Meio Ambiente

A cultura dos chimpanzés está desaparecendo por causa das mudanças climáticas

Novo estudo publicado na Science afirma que comportamentos de primatas podem minguar por causa da presença humana.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor
climate change means chimps are losing their culture
Imagem: Shutterstock.

Comportamentos comuns dos chimpanzés, como arrancar as folhas de um galho e usá-lo para pescar cupins, estão se tornando cada vez mais raros. Segundo uma nova pesquisa, a atividade humana está desgastando a cultura dos primatas.

Cultura, no sentido animal, é a diversidade de comportamentos e o compartilhamento de conhecimento entre indivíduos.

Um estudo publicado na última quinta-feira na revista Science revelou um declínio de 88% na média no número de comportamentos que um chimpanzé vai mostrar quando mora em áreas próximas de muitos humanos, estradas ou sem cobertura de florestas.

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Chimpanzés podem evitar seus comportamentos comuns como quebrar nozes usando pedras, por exemplo, por medo do som atrair a atenção de caçadores. Nesse processo, pesa também o declínio de chimpanzés. Com cada vez menos indivíduos da espécie, há menos companheiros para mostrar aos outros como, digamos, usar musgo para obter água.

“Não ficamos surpresos que o impacto humano está tendo um efeito negativo, mas ficamos surpresos com o grau do impacto”, disse a pesquisadora de primatas Ammie Kalan por telefone.

As descobertas são assustadoras. Os pesquisadores catalogaram 31 comportamentos diferentes (como fazer camas com folhas ou se refrescar numa caverna próxima) em 144 grupos sociais. O estudo cobre toda a variedade geográfica de chimpanzés selvagens, da Guiné na África Ocidental ao sul do Sudão no leste e Angola no sul.

Não importava como os cientistas agrupassem esses comportamentos para análise estatística, o resultado era sempre o mesmo: o impacto humano não está ligado apenas ao declínio das populações, ele também afeta como os chimpanzés se comportam.

“Isso não é baseado apenas em ver o conjunto de dados, era um padrão realmente forte”, disse Kalan.

O número de chimpanzés caiu mais de 80% no último quarto de século, parcialmente por causa da fragmentação de seus habitats na floresta por agricultura e mudanças climáticas. Isso significa que há menos deles para passar adiante esses comportamentos.

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Diversidade de comportamento também está caindo, apontam os autores, porque as mudanças climáticas estão limitando a disponibilidade de alimentos ou as plantas que eles usam para caçar formigas.

Os pesquisadores não sabem se os chimpanzés desenvolvendo espontaneamente novos comportamentos pode compensar a perda em diversidade comportamental. Eles temem que comportamentos ainda não observados tenham sumido antes que algum humano conseguisse testemunhá-los.

Chimpanzés não são os únicos animais que podem sofrer perda de cultura devido às atividades antropogênicas e mudanças climáticas. Kalan disse que qualquer animal socialmente inteligente e que espalha ideias entre gerações corre o mesmo risco: orangotangos, baleias, golfinhos, elefantes e até pássaros com dialetos especiais.

O último relatório do Programa Ambiental das Nações Unidas reconheceu a importância de diversidade comportamental e disse que coleta de dados em grupos sociais deveria ser inclusa em esforços de conservação, além de manter o número de animais e a variedade genética, no futuro.

Kalan e outros autores do estudo sugerem criar “locais de patrimônio cultural” para tentar preservar comportamentos dos chimpanzés. Esses seriam locais específicos que são particularmente importantes para chimpanzés por uso de ferramentas e comunicação – uma caverna ou um grupo de pedras, por exemplo.

“Se esses lugares não existissem, esses comportamentos provavelmente não continuariam. Eles realmente se tornam parte do patrimônio cultural daquela comunidade de chimpanzés”, explicou Kalan.

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