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Entretenimento

Leeroy Jenkins e a Mudança na Face da Internet

Como um nerd kamikaze do World of Warcraft em 2005 fez o mundo dos vídeos virais mudar completamente.
15.5.15

Mais uma vez: O vídeo de Leeroy Jenkins faz dez anos.

Esta semana marcou o décimo aniversário de um dos mais populares pilares da internet: um vídeo cuja fama dependia do tipo de pessoa a que a internet pertencia dez anos atrás, homens de 20 e poucos anos que curtiam MMORPGS. Sim, Leeroy Jenkins, o brasileiro que adorava galinhas e que (supostamente) estragou dez anos atrás uma partida de World of Warcraft quando, no estilo kamikaze, se jogou cedo demais numa batalha para o desespero de um bando de paladinos e guerreiros nerds.

Nesses dez anos, a internet mudou de um jeito que ninguém teria previsto. Para começar, os geeks foram empurrados para o cantinho escuro da web por comentaristas de futebol, tias do Facebook e todo o resto do pessoal no mundo ocidental. O compartilhamento instantâneo de informação se tornou tão sucinto que viajar por centenas de sites para ver vídeos e imagens é coisa do passado. Todo mundo só usa uns cinco sites hoje: Google, YouTube, Twitter, Facebook e a fonte de notícias que coincide com sua própria inclinação política. Tudo isso se junta para bombear as mesmas coisas nos nossos feeds. Seu amigo compartilhou uma coisa no Facebook? Alguém já tuitou isso. E outra pessoa pode ter postado no Ello também, mas quem diabos entra lá, né?

Acabaram-se os dias em que você tinha de ir ao eBaum's World; em seguida, ao NewGrounds; depois, ao Liquid Generation ou ao YTMND. Naquela época, o conteúdo estava disperso através de diferentes canais, a internet era um cruzamento de tubos postais pneumáticos entregando lolcats e vídeos de "fail" em conexões instáveis de internet discada. Agora, ficamos sentados nas nossas cadeiras, cobertos de farelo de salgadinho, esperando alguma coisa bombar.

Leeroy Jenkins nunca bombou. O vídeo nunca esteve na seção "Explore" do Twitter, nem naquele mural lateral do Facebook. Isso nunca foi um artigo "Estes Jogadores de WoW Planejavam Um Ataque, e Você Não Vai Acreditar no que Aconteceu Depois". Antes disso, um vídeo se tornar viral dependia de você querer ou não. Milhões de coisas eram ignoradas, consideradas pouco engraçadas ou desimportantes, mas muitas continuaram ali. Desenhos em flash, como Bananaphone, já foram os exemplos mais compartilháveis de meme. Qual foi a última vez que você se empolgou com um desenho em flash? Quando foi a última vez que um personagem mal desenhado, com a voz gravada num daqueles microfones velhos que pareciam uma mistura da lâmpada da Pixar com criatura do Prometheus, chegou à sua homepage do YouTube? Esse tipo de criatividade DIY tosca porém sincera morreu faz tempo, e a possibilidade de isso voltar é a mesma de ressurgirem as salas de bate-papo sobre Britpop e a pornografia paga.

Por quê? Porque simplesmente há muito dinheiro em jogo agora. Assim que um "criativo da internet" sente o cheiro do sucesso, ele já está patrocinado, seus cliques viram centavos e ele acaba editando para algum estúdio de TV antes que você consiga dizer "Shoop Da Whoop". O poder de discernimento mudou da gente para as pessoas que sempre o tiveram: editores, empresários, marqueteiros – profissionais cujo trabalho é fazer você assistir a coisas, não te deixar assistir se você quiser.

Uma nostalgia amarga por essa era online mais democrática é sentida em muitos cantos da internet. Nenhum aspecto que não se tornou muito showbiz necessariamente sente que precisa se exilar nas regiões escuras. O 4Chan continua aí e o reddit parece menos o filho bastardo: o Max Mosley de seu Oswald. A perversidade e o perigo vão se tornando mais raros quanto mais a cultura se simplifica e homogeniza.

Ainda há locais para coisas divertidas e estranhas crescerem organicamente. O Vine deu a uma geração de adolescentes a oportunidade de criarem coisas sem a influência de grandes negócios, sem se importar se isso é WTF ou LOL no contador do Buzzfeed. Claro, o desejo natural de ser amado e compartilhado ainda está ali. Há gente cantando, querendo atenção, zoando. Mas há uma sensação de liberdade nisso. E na sua espontaneidade inerente não há o tipo de estudo de narcisismo que permeia o YouTube na forma de vloggers e o Instagram na forma de tudo.

Costumava ser uma surpresa quando algo se tornava viral. Hoje em dia, isso é um direito, uma expectativa. Leeroy Jenkins provavelmente é um cenário que só algumas pessoas, por direito, deviam achar engraçado. O vídeo foi simplesmente jogado online. Não havia uma equipe de mídia por trás disso, nem a hashtag #PeloMenosPegueiUmFrango.

Cada vez mais parece que estamos sendo roubados da nossa escolha de decidir se as coisas se tornam virais ou não. Dado o clima atual de horror constante em cada esquina, isso pode parecer pouco importante. Mas não é. A internet cresceu na última década de um espaço marginal ocupado por jogadores de WoW para a galeria mais importante da nossa cultura. O brasileiro Leeroy Jenkins é uma relíquia global. Um lembrete de que um dia a internet nos deu o poder de escolha e de tornar "famoso" o que quiséssemos – antes dos vídeos que começam automaticamente no Facebook, antes que conteúdo publicitário fizesse a gente se sentir tão inteligente quanto todo outdoor ou propaganda de TV. Em termos online, Leeroy Jenkins é um patrimônio da humanidade: ele merece uma placa azul no grande memorial das almas perdidas da internet.

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