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Otan 2014: 100 Manifestantes Versus “a Maior Operação de Segurança da História da Grã-Bretanha”

Como todo ano, manifestantes apareceram na cúpula da Otan, reunida em Newport na semana passada, para relembrar os líderes mundiais do quanto eles são escrotos.
9.9.14

Como todo ano, manifestantes apareceram na cúpula da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), reunida em Newport na semana passada, para relembrar os líderes mundiais do quanto eles são escrotos. No entanto, diferentemente dos anos anteriores – quando bastante gente apareceu para segurar cartazes para presidentes e primeiros-ministros a um quilômetro de distância –, o acampamento de cerca de 100 pessoas do lado de fora do Celtic Manor Resort estava bem miado. Pode até parecer uma avaliação cínica, mas foram os próprios manifestantes que sugeriram isso.

É fácil dizer que protestos assim são inúteis, e muitas pessoas – incluindo revoltosos desiludidos – afirmam exatamente isso. Eu não ia usar esse argumento contra os manifestantes antiOtan; acho incrível, aliás, que as pessoas ainda se importem tanto com os “fomentadores de guerra” a ponto de acampar num terreno enlameado para tentar derrubá-los, por mais otimista que esse processo de pensamento seja.

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Mas vendo o que eles iam encarar neste ano – 10 mil policiais (muitos armados e com cães), quilômetros de cercas de metal ao redor dos locais de reunião, veículos blindados, helicópteros, forças especiais norte-americanas, navios de guerra britânicos, franceses e holandeses e o exército britânico –, parecia que os esforços deles não iam muito longe. Eram 100 pessoas enfrentando o que foi chamado de a maior operação de segurança já vista no Reino Unido.

Ainda assim, eles estavam lá e planejavam fazer tudo o que fosse possível para atrapalhar a reunião, então fui a Newport para tentar descobrir quais eram seus planos.

O acampamento antiOtan em Newport.

Convenientemente, cheguei bem no dia do planejamento. As pessoas tinham se organizado em grupos por afinidade e estavam discutindo seus respectivos planos de ação. Eles organizaram oficinas de autodefesa; de como atravessar as fileiras policiais; de como libertar ativistas presos pela polícia, e de “saiba quais são seus direitos se você for preso”.

Sendo jornalista, eles não me disseram logo de cara o que ia acontecer. Mas consegui me infiltrar num dos grupos de afinidade e segui com eles até Cardiff. Eles tinham organizado uma estadia alternativa lá, temendo que o acampamento do lado de fora do resort fosse invadido pela polícia.

No dia seguinte, sem saber qual era o plano, segui o grupo de volta a Newport. Aqui, os ativistas já estavam marchando em direção ao Celtic Manor Resort.

Claro, a marcha não podia ir muito longe, já que havia um enorme muro de metal bloqueando o caminho (um muro que agora está sendo enviado ao porto de Calais, para impedir que imigrantes tentem entrar ilegalmente no Reino Unido). Emputecidos com a barreira, os manifestantes começaram a tentar derrubá-la.

Infelizmente para eles, parece que quem construiu o muro não queria mesmo que ninguém passasse. Sem conseguir muito resultado, os ativistas resolveram bater no metal e xingar a polícia através das janelinhas de vidro do muro.

Jake (esquerda) e James, moradores de Newport.

Sem saber o que fazer depois, conversei com um grupo de pessoas que estavam tentando atravessar o muro.

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VICE: Por que você está aqui hoje?
James: Para me divertir.

Você mora aqui perto?
É, moro no final da rua. Vi os manifestantes chegando e um monte de porcos do outro lado do muro – por que eles simplesmente não morrem?

Você sabia sobre a reunião da Otan antes, ou só decidiu vir porque viu os policiais?
Sim, eu sabia. Ouvi falar sobre os protestos. Inicialmente, vim pra cá para começar um tumulto, aí vi que essas pessoas estão lutando por uma boa causa.

Então você odeia a polícia?
É. Assim que eles derrubarem o muro, vou avançar pra cima deles.

OK. E a Otan?
Quanto a Otan, acho que a guerra nuclear não é uma coisa boa – é sobre isso que eles estão falando lá. E a Palestina deveria ser um país livre. O que tem de errado nisso?

Sentimentos similares, Jake?
Sim, claro. Também moro aqui perto. Todos esses policiais são um pé no saco. Eles estão por toda Newport, absolutamente em todo lugar.

Alguma coisa a acrescentar?
James: Foda-se a polícia e foda-se a Otan. Vão todos tomar no cu.
Jake:É, bem colocado.

Legal, obrigado.

