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Como detentos jogam RPGs em prisões onde dados são proibidos

Nos EUA, detentos se reúnem nas áreas comuns para jogar RPGs e, às vezes, fazem isso sem dados.
Foto: Gabriel R.

Esta matéria foi originalmente publicada no Waypoint.

É um contraste estranho: condenados durões e tatuados, usando túnicas de personagens de fantasia. Mas ex-presidiários e carcereiros concordam que D&D é mais comum nas prisões do que você pode imaginar. A maioria das instalações correcionais tem pelo menos um jogo em andamento. Algumas têm um jogador em cada bloco de celas. Segundo Micah Davi, ex-detento e mestre de D&D numa prisão no Texas, "Tínhamos nossa própria mesa na sala matinal. E isso quer dizer alguma coisa. A mesa da irmandade ariana, a mesa da máfia mexicana, a mesa dos negros e a mesa do D&D".

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Alguns dos jogadores sempre jogaram, gente que estaria fazendo a mesma coisa se estivesse solto. Outros nunca tinham ouvido falar em D&D até pegarem pena. Mas diante da escassez de escapes criativos, usar uma túnica e chapéu de mago metafóricos se torna rapidamente uma distração.

D&D se tornou tão universal que algumas prisões até têm regras específicas sobre isso. Por exemplo, se você tiver o azar de acabar preso na Instituição Correcional Estadual de Idaho, você provavelmente não vai passar o tempo rolando dados de 20 lados. Segundo as diretrizes de 2014 da instituição:

As seguintes atividades são proibidas. Participar de qualquer uma delas vai resultar em ação disciplinar:

- Brincadeiras de luta

- Apostas ou jogos de azar

- Fabricar dados, dominós, peças de xadrez, cartas ou qualquer tipo de jogo

- Role playing games (ou seja, Dungeons & Dragons)

Mas em todos os outros estados onde RPGs são permitidos, restrições sobre o uso de dados podem complicar o jogo. Num esforço para conter apostas, a maioria das instituições correcionais nos EUA não permite que os detentos usem ou criem dados.

Mas como dizem por aí, a necessidade é a mãe da invenção. Necessidade e, como pode ser o caso, tédio. Para tentar contornar a proibição de dados, jogadores em prisões bolaram uma variedade de métodos para jogar – desde fazer dados ilicitamente até desenhar roletas com pilhas e clipes de papel.

Dados feitos com modelos de papelão. Tocos de lápis e pedaços coloridos de plástico servem como peças. Foto: Melvin Woolley-Bey

Dados improvisados

Quando dados de plástico são proibidos de entrar na prisão, uma solução é simplesmente fazer o seu. Dependendo dos recursos disponíveis, aparentemente há maneiras infinitas de fabricar um.

Para quem tem amigos e familiares lá foram, um dos jeitos mais fáceis de começar é pedindo que eles mandem moldes de dados. Um molde de D6 pode ser barrado na sala de correio, mas um molde de D20 provavelmente não vai ser reconhecido pelos carcereiros.

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Joe, um ex-presidiário de Massachusetts, escolheu a abordagem do molde: "Nos mandavam moldes de dados de origami pelo correio. A gente não tinha cola, então o jeito era improvisar com coisas da cantina. Adesivos de tubos de xampu são realmente úteis. Os mapas eram feitos com caixas de papelão que pegávamos do lixo. Nas revistas eles sempre apreendiam nossos dados, então os moldes eram importantes".

"Nunca joguei ou mestrei um jogo onde os personagens tinham que escapar de uma prisão. Seria muito na cara. Pensando agora, a gente evitava o tropo de estar num calabouço cheio de monstros porque já estávamos num calabouço cheio de monstros." – Micah Davis

Quando cola não está disponível, há outras alternativas meio melequentas na prisão, como geleia ou pasta de dente.

"A pasta de dente da cadeia é barata e vira cola quando seca", diz Joe. May Holmes-Roy, que passou um tempo no Departamento Correcional do Estado de Washington, usava um processo similar: "A gente fazia dados de papelão, pasta de dente e papel higiênico. Os testes eram rigorosos, e os dados rolavam do jeito certo 85% das vezes".

Dados de origami funcionam melhor quando têm peso, mas isso pode ter seus próprios desafios. Sal e sabão em pó são ótimos como enchimento, assim como areia.

Um ex-detento de Ohio, que prefere usar seu nick do Reddit "Pariahdog119", descreve o processo de fazer um dado de origami cheio de areia: "Você precisa do seguinte: moldes de dados cortados, cartolina (caixas de biscoito água e sal funcionam bem), areia fina (o mais fina possível, não use terra), tinta, cola, e para o roubo mais difícil até agora, verniz da manutenção. Corte a cartolina com o molde de dado. Pinte e acrescente os números. Dobre e cole todos os lados menos um. Deixe secar. Encha de areia. Bata na mesa para verificar se está completamente cheio. Você não quer que o dado chacoalhe. Feche e cole. Passe várias camadas de verniz para selar e proteger a cor. Não jogue os dados de muito alto porque eles podem quebrar. Role os dados gentilmente da mão ou de um copo".

