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O submundo ilegal das bailarinas do Irão

As professoras e alunas que levam a cabo aulas secretas e silenciosas de ballet, no País que considera a dança um pecado, mas faz vista grossa se o suborno for bom.

Por Beulah Devaney
27 Janeiro 2016, 5:30pm

Foto por Amanda Large via Stocksy.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Broadly.

Conheci Ada* numa festa no topo de um prédio em Amsterdão. Estávamos à volta da mesa de petiscos e, relutantes em deixar a nossa posição privilegiada perto das batatas fritas e com vista para turistas embriagados a caírem no canal Prinsengracht, começámos a trocar ideias. Ada, uma web designer iraniana, contou-me sobre como uma vez, quando era adolescente, conseguiu enganar a polícia da moralidade de Teerão, ao correr para dentro de uma loja na esperança de que eles passassem sem a verem, mas reparando depois que eles tinham entrado atrás dela.

"Costumavam verificar o nosso esmalte dentário para verem se não era muito brilhante, ou sedutor", diz ela entre risos. "Cada agente da polícia tem uma ideia diferente do que pode excitar os homens e era difícil saber como iam reagir. Mas eu sabia que eles odiavam roxo e corri para a loja. O dono da loja viu-me e abriu a porta dos fundos. Fugi pelo beco atrás da loja enquanto ele dizia aos policias que não me tinha visto".

Parece uma coisa saída da resistência francesa. "Era mesmo resistência! Usávamos luvas para esconder as unhas pintadas e truques para nos safarmos usando o máximo de maquilhagem possível. É isso que o governo nos faz. Fazem-nos pensar que pintar as unhas é uma coisa muito rebelde. Fazem com que te importes com essas pequenas coisas e depois não tens energia para lutares pelo que é realmente importante".

"Depois de o Governo do Xá ser derrubado, dançar foi considerado pecado. A Companhia Iraniana de Ballet foi dissolvida em 1979, logo depois de todos os dançarinos estrangeiros fugirem do País".

Seis meses depois da nossa conversa, Ada enviou-me um e-mail de Teerão. Tinha ido à sua primeira aula de ballet em anos e estava eufórica. Disse-me que tinha procurado o "tipo de anúncio certo" no jornal local, acompanhado fóruns da internet, ligado para números misteriosos, contado com amigos para ter uma referência de carácter e, finalmente, ganhou acesso às aulas secretas.

Dançar é ilegal no Irão. Antes da Revolução Iraniana de 1979, a cena das artes fervilhava no País, especialmente programas de dança que combinavam elementos tradicionais com disciplinas ocidentais como o ballet. Depois de o Governo do Xá ser derrubado, dançar foi considerado pecado. A Companhia Iraniana de Ballet foi dissolvida em 1979, logo depois de todos os dançarinos estrangeiros fugirem do País.

Para os colegas iranianos sobraram três hipóteses: desistir do trabalho de uma vida inteira e encontrar outra forma de pagar a renda; fugir do Irão e refazer a Companhia noutro lugar ( Les Ballets Persans opera atualmente em Estocolmo), ou ficar no Irão e, através de uma combinação de subterfúgios, subornos e dificuldades, continuar a dançar.

Sapatilhas numa aula secreta de balé. Foto cortesia de Ada.

Ada tinha 20 anos quando teve a sua primeira aula de ballet; agora tem 28. "Não gosto de me arriscar e nunca fui a festas ilegais na faculdade", diz, "mas aulas de dança pareciam compensar o risco". Não é só a dança que é proibida no Irão; qualquer música que faça o corpo mover-se espontaneamente é considerada pecaminosa. "É legal desde que não te dê prazer", explica Ada. "Se uma dança ou movimento te dá prazer, isso é pecado".

Oriunda de uma cidade inglesa obcecada por crianças de três anos que rodopiam de tutu rosa ao som do Lago dos Cisnes, é difícil para mim olhar para o ballet como algo arriscado, ou ilícito. Enquanto eu reclamava com a minha mãe porque queria sapatilhas vermelhas, não rosa, Ada tinha que manter as suas aulas de dança em segredo, até mesmo para os pais. Os seus pais provavelmente não a deixariam ir. A polícia costuma fazer rusgas nessas aulas, especialmente se os professores não tiverem pago um bom suborno e, se Ada for apanhada, pode acabar com uma sentença de prisão e expulsão da faculdade.

"Faço sapatos de dança. Eles não podem proibir o fabrico de sapatos".

Naquela época, as aulas decorriam na cave de um hospital abandonado, em salas comerciais, ou discretamente na casa dos professores. Geralmente os professores contavam as batidas para os dançarinos, em vez de arriscarem pôr música a tocar e, assim, alertarem os vizinhos.

