Sexo

Experimentei bondage japonês para aprender tudo sobre a beleza de ser amarrada

Também aprendi muito sobre dor, hematomas e o quanto o meu ombro aguenta antes de se deslocar.

Por Djanlissa Pringels; fotos por Sabine Rovers
02 Agosto 2018, 9:00am

Todas as fotos por Sabine Rovers.

Este artigo foi originalmente publicado pela VICE Holanda.

O bondage japonês, também conhecido como kinbaku ou shibari, é uma forma centenária de BDSM, focada na estética de ser amarrado com cordas e na excitação de se estar completamente à mercê da pessoa que manuseia essas cordas. Com o shibari, a pessoa basicamente transforma-se numa escultura humana, enquanto é sexualmente estimulada – pelo menos essa é a ideia. É arte, mas também é sexo!

Sempre fui fascinada pela ideia do bondage, mas nunca considerei seriamente pedir a alguém para me amarrar e pendurar no teto. Para mim, um corpo nu amarrado pode parecer sexy, mas também me parece extremamente doloroso para a pessoa amarrada – demasiado doloroso para ser realmente excitante.

Para descobrir porque é que as pessoas curtem shibari, entrei em contacto com Bob Roos, que comanda o site de fetiche Ropemarks. O homem, de 48 anos, residente em Amsterdão, realiza workshops de BDSM há 20 anos e é especialista em bondage japonês, portanto parecia ser a pessoa certa para me mostrar todo o processo.

Primeiro passo

Alguns dias depois de entrar em contacto com Bob, estou no seu apartamento, onde as paredes são decoradas com desenhos de super-heróis da banda desenhada... amarrados. Antes de começarmos, sentamo-nos no terraço e ele dá-me uma aula rápida sobre o seu fetiche favorito.

“O bondage japonês começou com os polícias que tinham de amarrar as pessoas que prendiam”, conta. E acrescenta: “Antigamente, as forças de segurança japonesas tinham de usar cordas para transportar criminosos e os oficiais tinham de aprender nós complicados para restringir os movimentos desses detidos. Esses mesmos oficiais levaram depois esse conhecimento para o quarto”.

Spring, a parceira de Bob, junta-se a nós no terraço; reconheço-a imediatamente das fotos promocionais do Ropemarks. A realidade crua das fotos em que ela aparece faz-me pensar na forma como o BDSM é higienizado em filmes como Cinquenta Sombras de Grey. Bob diz-me que odeia a forma como o soft porn dá uma impressão falsa da verdadeira natureza do bondage. “As pessoas vêem esses filmes e chegam aqui a querer amarrar e suspender os parceiros do teto, mas não percebem que é muito mais difícil do que parece. As cordas podem rebentar muito facilmente", explica.

Bob decide então que é uma boa altura para me contar histórias de pessoas que se magoaram quando as cordas rebentaram e começo a pensar se ter vindo terá sido uma boa ideia. Aparentemente, danos nos nervos é um grande risco associado ao bondage japonês. E, enquanto noutras formas de BDSM é mais fácil reparar quando algo não está, Bob acrescenta que pode ser mais complicado ver quando um nó shibari não está a funcionar correctamente, até ser demasiado tarde.

Bob a colocar-me em posição

“Mas, a segurança vem em primeiro lugar”, garante-me, provavelmente ao sentir a minha relutância. Especialmente para recém-chegados, “é importante ter a certeza que nada está a ser beliscado... cada segundo que passas sem comunicar com a parte do corpo que está amortecida pode causar danos sérios aos nervos”.

É altura de começar. Primeiro, Bob tem que testar a minha flexibilidade puxando-me os braços para trás. "Isso vai ser confortável?", pergunto. “Não”, ri-se, acrescentando que o bondage de suspensão é principalmente sobre dor – não necessariamente das cordas, mas das posturas. “Tens que te manter a respirar e esperar que passe”, diz Spring. Ao fazer isso, em algum ponto, entras no chamado “espaço da corda” – um tipo de transe onde as endorfinas começam a inundar-te o cérebro.

Enquanto ao fundo se ouve uma música eletrónica, Bob começa a amarrar-me as mãos atrás das costas, de maneira controlada e rítmica. Reparo que está a começar a assumir uma postura mais dominante. Não sei o que se passa atrás de mim, mas sinto as cordas a apertar.

Bob amarra-me até um ponto onde só consigo mexer a cabeça. Enquanto estou ali parada, quase completamente incapacitada, calmamente ele descreve como desenvolveu o seu fetiche. Tudo começou com um fascínio por super-heróis. “Quando tinha oito anos, a minha avó deu-me uma banda desenhada com a imagem da Mulher-Aranha amarrada”, revela, dando assim algum contexto para a arte que tem pendurada nas paredes. E acrescenta: “Depois disso, comecei a procurar livros de BD que mostravam mulheres amarradas”.

Quando recebeu o seu primeiro livro, Bob era muito novo para associar o fascínio a sexo, mas depois de começar a ver porno quando era adolescente, acabou por se deparar com essa categoria de BDSM. Desde então, conta, abre-se com todas as suas namoradas sobre este gosto por bondage.