Meryl.

Antes que todo mundo começasse a chutar o muro, alguns moradores locais e um pequeno grupo de representantes da Campanha pelo Desarmamento Nuclear (CDN), Greenpeace e Stop the War tiveram permissão para passar pela cerca e entregar cartões-postais e flores para uma delegação mandada pela Otan.

Meryl, uma das moradoras que teve permissão para entrar, tentou, enquanto cidadã, dar voz de prisão aos membros da delegação da Otan. Batemos um papo quando ela voltou do outro lado.

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Oi, Meryl. O que aconteceu ali?
Meryl: Quando passamos pela barreira, foi como naquele filme Eu, Robô. Sério. Capacetes, armaduras, escudos, armas prontas para atirar. Centenas de malditos policiais. Fiquei aterrorizada; 500 ou 600 policiais para proteger as duas pessoas que vieram receber nossa delegação. Coloquei minha mão nos ombros deles, um de cada vez, e disse: “Vocês estão presos por cumplicidade com criminosos de guerra”. Eu disse “Vou entregar vocês para a polícia”, e esse policial de alto escalão disse: “Bom, depois decidimos se vamos querer investigar”. Eu só queria demonstrar esse ponto.

Até aonde vocês foram além da barreira?
Alguns metros. Passamos por todas as casas do outro lado da cerca. Os policiais estavam nos jardins das pessoas. Havia vans da polícia do lado de fora das casas, com policiais armados e com cães. Policiais escondidos nas árvores na esquina.

Então tem gente que mora do outro lado do muro?
Sim, uma comunidade foi completamente dividida. É chocante. Todos os residentes devem ter sido investigados. Não sei com certeza, mas talvez alguns deles tenham sido tirados de suas próprias casas, ou talvez os policiais nos jardins não os deixem sair.

Você acha que alguém vai ler seus cartões-postais?
Eles vão estar no lixo antes de chegarem a Celtic Manor. Alguém levou flores brancas – elas vão acabar no lixo também. Ninguém vai ler os cartões-postais. Eles não dão a mínima. Também entreguei uma carta de uma fundação turca. Os turcos estão muito preocupados com o que está acontecendo lá. Eu disse isso do outro lado do muro, e eles responderam: “Nossa polícia já foi além – aqui eles atiram nas pessoas o tempo todo”. Essas pessoas precisam ser ouvidas. Tanta gente precisa ser ouvida, mas ninguém está [sendo ouvido], fora o 1% que está no topo.

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Obrigado, Meryl.

A próxima parada do dia foi o Castelo de Cardiff, onde os delegados da OTAN iriam jantar. A Stop the War tinha organizado um comício, que contou com a presença de algumas centenas de manifestantes. Todo mundo estava esperando o Barack Obama passar com sua comitiva, o que não aconteceu – provavelmente por haver outras entradas para o castelo e pelo pessoal da segurança não ser idiota.

Parece que os ativistas com quem eu estava tiveram seus planos frustrados por esse desenvolvimento da situação, e não havia um plano B. Em vez disso, eles correram até a multidão de modo bem suspeito e visível, enquanto a polícia ficava de olho neles.

O resto do comício seguiu um tema similar: as pessoas reclamaram que pouca gente tinha vindo e que isso teria sido um protesto de verdade se mais anarquistas tivessem aparecido.

No dia seguinte, algumas pessoas do acampamento organizaram uma ocupação numa agência Barclays para protestar contra os investimentos deles na companhia israelense Elbit. E essa foi mesmo uma ação bastante militante se comparada à que eu tinha visto nos dias anteriores: os manifestantes entraram na agência de Newport gritando e cantando, depois deitaram no chão.

Antes de a polícia chegar, quatro ativistas colaram as mãos com supercola nos balcões.

Os policiais conseguiram expulsar todo mundo do prédio eventualmente, menos as pessoas coladas. Depois de mais ou menos uma hora, um kit de “descolagem” foi trazido e os ativistas foram detidos por invasão.

As autoridades esperavam que milhares de manifestantes aparecessem para essa reunião de cúpula. No final das contas, só algumas centenas estavam lá, e poucos se envolveram em ações diretas. Havia um sentimento palpável entre os ativistas com quem conversei – gente que estava planejando esse protesto há um ano – de que o evento tinha sido bastante anticlimático.

Mas, ei, pelo menos ainda existem pessoas dispostas a fazer prisões de cidadão de servidores públicos e se colar nos móveis da Barclays para alcançar a paz. No final das contas, 100 manifestantes são melhores que nenhum.

@oewbb

Tradução: Marina Schnoor