora

Em cinco palavras, como é ser mulher em Portugal. E no Brasil?

Amar-se como mulher, seja onde for. Mudam os cenários e quem se ama sempre sobrevive... a força da mulher que se ama é imensurável.

Ser mulher, e não homem, ajudou-te ou prejudicou-te quando quiseste construir uma carreira, ou materializar um projecto?

Tenho dificuldade em fazer, com certeza, um julgamento destes, pois cada situação é única e não sei como seria se fosse homem... Na minha profissão, que envolve muito exposição física, acabo por me deparar com situações desafiadoras em que é preciso me posicionar e estabelecer meus limites. Acho que se sentir ameaçada, exposta demais, invadida ou insegura é sempre prejudicial... Temos que estar atentas e calmas diante das escolhas e encontros para saber quando nos proteger para nos preservarmos, ou nos entregar para expandirmos.

Existe algum estereótipo relacionado com as mulheres com o qual te identifiques? Por exemplo, que somos umas choramingas ou que não sabemos conduzir.

Alguns! Sou super choramingas... Na condução, vou no tempo que a minha capacidade permite, mas que parece ser sempre a metade da velocidade de todos ao meu redor!

O que é que te ensinaram as mulheres da tua vida? Mães, avós, tias, primas, madrinhas, vizinhas, etc.

Muito... minha irmã mais velha (e única) é muito forte para mim. Ela sempre foi e sempre será a mulher mais linda que já vi. Ela me ensinou muitas coisas, entre elas, a doçura e a beleza da presença feminina, e também a corrigir a sobrancelha ao fazer a 'maquiagem'. Da minha mãe, aprendi o encanto de uma mulher cheia de vida e sentimentos.

Hoje é Dia Internacional da Mulher. Como é que vais comemorar este dia?

Comendo chocolates a mais. :)

Mais da VICE
Canais VICE