Não consigo mexer-me, mas estou a gostar da conversa. De repente, Bob puxa-me para cima por um lado do meu corpo. Grito. A minha maior preocupação nesta altura é o meu ombro, que desloquei quando tinha 14 anos, mas, felizmente, o braço continua no sítio certo. Começo a ficar tonta, quando Bob me diz para manter meus os dedos a moverem-se, de forma a ele poder verificar se nenhum vaso sanguíneo está a ser bloqueado.

Bob gosta mesmo de surpresas. Momentos depois, sem nenhum aviso, contorce o meu corpo em várias posições diferentes, completamente à sua escolha. Estou a ser suspensa cada vez mais alto, até mal conseguir tocar o chão, depois sou novamente baixada. Sinto-me como um móvel antigo, pendurada por um sistema de roldanas, a ser levantada por vários andares. É como se fosse uma personagem no jogo dele e não tenho a certeza se a dor que estou a sentir é boa ou má. “Essa sensação é exactamente o que gosto nisto”, atira Spring, enquanto toma chá numa mesinha perto de nós. E salienta: “Enquanto sou lentamente amarrada, vou-me rendendo à dor devagar e, eventualmente, aceito-a de corpo inteiro”.

Bob a suspender-me

Pergunto a Bob se isto não é tudo um pouco complicado demais, especialmente naquelas alturas em que ele e Spring querem dar uma rapidinha. “Nem sempre temos vontade de fazer bondage, mas o nosso sexo sempre é meio kinky”, responde.

Bob amarra algumas cordas em volta dos meus ombros. A dor e a pressão estão lentamente a ficar mais suportáveis, até um ponto em que me sinto bastante confortável, como receber uma massagem firme num músculo tenso. Bob percebe e pergunta se estou a gostar. Digo que sim, o que ele entende como uma deixa para me puxar as pernas para cima até ficar pendurada num certo ângulo, com o sangue a acumular-se na minha cabeça. A dor regressa.

A minha cara está vermelha como um pimentão e Bob não é meu namorado, portanto a atmosfera na sala não é exactamente sexy, mas, pelo menos, estamos todos a divertir-nos. Agora que estou suspensa, consigo entender melhor porque é que algumas pessoas se excitam ao ficarem completamente sem controlo. Tens que entregar o controlo total a alguém que pode fazer qualquer coisa contigo, porque resistir fisicamente dói.

Depois, Bob diz, as pessoas podem escolher ir um passo além. “O sexo pode ser uma parte importante do bondage”, afirma Bob. E acrescenta: “Por exemplo, as mulheres podem pedir para terem as pernas amarradas numa certa posição, para serem penetradas enquanto estão suspensas. Também há jogos de bondage japonês específicos, onde a mulher é colocada no que é tradicionalmente considerada uma pose humilhante, como com os braços amarrados para trás e os seios pressionados para a frente. Essa pose não é vista exactamente dessa maneira no Ocidente, mas, geralmente, é considerada uma pose humilhante no Japão”.

Bob vira-me outra vez. Estou a acostumar-me com as manobras e começo agora a sentir-me bastante bem. Bob repara nisso e liberta a corda que me sustenta a cabeça, fazendo-me virar de cabeça para baixo. A tontura regressa, mas desta vez tento relaxar o corpo e, gradualmente, sinto-me mais leve. Não consigo mexer-me, mas – ao contrário de há pouco, quando fiquei ansiosa – agora sinto uma sensação de liberdade. Sei que certos exercícios de respiração durante o sexo podem prolongar e intensificar o orgasmo e aposto que esses orgasmos podem ser explosivos quando estás no “espaço da corda” – apesar de ainda não estar a sentir-me particularmente excitada.

As marcas de corda depois da minha sessão.

Bob dá um último passo mais além – desprende-me cabelo e amarra-o outra vez com uma corda. Depois, puxa-me o cabelo para cima, forçando-me o pescoço num ângulo difícil. O meu corpo está tenso por inteiro, sinto-me hiper-consciente do meu cabelo e músculos. “Tenho que admitir que realmente gosto de estar no controlo”, diz Bob.

Então, está na altura de Bob me libertar. Consigo sentir o fardo a deslizar dos meus ombros, literal e figurativamente. Posso finalmente mover-me e estou aliviada por sentir o chão sob os pés. A corda deixou-me marcas no braço – marcas que, no dia seguinte, se transformam em hematomas.

É fácil entender como o bondage pode melhorar a vida sexual – é algo desafiador, imprevisível e exige que te entregues totalmente ao parceiro. Além disso, o aspecto visual é incrível. Mas, não acho que vá levar esta experiência para o quarto. Apesar de gostar de como as marcas da corda e a ligeira dureza no meu pescoço parecerem um chupão de amor, acho que sou demasiado impaciente para bondage japonês. Demora algum tempo para ser completamente amarrada e, quando finalmente estiver suspensa, já vou ter perdido o interesse em qualquer acto sexual.

No geral, foi divertido experimentar, mas quando estou no mood, estou mais preocupada em fazer sexo do que em criar uma arte suspensa humana.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.