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Há infinitos materiais na prisão que podem ser esculpidos num dado, como sabonete, aspirina e desodorante. "Tentar lembrar qual número vai em qual lado é a parte mais difícil", relembra Gabriel R., um ex-presidiário da Pensilvânia.

O D6 padrão feito de papel higiênico moldado. Foto: Gabriel R.

Durante seu tempo atrás das grades, Gabriel fazia dados com o recurso mais comum de todos: papel higiênico. "Você nem precisa de cola, só papel higiênico mesmo", ele diz. "Era só dobrar o papel num cubo bem grosso, molhar depois enfiar num canto. Você faz isso fárias vezes, sempre aplicando água, e ele começa a secar, alternando os lados. Eventualmente você tem um dado quadrado. Quando endurecer totalmente você pode aparar as beiradas. Ele encolhe um pouco e fica bem duro."

Onde May ficou presa, "Ninguém nunca teve problemas (que eu saiba) por fazer dados. Se alguém irritava um carcereiro, a pessoa podia se encrencar por fazer dados (parafernália de apostas) mas os guardas geralmente não nos incomodavam por isso. Para alguém perder seus dados, provavelmente seria durante uma grande revista, onde os policiais entram nas celas e jogam tudo pro ar. Como no mundo real, o pessoal na cadeia junta coisas aleatórias. Eles revistam tudo regularmente, ou quando alguém tem uma overdose ou algo assim. Quando entrei para a segurança média e mínima, eles pararam de confiscar meus dados, e esse tipo de revista onde eles jogam tudo fora era muito mais raro".

"Pariahdog119" ofereceu o seguinte conselho: "Se a prisão proíbe D&D, jogue Pathfinder. Eles não sabem que é a mesma coisa. Não tenha um dado de seis lados. Use um D12 numerado de 1 a 6 duas vezes".

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Foto: Bryan Hibbard

Roletas

Felizmente, quando ser pego não vale o risco, há várias outras maneiras de fazer as jogadas sem envolver nenhum dado.

Quando estava preso no Texas, Micah Davis decidiu não brincar com a sorte. "Nunca usávamos dados. Isso era pedir para se encrencar com os carcereiros. Cada unidade tinha suas próprias regras sobre parafernália de D&D. Algumas não permitiam os livros. Outras não permitiam as fichas de personagens. Mas dados eram proibidos no sistema inteiro. Como alternativa, fazíamos roletas."

Roletas envolvem mais partes, mas têm menos chances de serem jogadas fora numa revista.

Jeremy George, ex-carcereiro do Departamento de Justiça Criminal do Texas e jogador de D&D, diz que fazia vista grossa para roletas. "Alguns detentos usavam roletas cuidadosamente desenhadas com anéis concêntricos, cada anel representando um dado diferente. O braço da roleta geralmente era um clipe de papel, que tecnicamente era um contrabando menor, mas que geralmente não valia a pena confiscar."

Roletas típicas podiam ser feitas com equipamento como visto aqui por Bryan Hibbard, um ex-presidiário da Flórida. Ele fez sua roleta com um clipe de papel e uma pilha AA. "Você pode comprar pilhas na cantina se tiver dinheiro", ele diz.

Foto: Bryan Hibbard

Quando ficou detido numa prisão americana na Coreia, Thommy "Uewneeq" Irvine criou uma roleta única com copos de isopor: "Usávamos dois copos de isopor na prisão militar. No copo interno, embaixo escrevíamos de 1 a 4, um pouco mais acima de 1 a 6, mais acima de 1 a 8, depois de 1 a 10 e no topo de 1 a 20. No segundo copo, fazíamos pequenas janelas grandes o suficiente para ver o número por baixo. O mestre girava o copo interno embaixo da mesa até o jogador pedir para parar, depois alinhava os números nas janelas apropriadas".

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Mesmo que roletas não violem explicitamente nenhuma regra, como tudo mais que os detentos possuem na cadeia, elas podem ser apreendidas. Micah Davis lembra que enquanto estava preso no Texas, "Os carcereiros sempre confiscavam nossas coisas. A primeira coisa que você faz toda vez que um guarda chega é esconder a roleta e todo mundo parar de jogar. Alguns guardas ficavam de boa, outros ficavam em cima do muro. O mais comum eram os cuzões procurando qualquer motivo para te ferrar, então eu escondia a roleta embaixo de um livro ou algo assim até ele ir embora. Mas ainda perdi algumas roletas".

Foto: Thommy "Uewneeq" Irvine

Baralhos

Por mais estranho que pareça, muitas prisões que proíbem dados para impedir apostas permitem que os detentos tenham baralhos. As cartas podem ser divididas de várias maneiras para escrever números aleatórios.

