Drogas

É assim que o LSD influencia o processo criativo de um músico

Quando as melodias emulam as etapas de uma viagem de ácidos, os resultados podem ser revolucionários.
21 February 2018, 12:15am
Crédito: Rick Kerns / Getty

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Em 1965, John Coltrane entrou num estúdio de Seattle, nos EUA, e gravou Om, um álbum com 29 minutos de duração, duas faixas e sons aparentemente desconexos de saxofone, flauta, piano e bateria, entrelaçados com frases retiradas do Bhagavad Gita e do Livro Tibetano dos Mortos. O álbum não se parece com nada dos trabalhos anteriores do músico. Por isso, muitos acreditam que Coltrane o compôs sob o efeito de ácidos.

Para muitos, Coltrane faz parte do grupo de artistas cuja música foi influenciada pelo LSD. Os membros mais famosos desse grupo são os Beatles, que descobriram a droga no mesmo ano, em Londres, pouco antes de gravarem Sargeant Pepper, e os Beach Boys, que lançaram o psicadélico Pet Sounds em 1966. O rock psicadélico procurou inspiração em Coltrane, diz Philip Auslander, professor da faculdade de literatura, media e comunicação, do Instituto de Tecnologia da Geórgia. O género caracterizava-se pela improvisação, imagens bizarras, experimentação, ritmos inconsistentes, harmonias discordantes, mudanças abruptas de timbre e uma resistência geral à convenção.


Vê: "Michael Randall, o homem que quis mudar o Mundo através do LSD"


Também podemos ver a influência do LSD na produção musical de artistas mais contemporâneos. Wayne Coyne, o vocalista dos The Flaming Lips, é conhecido pela sua relação com o LSD, que inspirou músicas nonsense, como "Yoshimi Battles the Pink Robots", incluída no álbum do mesmo nome que, na capa, mostra o desenho de uma mulher com uma sombra de pássaro e o número 25 (algumas pessoas acreditam que é uma referência ao laboratório onde o LSD foi criado, o LSD-25).

Jesse Jarnow, autor de Heads: A Biography of Psychedelic America, cita o grupo de música eletrónica experimental Wolf Eyes, como exemplo emblemático da música psicadélica moderna. "O maior sinal dessa influência é a música que fazem, que é completamente alucinante", diz Jarnow. Para ele, o álbum Human Animal soa mais como uma compilação de sussurros, portas enferrujadas, cantos de pássaros e naves espaciais a aterrar, do que com música.

Mais recentemente, Chance the Rapper revelou que o seu álbum Acid Rap foi, em grande parte, inspirado nas suas experiências com o LSD. "As minhas músicas não são afirmações categóricas; muitas delas estão ali para te fazer pensar... assim como o LSD", disse o artista à MTV. Na resenha ao álbum, a Pitchfork diz que a "estrutura é tão expansiva e livre, como a de qualquer viagem psicadélica".

O que une todas essas músicas, muitas delas compostas em diferentes épocas, é o efeito da droga no cérebro dos seus compositores. O LSD actua no sistema serotoninérgico, que afecta os centros de processamento visuais e auditivos do cérebro, influenciando tanto o que vemos, como o que ouvimos, diz James Giordano, professor de neurologia e bioquímica do Centro Médico da Universidade de Georgetown. Desta forma, músicas inspiradas pelo LSD tendem a recriar a experiência de uma viagem psicadélica.

"Muitas vezes, letras psicadélicas trazem consigo imagens evocativas porém impenetráveis, talvez por serem inspiradas em visões ocorridas sob o efeito do ácido", diz Auslander. Giordano cita "White Rabbit", da banda Jefferson Airplane, como uma referência especialmente contundente ao efeito da droga, em particular no verso "One pill makes you larger, and one pill makes you small". Graças ao efeito do LSD no lobo occipital, responsável pela nossa visão, pessoas sob o efeito da droga "podem sentir mudanças nos padrões de percepção de tamanho e forma", explica.

Esse efeito neurológico pode causar alucinações inconstantes e mutáveis, acrescenta Giordano. A natureza transitória dos efeitos visuais de uma viagem de LSD pode ser observada em músicas como “Lucy in the Sky With Diamonds", considera, por sua vez, Auslander. Nela, tu procuras "for the girl with the sun in her eyes and she's gone", vês "newspaper taxis appear on the shore" e depois o cenário muda para um comboio e "suddenly someone is there at the turnstile".

Cinquenta anos depois, no teledisco da música “Paranoiac Intervals/Body Dysmorphia", Kevin Barnes, vocalista dos Of Montreal (que faz referências ao LSD em músicas como “Lysergic Bliss”), olha para um espelho e canta sobre "counting wolves in your paranoiac intervals”, enquanto o seu reflexo se dissolve e o seu rosto se contorce.

Muitas vezes, a própria música tem um carácter desconexo e improvisado, como é o caso da obra dos The Grateful Dead. Esse estilo de música parece ser uma tentativa de emular o ciclo de uma viagem de LSD, que, segundo Auslander, "passa por diferentes fases ao longo de um período relativamente extenso". Assim, um músico que já tenha usado ácido pode "usar o instrumental ou a audição de quem consome a música como um meio para explorar o seu universo interior", completa.

Embora os efeitos visuais do LSD sejam muitas vezes descritos nas letras, em alguns casos os seus efeitos auditivos podem ser identificados na própria sonoridade da música. Devido ao efeito da droga no lobo temporal e nas áreas corticais frontais e posteriores, o LSD pode fazer com que sons ecoem e se misturem com outros barulhos, explica Giordano. Auslander vê o interlúdio orquestrado no meio da música "Susan", da banda The Buckinghams, como um exemplo das estranhas transições acústicas características da música psicadélica.

Outro efeito comum do ácido é esquecer o significado daquilo que se diz e encadear palavras de forma aleatória com base no seu som, diz Giordano. Richard Goldstein, ex-crítico de rock da Village Voice, acredita que é por isso que, nos anos 60, nomes de bandas simples e directos, como The Beatles e The Animals, deram lugar a nomes mais poéticos, como Jefferson Airplane e The Peanut Butter Conspiracy.

Geralmente, o uso de ácido acarreta a perda das inibições presentes nos nossos sistemas auditivo e visual, o que nos faz imaginar sons e imagens que não imaginaríamos normalmente, sublinha Giordano. Isso pode ter inspirado artistas como Coltrane e Chance the Rapper a desafiarem as convenções dos seus géneros musicais. "Efeitos surpreendentes e a junção de características musicais que, em teoria, não combinam entre si, são uma marca registada da música psicsdélica", considera Auslander.

Jarnow cita o exemplo da banda Wolf Eyes, que usou folhas de metal como instrumento e os The Butthole Surfers, que usaram luzes estroboscópicas, máquinas de fumo e projectores nas suas performances, como exemplos da criatividade de influência psicadélica. "O LSD pode abrir a mente de músicos e fazê-los pensar fora do que é convencional", diz. E conclui: "E, especialmente, questionarem a própria noção do que é música".


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