A antiga professora de dança de Ada, Azar*, aceitou falar-me sobre a ameaça constante da intervenção policial. "Há sempre a possibilidade de a polícia chegar e nos prender", realça. "Digo sempre aos meus alunos que não lhes posso garantir a segurança. Mas tento ser muito cuidadosa. Só aceito alunos que foram indicados por outros alunos. Não faço publicidade, como alguns professores que entregam o seu cartão de visita nas ruas".

A divulgação das aulas é um equilíbrio delicado: pouca publicidade leva a aulas vazias, muita publicidade pode atrair o tipo errado de atenção. A professora Yassi*, lembra como a sua antiga mentora fazia. "Ela tinha sempre muito cuidado, mas várias vezes recebeu telefonemas de pessoas do Governo, de escritórios sob controlo directo de Ali Khamenei [o Líder Supremo do Irão], convidando-a para realizar eventos de dança folclórica iraniana no estrangeiro, nalgum evento internacional específico, ou em embaixadas do Irão noutros países", recorda.

"Ofereciam-lhe uma boa remuneração, mas ela não aceitava". A mentora de Yassi acabou por deixar o Irão para ensinar no estrangeiro e Yassi ficou com as turmas dela, certificando-se que não aceitava convites bem pagos do regime para dançar em público.

Imagem via.

A Revolução de 1979 acabou com a carreira de muitos dançarinos, mas também criou oportunidades incomuns para pessoas como Nassrin*, uma jovem bailarina que — quase por acaso — se tornou uma das únicas fornecedoras de sapatilhas de Teerão. Antes da Revolução, dançarinos profissionais e amadores podiam comprar as suas sapatilhas em vários lugares, escolhendo entre modelos básicos e baratos e sapatilhas de alta qualidade.

Trinta e cinco anos depois, os fabricantes de sapatilhas de Teerão mudaram-se, morreram ou desistiram. Nassrin anuncia o seu trabalho através do Instagram e é bastante filosófica sobre os riscos: "Faço sapatos de dança. Eles não podem proibir a fabricação de sapatos".

"Coloco fotos de sapatos no meu Instagram e isso tem um público bastante específico, a maioria das pessoas não sabe o que esse calçado é. Quando alguns dos meus amigos viram o que fazia, disseram-me que não sabiam que eram sapatos para dançar. Não os reconheceram".

"O Governo ainda diz que dançar é pecado, que não deves dançar, a menos que pagues subornos, assim já podes, mas em segredo...".

A atitude de Nassrin é um desenvolvimento recente na cena de dança em Teerão. Quando Ada começou a frequentar as aulas, as pessoas tinham muito mais medo de serem presas. Agora, segundo ela, estabeleceu-se um ritmo familiar com a polícia. "O governo ainda diz que dançar é pecado, que não deves dançar, a menos que pagues subornos, assim já podes, mas em segredo... Porque é pecado...".

As bailarinas continuam a manter as aulas em segredo, os professores continuam a contar a batida em salas silenciosas e os fabricantes de sapatilhas continuam a ser poucos. Mas as oportunidades de dançar em público estão a aumentar, apesar de ainda ser ilegal que mulheres dancem à frente de homens — os eventos mais recentes são exclusivos para mulheres.

Imagem via.

Yassi explica que as coisas mudaram com a eleição do presidente Hassan Rouhani em 2013. "Há muito mais hipótese de te apresentares, mas eles continuam a pedir muito dinheiro para isso. Cada apresentação custa cerca de 200 milhões de rials (mais de 4.500 euros), o que é muito dinheiro".

Um acordo informal foi alcançado depois de décadas de impasse entre fundamentalistas islâmicos e a relutância do público iraniano em caracterizar dança como pecado: paga e podes dançar. Quando voltou recentemente para Teerão, Ada lembrou-me que o progresso continua dolorosamente lento.

"O novo esquema de pagar para dançar parece um bom desenvolvimento para os dançarinos iranianos, mas o regime ainda se beneficia por não deixar os limites claros entre o que é ilegal e o que é legal", explica. "Isso dificulta se os queres desafiar e a maioria das pessoas vivem ainda mais limitadas tentando ficar fora de perigo. Ambiguidade e medo são as formas mais fáceis de controlar as pessoas".

Há algo inerentemente absurdo em ver pecado numa sala cheia de meninas de sete anos a praticar La Bayadère. Mas até que o Governo iraniano reconheça isso, Ada e as suas colegas de dança vão continuar a ver cada apresentação em público como um triunfo, na grande batalha para manter o ballet vivo no Irão.

*Os nomes foram alterados.


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