Conversei com o Carlos Vaz Marques sobre a Granta

Que chega às bancas em Maio.

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abr 12 2013, 11:00am


Carlos Vaz Marques ao lado de Bárbara Bulhosa, editora da Tinta da China.

Granta portuguesa ainda nem saiu e já dá que falar. Até agora, muito pouco se sabe sobre o que aí virá. Autores, editores, leitores, teremos todos de esperar até Maio por aquela que é uma das revistas contemporâneas mais importantes do panorama literário internacional, reconhecida por conjugar contributos vários, autores consagrados e jovens esperanças. Falei com o Carlos Vaz Marques sobre a importância e o desafio que é trazer uma revista com estas características a um país que precisa de alternativas culturais para que tanto as novas vozes como os géneros menos fáceis possam ser apreciados. A festa oficial do lançamento é no dia 24 de Maio mas, se tiverem mesmo com pressa e quiserem receber a revista antes de toda a gente, podem tornar-se assinantes.

VICE: O Carlos é jornalista, mas está em diferentes projectos, só de enumerar já cansa (Governo Sombra, Pessoal e Transmissível, editor da colecção de livros de viagens da Tinta da China, revista LER, etc). Agora surge como director da Granta. Como se sente na pele de director e como acumula todas estas funções?
Carlos Vaz Marques:
Por vezes, sinto-me realmente cansado. Mas nos meus melhores momentos, divido-me entre o entusiasmo e a gratidão por gostar de tudo o que faço e por poder fazer aquilo de que gosto.

Esteve na LER mas, recentemente, saiu em ruptura. Foram públicas as suas desavenças com Francisco José Viegas, antigo Secretário de Estado, que voltou a ocupar a direcção da revista.
Não saí em ruptura pessoal com ninguém. Saí em protesto contra a forma como o anterior director, João Pombeiro, foi descartado depois de ter feito um excelente trabalho, nomeadamente com a organização do Festival LER.

Essa saída acelerou a criação da nova revista?
Não teve nada a ver.

Pergunta óbvia: como surgiu a ideia de trazer a Granta para Portugal?
Fui assinante da Granta de língua inglesa durante anos e tenho prateleiras de números antigos. Infelizmente, agora encaixotados por razões de espaço e porque nas mudanças há sempre coisas que vão ficando em caixotes. A minha relação com a Granta, enquanto leitor, já vem de longe. A editora da Tinta da China, a Bárbara Bulhosa, começou há uns anos a aliciar-me para a possibilidade de fazermos uma revista, mas era apenas mais um dos muitos projectos que nem sempre se concretizam. Em 2009, numa viagem a São Paulo, descobri que havia uma edição brasileira da Granta e aquilo fez tocar dentro de mim uma sineta: “E se nós fizéssemos uma Granta portuguesa?” Discutimos o assunto, mas não sabíamos a que portas bater e mais uma vez ele foi sendo adiado. Até que, no ano passado, a Bárbara conheceu no Festival de Paraty o editor internacional da Granta, John Freeman. Ela apresentou-lhe o catálogo da Tinta da China e ele disse de imediato: esta vai ser a editora da Granta portuguesa.

O que poderá trazer ao espectro literário?
Traz um novo espaço literário que pretendemos que sirva para estimular novos textos, tanto de autores consagrados e de novos talentos. E traz a possibilidade de fazer circular esses textos pelo universo Granta, cada vez mais alargado, com edições não apenas em língua inglesa, como espanhola, italiana, turca e até chinesa. É uma bela porta de acesso ao mundo que lê.

Acredita que há público para mais uma revista literária? O mercado está como está e, apesar das diferenças óbvias, a revista Os Meus Livros chegou a suspender a sua publicação…
Acredito que não podemos, nem devemos conformar-nos. O nosso compromisso é o de fazermos quatro números, com o entusiasmo que pomos em tudo. Acreditamos que há leitores exigentes e interessados. É para eles que trabalhamos e é com eles que contamos.

Sim, mas uma revista que custa 18 euros não poderá ser encarada como uma monografia?
Uma monografia? Acho que se pode dizer, isso sim, que está mais perto de ser um livro do que de ser uma revista no sentido corrente que o termo tem entre nós.

O que lhe queria perguntar era se uma revista como Granta, semestral e com características próprias, não corre o risco de ser avaliada pelo público numa perspectiva idêntica à do livro. Poderia dar-se o caso de não existir, de facto, uma fidelização prolongada do leitor; que é o oposto daquilo que se pretende nas revistas. Pode até nem ser uma problemática que o preocupe…
Sobre isso não lhe saberei responder. Só posso manifestar um desejo: queremos que quem leia o primeiro número fique com vontade de ler os seguintes. Este não é um fenómeno exclusivo dos periódicos. Creio que a colecção de literatura de viagens que dirijo na Tinta da China é um exemplo disso. Falo desta colecção em particular, mas creio que o raciocínio é válido em relação a qualquer colecção.

Que vantagens há em trabalhar com uma editora de livros?
A Granta, em todos os países em que existe, é publicada por editoras de livros. Não estou a ver nenhuma excepção. A vantagem é óbvia. Sendo um livro deve ser feita por quem faz livros, a Tinta da China é o seu espaço natural.



Tal como a Granta, chamemos-lhe assim, original, também a versão portuguesa irá publicar jovens autores?
Sim. Temos o projecto de, mais cedo ou mais tarde, fazermos em Portugal um número nos mesmos moldes do Best of the Young English Writers, que a Granta de língua inglesa publica de dez em dez anos. Este ano, aliás, é anual. A escolha dos 20 talentos jovens com futuro está a fazer correr muita tinta em Inglaterra. Na altura própria, desafiaremos os jovens escritores com menos de 40 anos a enviarem-nos os seus originais e será constituído um júri que há-de encarregar-se da selecção dos textos a publicar. O nosso objectivo é que, à semelhança do que se passou por exemplo com a Granta brasileira nos mesmos moldes, essa edição seja integralmente traduzida e publicada como um número da Granta de língua inglesa dedicada aos autores de língua portuguesa.

Já sabemos que a Granta irá publicar alguns inéditos de Fernando Pessoa. Pode desvendar algo daquilo que a revista irá trazer no primeiro número?
Fá-lo-emos a seu tempo. Para já, vamos manter um certo suspense.

Certo. Num período em que vemos por parte das editoras uma aposta decrescente em géneros menos apetecíveis aos mercados (nomeadamente o teatro e a poesia), podemos contar com a Granta para contrariar esta tendência?
Já no primeiro número, teremos a presença da poesia. Teremos, como foi noticiado, oito sonetos de Fernando Pessoa, cinco deles inéditos e os restantes três em leituras diferentes daquelas que vieram a público aquando da primeira publicação.

O tema do primeiro número é o EU. Que eu é esse?
É o EU que cada autor queira tratar. A ideia é sublinhar o carácter irredutivelmente pessoal e subjectivo da experiência literária. Tanto na escrita, como na leitura.

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