Segundo Aaron Klug, um mestre de D&D preso no Departamento Correcional do Colorado, isso pode ser feito removendo todos os coringas, rainhas e reis do conjunto de 52 cartas. Isso te deixa com As, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10. "Você separa por cor, vermelho e preto. Escolhe uma cor como números de 1 a 10, outra de 11 a 20." Quando você tem mais de um conjunto de cartas (e não se importa de desenhar nelas), ajuda escrever no número diretamente na carta.

Mas se não está disposto a escrever nas cartas, você pode fazer um sistema de loteria e poupar seu baralho para um bom e velho jogo de Paciência.

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O sistema de loteria funciona escrevendo os números de 1 a 20 em pedacinhos de papel e os colocar num boné, copo de café ou até – como um detento sugeriu – uma meia velha de ginástica. Precisa rolar o D6? Separe os números de 1 a 6. A caixa original azul de D&D tinha peças que serviam exatamente para isso. Peças velhas de Scrabble, contas e dominós são soluções criativas também, especialmente se você tem uma canetinha para escrever os números.

Foto: Elisabeth de Kleer

Mapas, miniaturas e fichas de personagens

Para alguns grupos, o impulso para ser criativo vai além da fabricação de dados. Apesar de coisas como miniaturas, mapas e fichas de personagens geralmente serem permitidas, encontrar recursos para criá-los nem sempre é fácil. "A 4ª ediçã [de D&D] era a pior para os prisioneiros", diz Micah. "Você tinha que ter mapas e miniaturas para tudo."

Enquanto estava encarcerado numa prisão em Massachusetts, Joe achou um jeito de resolver o desafio: "As miniaturas eram feitas usando um tubo de protetor labial para furar chinelos, usávamos os pedaços circulares para marcar nossos personagens ou monstros". Como em qualquer boa sessão de jogo, eles também armazenavam combustível de gamers com antecedência. "A gente sempre comia um monte de salgadinhos e cookies durante o jogo, mas não tínhamos refrigerante, então era sempre chá ou chocolate quente para beber."

Em Ohio, o grupo de Pariahdog119 criou um mapa de batalha elaborado com peças de outros jogos. Peças de War representavam os personagens, peças de Trivial Pursuit eram personagens não jogáveis (NPC) médios, letras de Scrabble era NPCs grandes, peças maiores de Trivial Pursuit eram NPCs maiores ainda, e uma tampa de pote de geleia virava um Colossal. Tudo isso em cima de um mapa de papel quadriculado.

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Foto: Micah Davis

Segundo Micah, as fichas de personagens e outros itens de jogo precisavam ser escritos à mão, como no caso desse contrato do jogo feita por um jogador chamado "Hate" para um jogo de Pathfinder. "O coitado fez umas 10 cópias", diz Micah.

Por mais inofensivos que esses materiais pareçam para quem é familiarizado com RPGs, muitos detentos disseram que não é incomum carcereiros confundirem seus materiais de jogos com algo mais perigoso. Para guardas novatos, um contrato do jogo com o diabo pode parecer material satânico; D20 são parafernália de apostas; mapas são planos de fuga.

"Nunca joguei ou mestrei um jogo onde os personagens tinham que escapar de uma prisão", diz Micah. "Seria muito na cara. Pensando agora, a gente evitava o clichê de estar num calabouço cheio de monstros porque já estávamos num calabouço cheio de monstros."

Felizmente, alguns carcereiros são jogadores também. São esses caras que podem ajudar um detento quando seu material de jogo chama atenção negativa.

Jeremy George, ex-carcereiro do Texas, é uma dessas pessoas. "Uma vez, durante um bloqueio de uma unidade, os cubículos dos detentos estavam sendo revistados para encontrar contrabando quando um guarda achou um mapa detalhado durante a busca. Ele achou que era um mapa de fuga da unidade, mas eu expliquei que era um mapa de D&D. Ele deixou o mapa lá me chamou de nerd! Há! Depois disso, muitos detentos sabiam que eu eram um jogador e me pediam suplementos para os jogos. Especialmente quando o Pathfinder 3.5 foi lançado."

Foto: Aaron Klug

Quando Jeremy observava as partidas na prisão, ele sabia que os detentos não estavam apenas passando o tempo, estavam aprendendo a trabalhar em equipe e a construir personagens. "Acredito mesmo que RPGs podem ajudar a combater os problemas mentais em crescimento no sistema prisional." Então, num sistema cheio de equívocos sobre jogos, ele fazia o que podia para ajudar os jogadores: "Eu sempre encorajava esses grupos e sempre tirava um tempo para explicar o que eles estavam fazendo para alguém da equipe que ficava curioso. Os jogos geralmente eram um jeito de ganhar o respeito dos detentos. Confiança e respeito são importantes na prisão, tanto para os guardas como para os detentos".

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